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Antes de tudo, seja você cinéfilo ou não, entenda uma coisa: o conceito de adaptação deriva da ideia de um ser ou algo acostumar-se com um novo ambiente, e com isso aderir novas características. No caso do cinema, adaptações de livros, quadrinhos ou qualquer outro tipo de mídia constantemente gera intensos e calorosos debates. Mesmo com argumentos válidos e compreensíveis de quem leu uma determinada obra ou consumiu um produto no seu estágio original, quando a mesma ganha vida nos cinemas é nítida a necessidade de adaptar aos diferentes públicos. Salve algumas poucas adaptações que são tão boas quanto o livro, a grande maioria sempre acaba sendo alvo das mais duras críticas. Com o aclamado Best-seller “Cinquenta Tons de Cinza” não é diferente. Mas engana-se quem acha que o livro deveria ser consumido para adentrar no universo de Christian Grey e Anastasia Steele.

Não li os livros. Assisti ao filme. Continuo sem vontade de ler os livros, mas enquanto obra cinematográfica, feita não apenas para quem leu, mas também para quem não leu o primeiro filme baseado na obra da escritora E.L. James não passa de um falso erotismo conduzido perfeitamente por uma trilha sonora muitíssimo bem encaixada. Sim. Trilhas sonoras, que por vezes acabam sendo apreciadas apenas em tempos de premiações, mas que podem salvar uma produção de um fracasso – com problemas de bastidores, uma diretora insegura e escritora que se tornou uma máquina de fazer dinheiro expondo desejos singulares do ser humano – não importa se você é adepto, se o livro é uma mácula na literatura contemporânea e etc.

Muito se discutiu ao longo das semanas desde que o filme chegou aos cinemas no mês de fevereiro e tanta polêmica só alavancou algo que estava fadado ao lucro. Além de ser o segundo filme mais visto no Brasil nos dois últimos anos, perdendo apenas para “O Homem de Ferro 3”, o primeiro filme da trilogia a seguir os passos dos livros (isso se o estúdio não resolver dividir o último para faturar por mais um ano) já arrecadou mais de US$ 500 milhões em bilheteria mundial. Entre elogios rasgados de alguns e textos gigantescos sobre o quão vazio o filme é, existe na verdade exagero de ambas as partes.

A diretora Sam Taylor-Johnson até tentou dar um requinte ao romance sexual dos protagonistas vividos por Jamie Dornan e Dakota Johnson, e diversos tabloides apontaram que o conservadorismo da diretora só não foi maior porque a autora dos livros interviu, tendo até mesmo o estúdio ao seu lado. Todavia, o lado picante da produção resume-se na trilha sonora encaixada com maestria como uma dança do acasalamento, proporcionando o espectador imaginar como seria aquela cena, evocando sentidos e desejos. A tentativa é até ousada do ponto de vista visual e auditivo. Cenas bem trabalhadas e tendo de fundos nomes como Bruce Springsteen, Snow Patrol, Frank Sinatra e Beyoncé, terminam por ser gabarito o suficiente para momentos pontuais e sensitivos na adaptação. Mas todo o clímax dissertativo das tão esperadas cenas não passam de falsos aperitivos, junto de uma trama na quais foram coladas às frases mais clichês e as desculpas mais descabidas para interação dos personagens.

No fundo, “Cinquenta Tons de Cinza” poderia ser definido em um único tom: oscilante, arrogante e uma colcha de retalhos maltrapilhos daquilo que o sexo já representou nos cinemas em outrora. “Instinto Selvagem” e “O Último Tango em Paris” são apenas alguns dos títulos polêmicos que souberam usar daquilo que o ser humano gosta de pensar, mas que prefere trancafiar em quarto escuro com aquele abajur cor de carne, onde na cabeceira você encontra o exemplar do livro de E.L. James. Troque pela trilha sonora e tenha uma real chance de obter tons variados e inesquecíveis.

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Guilherme Moreira Jr.

Guilherme Moreira Jr.

Cidadão do mundo com raízes no Rio de Janeiro.
Guilherme Moreira Jr.