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O Holocausto é um dos temas mais instigantes da história da humanidade. Quanto mais se estuda mais se quer saber sobre o assunto. Talvez o motivo seja por que é algo tão desumano que quem não participou diretamente custa a crer que isso aconteceu de verdade. Mas aconteceu. Já fui em um campo de concentração (Sachsenhausen) e saí de lá fazendo mil reflexões a respeito do comportamento humano.

Anos depois me deparo com esse livro, chamado “O Menino do Pijama Listrado”. Escrito por John Boyne , o título é uma narrativa de ficção sobre a amizade entre o filho de um oficial nazista e o filho de um judeu. Separados por uma cerca de um campo de concentração, eles se encontram escondidos e ficam meses conversando entre si. O genial nisso tudo é a ingenuidade infantil em meio a um genocídio histórico. O próprio título do livro já traduz essa inocência. “Pijama Listrado”, só uma criança mesmo para levar o raciocínio a esse ponto.

“O Menino do Pijama Listrado” é uma leitura rápida. Uma madrugada é o suficiente para ler a história na íntegra, tanto por não ser um livro longo (192 páginas), como pela sua facilidade. Essa fluidez não é obra do acaso. Para escrever o primeiro rascunho do livro o autor levou apenas dois dias e meio. Como conta em uma entrevista à Sarah Webb:

I wrote the entire first draft of ‘The Boy in the Striped Pyjamas’ in two and a half days. I barely slept, I just kept writing until I got to the end. The story just came to me, I have no idea where it came from. As I was writing it I thought just keep going and don’t think about it too much. With the other books I plan them all out. I think about them for months before writing anything down. But with this one on Tuesday night I had the idea. On Wednesday morning I started writing, and by Friday lunchtime I had the first draft. The following Wednesday I gave it to Simon. I said ‘I’ve written this book, it’s very different to anything I’ve done before. I think it may be a children’s book but I think adults might like it too.

A obra foi adaptada ao cinema sob a direção de Mark Herman. Entretanto, o filme conta a história de maneira bem superficial e exclui detalhes importantíssimos da narrativa. Nem assistam.

Em contrapartida, o livro é recomendado. É para ler naquele momento em que você não quer fazer muito esforço mental. É um passatempo, mas um passatempo muito mais valioso do que ficar atualizando o feed do Secret. Enfim, separei cinco pequenas passagens bem marcantes desse livro. Lá vai!

1.

“Jovem rapaz”, disse Pavel (e Bruno gostou da cortesia de ele o chamar de ‘jovem rapaz’, e não de ‘homenzinho’, como fazia o tenente Kotler), “eu sou, de fato, médico. Só porque um homem olha para o céu à noite, isso não faz dele um astrônomo, sabia?”

2.

“Não dói tanto assim”, disse Pavel numa voz gentil e delicada. “Não torne as coisas piores, pensando que dói mais do que você realmente está sentindo.”

3.

Todos no campo usavam as mesmas roupas, aqueles pijamas com os bonés de pano também listrados; e todos que passavam pela sua casa (exceção feita à mãe, Gretel e a ele próprio) vestiam uniformes de variadas qualidades e graus de condecoração e quepes e capacetes com grandes braçadeiras vermelhas e negras e traziam armas e estavam sempre com o semblante terrivelmente severo, como se tudo aquilo fosse muito importante e ninguém pudesse pensar diferente. Qual era a diferença, exatamente?, ele se perguntou. E quem decidia quem usava os pijamas e quem usava os uniformes?

4.

“Polônia”, disse Bruno, pensativo, medindo a palavra na língua. “Não é tão boa quanto a Alemanha, é?” Shmuel franziu o cenho. “Por que não?”, perguntou ele. “Bem, porque a Alemanha é o maior de todos os países”, respondeu Bruno, lembrando-se de algo que ouvira o pai comentar com o avô em certo número de ocasiões. “Somos superiores.”

5.

Bruno abriu os olhos, assombrado com as coisas que via. Na sua imaginação ele pensara que todas as cabanas estavam cheias de famílias felizes, algumas das quais se sentavam do lado de fora em suas cadeiras de balanço durante o anoitecer e contavam histórias sobre como as coisas eram melhores quando eram crianças e tinham respeito pelos mais velhos, ao contrário das crianças de hoje. Pensou que todos os meninos e meninas que moravam ali estariam em grupos diferentes, jogando tênis ou futebol, pulando corda e desenhando no chão quadrados para jogar amarelinha. Imaginou que haveria uma loja no centro, e quem sabe um pequeno café como aqueles que ele vira em Berlim; perguntava-se se haveria uma banca de frutas e legumes. Como ele pôde ver, todas as coisas que ele imaginou estarem lá – não estavam.

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Flaubi Farias

Jornalista, parolo, navegador, alienígena e editor do La Parola.
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