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Fazer a própria cerveja é mais simples do que parece ser. Talvez nem tão simples para os mais preguiçosos, mas mais possível do que se possa imaginar. O processo da fabricação de cerveja artesanal não exige que seja feito em uma fábrica ou um laboratório. Uma sala com alguns utensílios exigidos e uma paciência de monge budista é o suficiente. Por isso, o mestre cervejeiro é um grande monge da cerveja. Possui as mesmas qualidades: paciência, sapiência e crença.

A Cerveja Pandora está aí para provar que é possível fazer cerveja em casa. Falando em provar, no outro sentido, vale a pena.

Não foi preciso alguém ter dito “se tu não gostas, faça melhor” para eles realmente fazerem. Eles são: André de Felippo Jr, Diogo Zanatta e Felipe Cristiano Ródio. O André é o mestre cervejeiro da Pandora. Ele disse que a ideia partiu em um dia de Natal em que estavam bebendo uma cerveja da qual não se lembra (Certo, quem se lembra qual foi a marca da cerveja de cada festa? Só se for aquela muito especial) e comentaram em como a cerveja comercial brasileira está com muito pouco sabor, focando mais a atividade na venda do que na qualidade. A ideia foi então sedimentada devido à qualidade da cerveja comercial brasileira, com o sabor bem abaixo do esperado para quem aprecia o sabor do malte e não só os efeitos alcoólicos da bebida. Quatro dias depois a Pandora iniciou a produção.

Por vontade própria, sem cursos e acompanhamentos de mestres cervejeiros, a Cerveja Pandora começou a ser produzida em uma sala nos fundos da casa de André, em Passo Fundo. As informações e os métodos foram retirados quase que inteiramente da internet através de textos e vídeos caseiros. Foi com o mestre cervejeiro da Bier Site que algumas sugestões e dicas foram aceitas para o início da produção, bem como a compra do primeiro malte.

Depois de terminada a primeira cerveja chegou a tão esperada degustação. “Estava estranho, mas continuamos bebendo, era a nossa cerveja”, dizem. Beberam mais um pouco até que foram atrás de uma opinião externa, de um ex-mestre cervejeiro da Brahma. A resposta foi essa: “Se o objetivo de vocês era fazer vinho, vocês estão quase lá”. Depois do inusitado episódio as cervejas começaram naturalmente a melhorar, através da experiência adquirida.

“A cerveja que a gente mais faz e que é das cervejas que tem mais sabor é a Strong Golden Ale. O ácool normal dela é de 8%. Depois fizemos algumas pilsen, umas duas ou três, que é o básico da cerveja. A pilsen é uma cerveja que só se cozinha em uma temperatura. Nas cervejas que levam mais de um malte tem-se que trabalhar com gradientes de temperatura”, explica André.

A Pandora, em suma, é uma união de três amigos apaixonados por cerveja e que fazem a própria cerveja para beber. Ao todo fizeram já 15 produções, sempre trabalhando entre 20 a 40 litros por vez. O somatório chega a 400 litros de cerveja já produzidos divididos em todos os tipos já experimentados, que são: Pilsen, Stout, Strong Golden Ale, München Helles, Belgian Blonde e uma nova em fase de testes, a Pale Ale.

 

A produção de cerveja artesanal exige um primeiro investimento: a compra de utensílios. No total, a Pandora calcula ter investido em torno de 3 mil reais. Esse montante foi gasto para a aquisição de panelas, termômetro, filtros, fogareiro, manômetro, sacarímetro e outros objetos menores. Desde que a receita seja posta em prática de maneira fiel e a assepsia seja garantida, o procedimento terá um bom resultado e a degustação será o bicho. O crucial é seguir as etapas e cronometrar o tempo exato de cada. A cerveja mais comum, a Pilsen é uma cerveja que é cozinhada em uma só temperatura. Os outros tipos de cerveja, que possuem mais de um tipo de malte na composição, são feitas com gradientes de temperatura especificados na receita.

Via de regra, o processo da cerveja artesanal é mais difícil em organizar as etapas do que encontrar ingredientes, por isso que a fabricação é possível de ser feita por qualquer pessoa e está em crescimento no país. Os ingredientes básicos da cerveja são: água, malte, lúpulo e fermento. Em algumas existem adições de ingredientes complementares, como é o caso da Strong Golden Ale, onde há o acréscimo de açúcar.

André explicou que existem quatro etapas no processo de fabricação da cerveja artesanal:

1. Brassagem

Consiste na extração do açúcar do malte e na fervura do lúpulo. É um processo bem demorado. É altamente recomendável fazer a braçagem degustando cervejas anteriormente produzidas. O malte deve ser fervido por duas horas para que a água capture bem seu teor. Logo após acontece uma filtragem para outra panela. O malte é retirado e o que sobra no outro recipiente é só o líquido. Só o processo de filtragem de uma panela de 40 litros dura em torno de 20 minutos. Neste momento, mesmo que com temperatura bem elevada, se percebe a primeira similaridade com a cerveja, a cor. Feita a filtragem o líquido volta para o fogo, dessa vez para adicionar os lúpulos. Mais um bom tempo de duração (quase duas horas) e mais cervejas recomendadas para acompanhar o processo.

2. Fermentação

Terminada a braçagem, é hora de levar o líquido à fermentação. Esta etapa é caracterizada por ser quando os levedos produzem o álcool. A cerveja então sai da panela grande e vai para um garrafão, geralmente aquelas bombas de 20 litros, onde permanece por 5 dias.

3. Carbonatação

Carbonatar é quando entra gás carbônico na cerveja. Isso ocorre com a cerveja já engarrafada. O envazamento deve ser feito de forma plenamente asséptica. As garrafas, usadas ou não, devem ser lavadas e iodadas para que bactérias não interfiram no processo e para que a cerveja não se torne um vinho (leia acima). Depois de engarrafada, a cerveja permanece carbonatando em temperatura ambiente. André explicou que a cerveja carbonata de acordo com seu tipo. “Uma Strong Golden Ale carbonata mais rápido que uma Stout, pela quantidade de gás”. Dessas garrafas todas, uma é selecionada como modelo e inserida em sua boca o manômetro, instrumento que fará a medição de gás. O ideal é que a pressão fique em 2,5 bar. Atingida esta medida a cerveja passa para a próxima fase. O tempo para a pressão ideal ser atingida varia de acordo com o tipo de cerveja. A Stout demora geralmente 12 dias e é uma das mais lentas a carbonarem.

 4. Maturação

A útlima fase é a mais longa. A maturação leva cerca de 15 a 20 dias. Basta acomodar as cervejas já engarrafadas em um ambiente refrigerado e esperar. Depois de maturada vêm a melhor fase da cerveja, aquela em que não só os mestres cervejeiros são hábeis a fazer e minha preferida, a degustação.

Stout: “É uma cerveja tipo ale escura. Os degustadores de cerveja dizem que ela tem tons de café, que se dá na verdade porque um de ela possui um dos maltes torrado. Ela possui um fundo mais defumado, mais tostado, que se dá em função disso. De regra é uma cerveja que tem menos espuma, porque carbonata menos e é uma cerveja de um teor alcoólico não muito elevado, normalmente 4%.”

Rótulo da Cerveja Pandora.
Arte: Daniel Faccio

Strong Golden Ale: “É uma cerveja em que o marcante dela é o alcool, que fica em torno de 9%. É uma cerveja mais forte, mais pesada e harmoniza bem com carnes. É uma cerveja mais marcante.”

Pilsen: “É o nosso chopp, é a que gente bebe  normalmente, a mais comum do Brasil. Ela é uma cerveja que harmoniza com quase tudo. A porcentagem dela fica em torno de 4%.”

Belgian Blonde: “É uma cerveja do tipo abadia. Ela tem um tom mais cítrico, tanto que em muita belgium blonde se coloca cascas de laranja. É uma cerveja que tem uma porcentagem de 7% de álcool.”

 Munich Helles: “É uma cerveja lager e com um sabor, como se diz, mais popular. Ela não é um sabor tão marcante, é um sabor normalmente apreciado por quem não é tanto dos gostos marcantes da cerveja artesanal, quem gosta mais do básico. Normalmente o teor alcoólico fica em 4%.”

André e Diogo no processo de filtragem

Durante o acompanhamento da fabricação da cerveja algumas foram consumidas. Por sorte haviam vários tipos em estoque ali disponíveis. Qualitativamente falando, tanto a Strong Golden Ale que é uma cerveja com mais corpo quanto uma Pilsen que é a tradicional, são mais alcoólicas e mais saborosas que as cervejas comerciais brasileiras. A cerveja artesanal possui essa característica do gosto, do aroma, de ser servida em uma temperatura não tão gelada. É um diferencial. Eu recomendo a Cerveja Pandora por ter sabor de cerveja e não de água com cevada, como estamos acostumados, e por não ter me dado dor de cabeça no dia seguinte, como também muitas vezes estamos acostumados.

Quem está disposto a provar a Cerveja Pandora pode fazer uma encomenda, desde que em pequena escala. Deixo aqui o contato telefônico do mestre cervejeiro da Pandora, o André: (54) 99359536.

Fim da matéria e das degustações

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