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“Buda” é o título dado ao grande mestre da filosofia do Budismo, uma antiga abordagem de pensamento que incentiva o homem à busca de compaixão e sabedoria sobre a realidade e os fenômenos naturais, de forma que essa compreensão possa agir como eliminatória do sofrimento humano, servindo então como um meio para se conquistar a felicidade.

Partindo do entendimento de que todos os desejos e interesses humanos são impermanentes, transitórios e impessoais, o mestre Buda chegou à conclusão de que dor e sofrimento são causados principalmente pelo apego ao ego (eu interior), que na verdade não passa de uma ilusão criada pelo homem em sua incessante busca por satisfação, esta que nunca lhe é plena.

A história de Buda (Siddhartha)

Mas então, qual é a história por trás desta lenda da filosofia que hoje inspira o pensamento de aproximadamente 400 milhões de pessoas no mundo todo?

Reza a lenda, Buda nasceu há cerca de 2.600 anos em um pequeno reino onde atualmente fica o Nepal.

Conta a história que, em certo dia, a rainha Maya regressava ao vilarejo onde os pais moravam para dar à luz seu filho (como era tradição naquele tempo). Era um longo caminho pela frente, e por isso a caravana na qual ela viajava parou para que todos pudessem descansar um pouco. Nesse meio-tempo, Maya resolveu fazer um breve passeio pelas matas da região, apenas para espairecer a cabeça. Durante sua excursão, subitamente ela sentiu intensas dores na barriga que anunciavam a chegada prematura de seu bebê. Nesse momento, uma grande árvore, compreendendo a importância do momento, se curvou à sua presença e a englobou, oferecendo seus ramos para ela se apoiar.

Minutos depois, dizem que a criança nasceu quase sem dor; sua pele era bronzeada e brilhava como se reluzisse a ouro. Maya, por sua vez, estava totalmente lúcida ante aquele momento gracioso, sem demonstrar vertigens nem sinal de indisposição após o parto.

Quando a rainha Maya chegou ao vilarejo com sua caravana, imediatamente ela foi recebida por seu marido, o rei Suddhohana. Os dois nomearam o filho de Siddhartha que, reza as tradições, significa “aquele que despertou”.

Após uma série de cortejos e felicitações por parte dos moradores, Suddhohana exigiu que seus homens organizassem uma grande festança a fim de comemorar o nascimento de Siddhartha, seu primogênito.

No meio da cerimônia, surgiu um convidado inesperado a todos: o grande eremita e astrólogo Asita, dado como desaparecido há anos.

Quando Asita olhou para o bebê que agora estava aninhado no colo de Maya, duas lágrimas logo caíram de seus olhos, tamanha comoção que sentiu. Asita se dirigiu a Maya e disse:

“Não tema, minha rainha. Estas lágrimas são apenas de um velho que sabe que não viverá tempo suficiente para aprender os ensinamentos de seu filho.”

O rei Suddhohana aproximou-se de Asita e, curioso, perguntou ao velho:

– Meu filho algum dia será rei?

– Ele será o dono do mundo, ou seu redentor.

– Ele poderá ser um mestre como o senhor se quiser, mas antes, deverá seguir meus passos e ser um rei!

– Meu rei, poderá acontecer como deseja mas, muitas vezes, os deuses traem os desejos dos mortais.

Nesse mesmo instante o bebê Siddhartha chorou, como se tivesse sido afligido por aquelas palavras. Suddhohana tomou o filho em seu colo, levantou-o em direção ao céu e bradou:

– Ele será rei!!

Naquele mesmo dia, após as festividades, a rainha Maya sentiu um mau agouro. Ela teve um estranho pressentimento, como se soubesse que também não viveria o bastante para ver cumprido o destino de seu filho. E, exatamente 7 dias depois, Maya veio a falecer de uma terrível doença que médico algum conseguiu entender.

Pulemos então uma boa parte da história.

Vinte e oito anos depois, o jovem príncipe Siddhartha, agora um homem crescido, morava em uma majestosa cidadela junto do pai e seu povo. Diz a lenda que ele conheceu, se apaixonou e casou com uma linda moça, ou melhor, uma princesa, que se chamava Yashodhara.

A vida de casado não foi diferente à Siddhartha do que era antes. Ele gozava dos inúmeros confortos e prazeres que lhe eram propiciados pela riqueza de seu pai, único possuidor do poder político e econômico na cidadela. Como sempre, Siddhartha fazia o que queria, quando queria, onde queria e na presença de quem desejasse.

Dentre as atividades de rotina, sua predileta era lutar. De porte atlético, vigoroso e sempre com ótima disposição, Siddhartha praticava luta diariamente com seus amigos através de um jogo chamado “Kabadi”, uma espécie de arte marcial semelhante à luta greco-romana (que viria a surgir séculos depois). Siddhartha havia se tornado um excelente guerreiro, honrado, digno e muito respeitado por todos aqueles com quem convivia.

Enfim, sua vida era extremamente luxuosa e privilegiada.

Segundo a lenda, no exato dia em que completou vinte e nove anos de idade, Siddhartha recebeu de seu pai 3 enormes palácios: um para o verão, outro para o inverno e mais outro para a estação das chuvas. Dessa forma, o rei Suddhohana esperava poupar seu filho de todo sofrimento e preocupação inerentes à existência.

Porém, em certo dia, durante uma manhã ensolarada, Siddhartha ouviu uma maravilhosa canção de harmonia encantadora. A princípio ele não conseguiu identificar de onde a música vinha, sendo assim, ele resolveu caminhar em determinada direção para tentar localizar a origem daquela melodia que lhe era tão gratificante.

A canção era entoada em uma língua estranha e desconhecida a ele, e por isso soava assim tão misteriosa. O que ela dizia? O que significava?

Enquanto Siddhartha prestava total atenção na melodia, sua esposa Yashodhara surgiu sorrateiramente de uma viela escura. Ela caminhava com lentidão, mas não demorou a perceber a figura do marido que tinha o semblante demonstrando uma mórbida curiosidade. Ela então se dirigiu ao marido para que talvez pudesse prestar algum auxílio.

– Yashodhara, que canção sensacional é essa?

– É de uma terra longínqua, meu príncipe. Evoca as belezas do país que a autora conheceu quando criança. As montanhas, vales, florestas e lagos que ela nunca poderá esquecer.

Siddhartha sentiu-se confuso e também surpreso, uma vez que não se lembrava de ter ultrapassado os muros daquela cidadela e, portanto, nunca havia visto nada além. Ele achou estranha a menção de tais lugares, o que lhe causou um grande senso de descobrimento.

– Se tais lugares que você diz são tão belos quanto à música que ouço, então preciso conhecer o que há além deste lugar.

– Meu príncipe, eu ouvi dizer que só existe sofrimento além desses muros.

– O que quer dizer com sofrimento?

– Seu pai foi quem me disse, meu príncipe. E não deve ser mentira. Lembre-se que ele nos deu tudo o que poderíamos desejar. Para quê visitar outros lugares quando estamos rodeados de tanta beleza?

– É verdade, nós temos tudo, e tudo parece tão perfeito. Então, que sentimento é esse que estou sentindo? Se o mundo é assim tão belo, por que será que nunca o vi? Ainda não vi a minha própria cidade. Tenho de ver o mundo com meus próprios olhos!

Siddhartha ansiava conhecer o mundo; desbravá-lo assim como um marinheiro sedento por aventura.

Não demorou muito para o rei Suddhohana descobrir aquela ambição desmedida de seu filho. Como sempre foi obcecado por sua proteção e segurança, mandou preparar tudo devidamente para que nada que Siddhartha visse em sua viagem o perturbasse ou aborrecesse.

Para Suddhohana, todos deveriam ser jovens, imaculados e saudáveis. Para o rei, todos deveriam ser poupados da vida.

E então chegou o tão esperado dia da partida de Siddhartha. Enquanto o príncipe deixava a cidade, pôde ver todos à sua volta o ovacionando com urros de alegria e excitação. E de dentro de sua antecâmara vazia e escura, seu pai o observava secretamente com olhos compenetrados e premonitórios, e ele não parecia nem um pouco feliz.

Assim que os portões centrais da cidadela foram abertos e Siddhartha obteve o primeiro vislumbre do mundo exterior, dois seres excepcionalmente velhos e carcomidos, cada um segurando suas respectivas bengalas, arrastavam-se para frente como criaturas desesperadas por encontrar algum tipo de solenidade. Eram duas pessoas com aparência diferente de tudo que Siddhartha havia visto. Estupefato, ele perguntou a um servo que estava a seu lado:

– Me diga você, quem são aqueles homens horripilantes?

– São homens como nós, meu príncipe, que já mamaram no seio de suas mães.

– Mas por que eles têm aquele aspecto?

– Estão velhos, meu príncipe.

– O que quer dizer com velhos?

– A velhice destrói a memória, beleza e força. Acontece com todos, meu príncipe.

– Com todos?! Comigo e com você também?!

– Meu príncipe, sugiro não se preocupar com essas coisas.

Durante a conversa, dois outros criados agarraram os velhos pelos braços que mais pareciam paus de arara, e trataram de levá-los para um local reservado nos confins do vilarejo.

Inconformado, pesaroso e mais uma vez confuso com o cenário que observava, Siddhartha resolveu seguir os viajantes recém-capturados.

Chegando ao local designado para acomodação dos velhos, Siddhartha percebeu que, na verdade, havia apenas uma mulher deitada em um saco de grãos. Ela estava tão velha e em condições tão judiadas que poderia ser transformada em pó ao mínimo impacto de uma ventania. A velha chorava profundamente com voz tão debilitada quanto seu corpo. Então, Siddhartha ajoelhou-se perante ela, e perguntou ao mesmo servo com quem havia conversado dois minutos atrás (o servo se apresentou como Gholeim), e que o acompanhara até ali:

– Por que ela está chorando assim, Gholeim?

– Está sofrendo, meu príncipe. Está muito doente.

– Doente? O que é isso?

– Ninguém atinge o momento da morte sem antes adoecer ao menos uma vez.

– Até os reis? Eu não entendo, Gholeim. A morte, que diabos é isso? Me mostre agora!

Então, o servo levou Siddhartha à beira de um rio lodoso que cortava a cidadela de ponta a ponta. Gholeim apontou seu dedo indicador na direção das águas, dizendo:

– É isto a morte, meu príncipe.

Jazia no rio um velho (o viajante que fazia companhia à velha doente). Siddhartha mirou aquela figura mortuária que, de tão minúscula e tênue, parecia não influenciar na correnteza.

Paralisado pela visão da morte, o príncipe Siddhartha não conseguiu pensar em meio à desolação que sentia. Conseguindo enfim sair do estado de petrificação, lentamente ele caminhou ao leito do rio com o objetivo de ver mais de perto algo que até minutos atrás achava impossível.

Ao se aproximar, Siddhartha viu três homens colocarem o velho em cima de uma pira de madeira fria e sólida como o corpo que sustentava. Fogo foi atiçado à estrutura, que logo cedeu juntamente com as cinzas do velho que serviriam de oferenda para o rio.

Observando as chamas crepitarem e a fumaça negra invadir o ar puro, Siddhartha captou um insight que levaria para a vida toda.

Príncipe ou não, Siddhartha entendeu que era igual a todos, e todos eram iguais a ele. Ele percebeu que havia sido iludido o tempo inteiro e, até aquele momento, sua vida não passava de uma mentira. No entanto, apesar das duras constatações, ele também havia reconhecido os princípios da humildade e da compaixão, algo que também não conhecia.

Frustrado e raivoso por ter sido enganado à respeito da vida, Siddhartha foi até a presença de seu pai para tirar satisfação:

– Meu pai, por que escondeu a verdade de mim? Por que mentiu sobre a existência do sofrimento, da doença, da velhice e da morte?

– Se menti, é porque te amo.

– O seu amor tornou-se uma prisão. Ele o cegou completamente, e por consequência a mim. Agora, como posso viver aqui como vivia, sabendo que todos sofrem lá fora?

O rei Suddhohana nunca respondeu àquela pergunta.

Siddhartha logo chegou à conclusão de que nada mais valeria a pena e nada mais faria sentido dali para frente se continuasse a negar a vida. E foi assim, na contemplação do máximo desespero, do real sofrimento, da doença, velhice e morte, que nasceu em Siddhartha o maior propósito de seu destino: libertar as pessoas do sofrimento.

De acordo com a lenda, Siddhartha decidiu queimar todos os seus pertences pessoais e, na madrugada seguinte à sua verdadeira compreensão da realidade, ele deixou a cidadela para onde jamais voltaria.

Por vários meses Siddhartha peregrinou com apenas sua consciência lhe fazendo companhia. Em uma ocasião qualquer, enquanto buscava atravessar uma densa floresta de vegetação robusta, ele avistou ao longe um grupo de indivíduos que pareciam unidos em um grande círculo. Após tímidas apresentações e reconhecimento de ambas as partes, Siddhartha finalmente veio a conhecer os velhos ascetas: pessoas que assumem a causa de renunciar prazeres e confortos da vida.

Após 5 anos em convivência agradável, harmônica e muito produtiva, conta a lenda que Siddhartha passou a exercer papel de líder, tamanha confiança, clareza, inspiração e influência que transmitia.

Então, ele passou a integrar diversos grupos de entusiastas que, assim como ele, estavam motivados pelo desejo de conhecer verdadeiramente a si mesmos e os fenômenos da natureza. Por meses, Siddhartha e seus novos companheiros treinaram a mente com coragem, força e dedicação. Eles passaram a conscientizar, observar e perceber o mundo não como ele se apresentava a seus sentidos, e sim de acordo com a própria vontade.

Em certo dia de treinamento, passava pela região uma jovem pastora chamada Sujata. A moça era jovem, tinha cabelos amendoados e uma expressão gentil. Ela dirigiu-se diretamente à Siddhartha, oferecendo-lhe uma tigela de leite coalhado. Sentindo compaixão e acima de tudo gratidão, o mestre Siddhartha aceitou, quebrando o atual jejum que durava 30 dias.

Contrariados pela atitude de Siddhartha, os companheiros logo pensaram que ele era um desertor; fraco e covarde por não ter resistido àquela tentação banal. E então, todos eles resolveram abandoná-lo.

Mas, antes dos velhos ascetas irem embora, eles ouviram de Siddhartha uma devida explicação.

Apontando o dedo para o rio Nairanjana, Siddhartha falou:

“Vejam aquele rio. Sua correnteza corre em ritmo normal. Ela nunca se adianta e nem se atrasa. Ela apenas corre. Nós temos que ser como aquele rio.”

Apesar daquele dizer enigmático, atitudes demonstram mais que palavras e, sendo assim, os velhos ascetas foram embora e deixaram Siddhartha sozinho. O mestre se tornou um eremita.

Entretanto, Siddhartha compreendeu que aquela exclusão era apenas mais um teste de provação, no qual ele passou sem maiores dificuldades.

Continuando seus rituais de contemplação, meditação e serenidade, Siddhartha passou todo o próximo ano acompanhado de Siddhartha.

Diz a lenda que, em certo dia tempestuoso, surgiu à presença de Siddhartha uma charmosa deusa chamada Mahra. Ela tentou seduzí-lo do modo mais inteligente, disfarçando as tentações da vida sob as formas mais simples. A deusa ofereceu a ele todos os recursos que, segundo ela, o fariam se deleitar em estado permanente de felicidade. Mas Siddhartha enxergava além do presente. Ele negou tudo veementemente, e então Mahra se enfureceu, revelando ser uma figura dissidente e horrorosa.

Esse foi também um enorme desafio para Siddhartha, pois ali foi testada sua disciplina ascética e meditação. A oferta de Mahra foi certamente tentadora, mas Siddhartha compreendeu que isso o levaria a se distanciar do mundo real e o impediria de passar seus ensinamentos adiante.

E ele retornou a fazer o que lhe era destinado.

Num certo dia especial a todo o universo, Siddhartha, motivado por um poderio psicológico indescritível, sentou-se em frente a uma árvore com 30 metros de altura; uma árvore da mesma espécie daquela que ofereceu arbustos como suporte á sua mãe, Maya, quando de seu nascimento.

E diz a lenda que ele permaneceu sentado, na mesma posição, por tempo tão longo e demorado que nem os deuses aguentavam mais olhar para baixo, tamanho o tédio que sentiam de sempre depararem com sua presença. Sol, chuva, tempestade, furacão, terremoto, tornado e todo tipo de catástrofe não ousou se apoderar da calma de Siddhartha, que passou tempo suficiente em estado de contemplação para que seu corpo se tornasse apto a se satisfazer plenamente com nada.

Naquele ínterim introspectivo desigual, diz a lenda, Siddhartha se transformou em Buda, pois havia atingido a plenitude da sabedoria humana e, iluminado dessa forma, chegou enfim ao estado de Nirvana.

Essa é a linda história que precedeu Buda.

Escritos budistas comprovam que Buda sempre enfatizou não ser um deus; uma autoridade superior. Após o choque da realidade que veio quando deixou a cidadela (a prisão onde era mantido), ele sempre carregou consigo a crença de que a capacidade de se tornar um “Buda” pertencia ao ser humano, já que este é o único detentor do potencial para a sabedoria e iluminação. De acordo com a tradição, suas últimas palavras foram:

“Tudo o que foi criado está sujeito à decadência e à morte. Tudo é impermanente. Trabalhem duro pela própria salvação com atenção plena, esforço e disciplina.”

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Eduardo Ruano

Eduardo Ruano

Escritor e redator freelancer. Gosto de informação, conhecimento, cultura, arte, música, insights e boas histórias. Odeio cerimônias, falsidades e ostentação. Acredito no valor da humildade e me sinto bem vivendo com simplicidade. Observador ativo do comportamento humano e um apaixonado por ficção. Referências de conteúdo são sempre inspirações. Quando a mente viaja, eu escrevo.
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