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O governo paranaense conseguiu ferrar com professores e com os policiais ao mesmo tempo, e dividiu a opinião pública entre os que defendem uma classe e os que defendem outra, sendo que são duas das classes mais exploradas do país.

Esse artigo/crônica/relato começa com experiências pessoais que tive durante escola e faculdade e termina na trágica tarde de 29 de abril de 2015. A relação entre essas duas coisas? Sei lá, comecei a escrever no fluxo de pensamento e foi saindo, mas acredito que muitas pessoas se identifiquem, afinal, adolescência todos tivemos.

Tempo de leitura: 6 minutos.

1. A escola é um saco necessário

Eu sempre odiei a escola. Não, vamos reformular a frase. Eu sempre odiei o método escolar, mas de ir pra escola e ver os colegas era o que eu mais gostava (apesar de ficar doente mais do que o normal pra minha idade).

Professores? Gostei sim de alguns, fiz muitos amigos, mas também fiz muitos inimigos. Eu nunca fui um bom aluno, nunca fui um bom exemplo. Sempre estudei para conseguir a nota necessária para passar, cirurgicamente. O resto do tempo eu dedicava para fazer coisas que eu julgava mais úteis: futebol, videogame, guitarra, conhecimentos de informática (matéria que nunca tive no colégio!), livros que os professores não me recomendavam e, a partir dos quinze anos, alcoólicos fins de semana com os amigos.

Eu não fui um bom aluno, repito. Fui suspenso algumas vezes, mas nunca expulso. No segundo grau, fiquei famoso por ter mandado duas professoras tomarem no cu. Tive meus motivos, elas me perseguiam só porque eu era um tanto desligado e distraído (como se isso fosse defeito e não uma característica!) e eu aceitei as consequências de meus atos. Em meu primeiro ano na faculdade de jornalismo, aos 19 anos, escrevi dois desabafos em um blog abandonado (aqui e aqui) para uma professora que também não me curtia (antes do twitter, a gente desabafava em blogs!). Dizem que ela leu, e eu acredito que sim, pois nem me olhava na cara.

Isso aconteceu durante toda a minha vida. Tive professores excepcionais, muitos deles se tornaram verdadeiros amigos, mas não sou perfeito e nem todos me agradaram. Hoje sou mais de boa, mas uma época eu comprava mais briga, acho que tenho ficado velho e cansado e sossegado dessas tretas que não levam a nada.

Vamos deixar os julgamentos de lado, se você nunca sentiu uma vontade incrível, mesmo em pensamento, de xingar algum professor na vida você é muito bundinha. E isso de modo algum significa que você não tenha a cristalina visão de que eles são os profissionais que podem dar um futuro melhor ao país. Até porque, mesmo discordando de algo (como muito eu fiz), você acaba aprendendo. Se você não gosta de uma determinada matéria, você aprende que futuramente não irá trabalhar em uma área que ela seja fundamental, por exemplo, sacou? É isso que os professores fazem: te ensinam, te guiam, te instigam, te revoltam e te mostram ou o que fazer ou o que NÃO fazer.

Por isso que ao ver os vídeos e imagens do, como dizem os jornais, “confronto entre policiais e manifestantes” em Curitiba, senti uma repulsa e uma desesperança sem tamanho nesse nosso país.

2. Como colocar uma classe contra a outra e ainda sair por cima

Não existiria a expressão “partir para a ignorância” se não fosse uma ignorância usar da força para resolver os assuntos. Um erro atrás do outro, cometido pelo governo do Paraná, fez com que as manifestações fossem criando corpo e aumentando de tamanho. E, com a cabeça dura característica de quem pouco pensa e muito bate, o governo optou pela repressão e não por uma solução alternativa.

Porém, engana-se quem pensa que o homem que manda na porra toda, o governador Beto Richa (PSDB), seja um homem sem cérebro. A burrice do governo não é falta de intelecto, mas é uma burrice de espírito, de empatia e até de teimosia. Ao ordenar que a polícia abrisse fogo contra os manifestantes em caso de desordem e a proibir judicialmente a entrada de civis na Assembleia Legislativa (um absurdo na democracia!), o governo transferiu o foco e colocou os professores contra os policiais. Dividiu a opinião pública entre os que defendem uma classe e os que defendem outra, sendo que são duas das classes mais exploradas do país. Você também é explorado, fardado!

O governo paranaense conseguiu ferrar com professores e com policiais ao mesmo tempo. Fontes dizem que 50 policias que se negaram a atirar contra os professores serão exonerados do cargo por descumprimento de ordem. Não temos como saber, mas o que dá a entender é que uma boa parcela dos policiais que atiraram, o fizeram por medo de não perder o emprego. É esse o jogo de xadrez de Beto Richa.

Não importa quem começou. A desproporcionalidade não justifica os atos. Crianças de uma escola próxima sofreram as consequências do ar intoxicado, do clima de guerra. Mais de 200 pessoas ficaram feridas, sendo quase uma dezena delas em estado grave.

Fico aqui me perguntando: E se a mídia tivesse dado atenção ao caso desde o início? As manifestações estão acontecendo há mais de dois meses, mas só virou pauta principal nos telejornais quando o sangue chegou. E se em vez de proibir a entrada não fosse feita uma organização para os manifestantes acompanharem a sessão, o que é um direito de todos? Não caberia todo mundo, mas seria papel da polícia manter essa ordem. E, mesmo se fosse o caso de haver isolamento, como houve (o que sou contra, mas estamos supondo, certo?), a polícia se organizasse melhor e, em vez de se afobar e sair atirando para tudo que é lado, refizesse o cerco que foi derrubado, mantendo o modo de defesa?

Estamos longe de ter a melhor educação do mundo. Estamos longe de ter a melhor segurança do mundo. Temos milhares de professores destreinados em todo o Brasil. Temos milhares de policiais destreinados em todo o Brasil. E a culpa? A culpa é de quem? Eu sei, você sabe, mas mesmo assim a gente os reelege. Complicado, né?

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