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A psicopatia é um quadro clínico bastante complicado e obscuro, e o transtorno mais incompreendido pela psiquiatria (em especial a forense).

O enorme interesse que o psicopata desperta na sociedade se deve muito à singularidade de seu funcionamento cerebral e ao seu amplo potencial destrutivo. O FBI, por exemplo, considera a psicopatia “a mais perigosa das desordens psicológicas”.

Nós já vimos psicopatas em filmes, noticiários, lemos sobre eles em livros e ouvimos as pessoas os citarem vez ou outra. Inclusive, é bem provável que já tenhamos encontrado com alguns deles por aí, mesmo que não estejamos cientes disso.

Estima-se que 1% da população mundial masculina seja composta de psicopatas, sendo que eles reincidem na criminalidade três vezes mais que a média de criminosos.

Por definição técnica, o psicopata é um indivíduo com transtorno de personalidade antissocial. Porém, esse diagnóstico é feito de forma deveras superficial, pois ainda existem algumas controvérsias em relação a todos fatores de caracterização efetiva desse distúrbio.

Segundo o FBI, cerca de 20 a 25% de uma população prisional atende aos critérios diagnósticos para psicopatia, e esse dado pode levar à falsa crença de que a maioria dos psicopatas seja mantida confinada em ambientes severamente controlados (como prisões ou instituições mentais). No entanto, a maior parte deles se encontra em liberdade, convivendo com pessoas “comuns”.

Psicopatas são gritantemente perigosos, mas nem todos eles são loucos, apesar desse ser o tratamento comum que lhes é atribuído. A questão é: eles estão por toda parte.

15 características psicopáticas

Desde a Antiguidade, inúmeros pesquisadores trataram de estudar a forma como agem os psicopatas, e como eles podem ser identificados.

Dentre todos os estudiosos da personalidade psicopática, o mais reconhecido atualmente é Robert Hare, investigador criminal responsável por desenvolver a ferramenta de avaliação psicológica mais eficaz para determinar o diagnóstico de psicopatia.

Trata-se do método que ele apelidou de Hare Psychopathy Checklist (ou simplesmente PCL-R), elaborado originalmente no ano de 1970, tendo passado desde então por uma série de revisões.

Até hoje, o PCL-R é a ferramenta mais usada para identificar psicopatas.

A última revisão do método de Hare foi feita pelo FBI e, de acordo com esse material atualizado, é concreto afirmar que psicopatas possuem 15 características (sem exceção):

1. Falta de empatia

Psicopatas não conseguem imaginar os sentimentos dos outros, pois eles carecem de sensibilidade. São incapazes de amar ou reconhecer valor no altruísmo. Não confiam em ninguém.

2. Encanto superficial e manipulação

Boa oratória, charme e manipulação são comportamentos que se sucedem no psicopata. Eles sabem que é preciso seduzir uma pessoa antes de manipulá-la, e por isso costumam ser encantadores até certo ponto.

3. Afetividade artificial

Os psicopatas são indivíduos extremamente racionais, frios e calculistas. Eles não processam e nem aceitam emoções, mas conseguem simular sentimentos se for necessário.

4. Egocentrismo

Psicopatas têm autoestima sempre elevada, uma sensação premente de grandiosidade e uma necessidade inerente de estarem sempre certos. Em geral são narcisistas e arrogantes, pois se acham melhores que os outros.

5. Ausência de remorso

Eles não sentem culpa nem arrependimento. Agem com uma indiferença assustadora. Dificilmente ficam em dúvida na hora de tomar decisões (mesmo que sejam amorais).

6. Mentira patológica

Todos nós mentimos, mas os psicopatas usam mentiras como ferramentas de trabalho. Eles mentem para conquistar privilégios e justificar suas condutas; dizem o que é conveniente às devidas circunstâncias.

7. Baixíssima tolerância ao tédio

Psicopatas precisam de estímulo constante. Não suportam burocracia nem rotinas; têm pouca paciência e ficam aborrecidos facilmente.

8. Impulsividade

Eles tendem a agir de forma impulsiva. Suas ações são quase nunca premeditadas. Desconsideram as consequências de suas ações.

9. Estilo de vida parasitário

Psicopatas ignoram os benefícios do mutualismo (preferem agir como parasitas). Para eles, as pessoas são meros objetos de exploração; instrumentos de sua busca incessante por satisfação.

10. Perda de controle temperamental

Eles têm instintos violentos não canalizados. Com frequência, agem descontroladamente e reagem de maneira agressiva. Não lidam bem com frustrações, rejeições ou decepções.

11. Irresponsabilidade

Normalmente eles não assumem responsabilidades (eles as transferem aos outros). Dificilmente aceitam seus erros, e raramente procuram ajuda.

12. Falta de metas realistas de longo prazo

Psicopatas possuem fraco senso de planejamento (eles são mais executores). O ego sempre inflado costuma prendê-los em ilusões. Investem pouco em metas de longo prazo; lhes faltam atitudes visionárias.

13. Problemas precoces de comportamento

Eles manifestam tendências antissociais de forma assídua e, na infância, é certo que sofreram distúrbios de personalidade decorrentes de experiências traumatizantes.

14. Delinquência juvenil

Psicopatas atraem e são atraídos por más influências. Aprendem logo cedo a violar regras e usar da violência para hostilizar e controlar as pessoas.

15. Versatilidade criminal

Geralmente eles apresentam antecedentes criminais, e seus delitos costumam ser mais graves do que a média.

Os psicopatas funcionais

Especialistas acreditam que muitos psicopatas livres sejam bem-sucedidos profissionalmente, ocupando posições de destaque com grande influência e status social.

Essa ideia foi melhor explorada pelo psicólogo e professor de Harvard, Kevin Dutton. Em seu livro ‘The Wisdom Of Psychopaths’, ele expôs um argumento bem ousado:

“Existem muitos psicopatas funcionais entre nós, que usam de suas qualidades e atributos para ascender profissionalmente. Em alguns setores, quanto mais ‘psicopáticas’ as pessoas são, mais chances elas têm de serem bem-sucedidas”.

Após uma pesquisa exploratória abrangente, Dutton acabou organizando duas listas com as profissões onde há mais e menos psicopatas funcionais.

De acordo com sua pesquisa, as 10 profissões com mais psicopatas são: CEO, advogado, repórter, vendedor, cirurgião, jornalista, policial, sacerdote, chef de cozinha e funcionário público.

E as 10 profissões com menos psicopatas são: babá, enfermeiro, terapeuta, artesão, estilista, voluntário de caridade, professor, artista, doutor e contador.

Como se vê, psicopatas não deixam de ser indivíduos produtivos e ambiciosos por serem psicopatas. Eles gostam de se sentir especiais, onipotentes, absolutos, o que sugere uma necessidade de reconhecimento social, apesar das disfunções sociais.

Os 3 mitos da psicopatia

O termo “psicopata” está na boca do povo, embora seja usado de forma quase sempre equivocada.

E já que a psicopatia é um assunto pertencente à sabedoria popular, alguns mitos acabam sendo criados, como estes:

1. Todos os psicopatas são serial killers

Serial killers e psicopatas possuem muitas semelhanças entre si, mas uma condição não é sinônima da outra.

O psiquiatra forense John Reid Meloy (estudante de serial killers há mais de 40 anos) afirma:

“Uma minoria dos serial killers incluem indivíduos homicidas, e muito poucos são psicopatas”.

2. Todos os psicopatas são psicóticos

Segundo Hal Arkowitz (professor de Psicologia na Universidade do Arizona):

“Ao contrário de pessoas psicóticas, em que é frequente a perda do contato com a realidade, os psicopatas não ouvem vozes, seus pensamentos não são distorcidos por delírios e, quase sempre, eles agem de forma racional. Além disso, psicóticos raramente são psicopatas”.

3. Todos os psicopatas são intratáveis

Psicopatas são ultrarresistentes em buscar ajuda, mas uma pesquisa feita pela psicóloga Jennifer Skeem (Universidade da Califórnia) sugere que eles podem se beneficiar da psicoterapia como qualquer outra pessoa.

Scott Lilienfeld (professor de Psicologia na Universidade de Amory) concorda com ela:

“Mesmo que seja muito difícil mudar comportamentos psicopatas, a terapia pode ajudar a pessoa a respeitar regras sociais e prevenir atos criminosos”.


Como bem concluíram os psiquiatras Samuel Leistedt e Paul Linkowski em artigo recente chamado ‘Psychopathy And The Cinema: Fact Or Fiction’:

“Apesar de sermos capazes de descrever os psicopatas razoavelmente bem, nós não os entendemos”.

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