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A sorte no azar de começar a “wonderlust*” canadense.

Já ouviram falar daquela expressão “sorte no azar”? Eu já. Eu vivi ela, inclusive. Fiz desta expressão um abrigo pra chamar de casa. Começo meu texto citando uma música do Kings of Leon. Guardem esses trechos, essa música, esse significado, meus amigos. Ainda há mais por vir.

“A primeira estrada, o caminho da grandeza está em seus dedos. Vá ser aquele que continua lutando, vá ser o estranho. Apenas coloque um pé na frente do outro, cante como o galo. Estamos autorizados a nos dar algo livre como o perigo. Eu digo…”

Depois de deixar pra comprar minha passagem de Winnipeg pra Montréal de última hora (inclusive, Mada e Marcelo, aqui meu agradecimento público e eterno pela ajuda), achei que não fosse chegar a tempo. Segundo minha agência de turismo, eu iria morar com uma senhora de 64 anos por quatro semanas da minha vida. Tinha em mãos o endereço, nome, e-mail e descrição de como essa experiência seria incrível – às vezes eu, ainda como publicitária, esqueço de como existem pessoas que conseguem te convencer do que não é real com tão pouco.

Entrei num avião que meu pai chamaria de “teco-teco”. Achei que ia cair e eu ia morrer antes de realizar meu sonho e não sabia se isso me dava sono ou raiva. Optei pelo sono, por que voos de madrugada só te proporcionam isso. Depois de muito cheguei e, meu Deus, que vista maravilhosa! Quanta alegria contida querendo se expressar. Quanta vontade de cutucar todo o mundo com cara de cansado naquele aeroporto e dizer: a vida é tão linda, você está aqui, vamos ser felizes.

Primeiro retrato de Montréal
Primeiro retrato de Montréal

Às vezes esse meu bom humor me faz esquecer que dinheiro ainda move o mundo, e eu, com uma quantia tão contadinha, não estava esperando por ouvir que deveria pegar um táxi que me custaria cerca de cinquenta dólares. Veja bem, meus caros. É que quando fechei meu pacote de intercâmbio, o translado aeroporto-homestay deveria estar incluso. Culpo aqui minha falta de atenção, mas também minha agência de intercâmbio com a qual mantive contato em Winnipeg e me avisou, quando eu já estava a caminho do aeroporto, que o translado foi excluído do pacote. Eu, acostumada a andar de onde estou até o estacionamento mais próximo pra pegar o meu carro, me aterrorizei tanto com a possibilidade de pegar um ônibus numa cidade desconhecida, que não sabia o que fazer. Pois bem, Montréal tem um dos melhores transportes públicos do mundo – e isso quem afirmam são as famosas pesquisas, não eu.  Só que ninguém me avisou que minha “família de acolho” morava fora da ilha. Longueuil, este é o nome da cidade/bairro na qual eu me abrigaria, sem nem saber do que estava falando até então.

Como muitos bairros, cidades afastadas, ou o que queiram chamar, este era só mais um dos muitos anexos que Montréal – que sim, é uma ilha – tem. E por ser assim, nada funciona como dentro da “ilha”. O transporte público tem outra companhia, outro preço, outro modo de funcionar. Dentro de MTL, temos a STM, onde você paga um valor fixo num cartão e usa o quanto quiser, como quiser, onde quiser. Em Longueuil temos a RTL, onde ônibus custa $3,50 (e não $3) e você paga por trecho. Lembrei-me então de um ex namorado que me chamava de acomodada, nas tantas vezes que fui pra São Paulo e poderia ter pego ônibus, preferia o comodismo de um táxi. Decidi mudar essa parte a começar por aqui, eu já não havia me perdido em NY. Sem medo.

Rua Saint Paul

“Gire nas ruas de estrelas e vá embora. Descubra o que você é, cara a cara”

Comprei no aeroporto um cartão que me dava acesso à 24h de transporte STM, mas não sabia que meus dez dólares poderiam ter sido economizados a três. Estava chovendo, friozinho, nublado. Eu, com duas malas de tamanho mediano, minha mochila, minha bolsa e minha sacola gigantesca do MoMA saímos em direção ao ponto de ônibus. Os aplicativos e ajudas dos motoristas não foram tão suficientes. Claro, me perdi.

Dentre o trecho aeroporto – estação Bonaventure – estação Berri – estação Longueil + o ônibus RTL número 21, eu andando com toda essa bagagem + o cansaço + a expectativa falida de que estaria breve em casa + um celular com número do Brasil e nenhuma wifi, entrei em desespero incontáveis vezes.

Eis que descobri, quando consegui chegar no ônibus, que precisava ir pra fora (um trecho que leva de 30 a 40 minutos, dependendo do trânsito). O motorista, muito simpático, me disse aonde eu deveria descer e pra que lado eu deveria ainda arrastar minha bagagem. Segundo o Google maps, cerca de 2 km.

Fui. Na chuva. Pensado em que sorte eu tinha de estar ali, que azar de estar há quase três horas tentando me localizar. Que sorte caminhar por essas ruas. Que azar não saber onde estava. Que sorte poder pedir informação em inglês e saudar as pessoas em francês. Que azar não me lembrar nem o número da casa. Que sorte no azar tenho eu.

Basílica de Notre Dame
Basílica de Notre Dame

Consegui cavucar minha memória de telefone, consegui achar o número da casa, depois de uma caminhadinha de 2 km arrastando mala, bati em uma porta perguntando pela Sra. Noleana. Que casa estranha! Cheia de bicicletas de criança e brinquedos na porta. Mas não era só a senhorinha que morava ali?

– Olá! Você é a senhora Noleana?

– Senhora quem?

– Senhora Noleana. Sou a Clarissa, a brasileira que vai morar na sua casa pelas próximas quatro semanas.

– Brasileira? Morar na minha casa? Você certamente está na casa errada.

Repeti o número da casa pra senhora, e ela me confirmou: estava na casa errada. Que vontade de chorar. Que desespero. Escrevendo posso me lembrar da sensação, mas não sei se você que está lendo já esteve tão perdido assim e consegue entender: é ruim.

Depois de conseguir, ainda na chuva e arrastando mala, achar a casa certa, bati na porta. Ninguém me atendeu. Mas ela deveria estar me esperando, por favor abre essa porta! Eu só quero um banho!

Place Jean Carties
Place Jean Carties

“As janelas são a imagem perfeita, elas estão sempre mudando. Vá em frente, se perca, pule nas águas quando elas estão realmente bravas, eu digo…”

Consegui mandar do meu número brasileiro um SMS pra Mada e pro Wendel, que eu sabia que tinham números canadenses, pedindo pra ligarem pro número da tal senhorinha. A Mada conseguiu e me disse que ela estava na vizinha, mas estava vindo. Lendo assim, o processo parece rápido, mas só de espera somado a SMS e resposta estive por mais de uma hora na chuva, sentada na frente de uma casa desconhecida chorando.

Chegou, finalmente a Sra. Noleana! Me cumprimentou, pediu desculpas, disse que eu demorei mais do que ela estava esperando – era quase fim do dia – e que ela foi conversar com a vizinha. Me preparou uma janta e um banho de banheira. Me deu a cópia da chave e a senha da wifi. Depois de avisar a família, o (ex) namorado, os amigos, a Mada e o Wendel de que eu estava viva, fui tomar um banho.

Que sorte no azar tenho eu! Cheguei, Montréal.

“Descubra o que você é cara a cara. Quando você não estiver mais aguentando, continue firme. Não se esqueça de amar antes que você se vá”.

*Wonderlust (s): forte desejo ou impulso de viajar e explorar o mundo para entender sua própria existência.

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Clarissa Jurumenha

22 anos e um monte de planos a serem realizados. Publicitária, jornalista, pseudo-artista, imediatista e uma caixinha de ideias que não consegue desligar nunca. Sou apaixonada por arte, música, fotografia, cinema, comunicação visual e tudo que arranca um bom sorriso do rosto.