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Nas andanças do coletivo, pós-expediente e acompanhada de pessoas completamente desconhecidas, a única coisa que ainda funciona em mim são os ouvidos. Sento-me num lugar confortável, às vezes acompanhada de um livro, às vezes acompanhada de um fone com Chico Buarque me fazendo esquecer o trânsito por trás das janelas. Quando nenhum desses queridos passatempos me satisfazem, guardo-os e deixo os meus ouvidos à deriva. Agora são eles os responsáveis pela minha distração.

Me atento ao que acontece exatamente dentro do ônibus e escuto de tudo um bocado. As reclamações com o motorista são excessivas. Os estresses se confundem. É um bate-boca que só acaba quando o passageiro desce. Mas aí, acostumada com essas discussões de fim de tarde, onde ambos estão cansados, resolvo me distrair também disso. Esqueço os debates de “é sua obrigação…” e me atenho a uma senhora que está sentada na cadeira atrás da minha. A conversa parecia boa e animada, comparada aos rostos cansados que estavam a minha volta. Alguém parecia feliz por estar voltando pra casa.

O assunto era relacionamento e disso eu me interessava. Fiquei calada exatamente onde estava, atenta na voz já um pouco adulta que não parava de falar. Conversas pessoais. Mas que se tornou muito universal quando a jovem senhora resolveu soltar a seguinte frase:

“Amor só presta quando está longe”.

Ela disse com uma certeza vivida que há muito eu não ouvia. Cheguei até a pensar se realmente aquilo havia fundamento. Dei tanta importância à sua frase que encostei a cabeça na janela do ônibus e nada mais acontecia ao meu redor. Era eu e frase. Eu e o sentido que ela poderia fazer. Foi nesse momento que eu olhei pra trás pra conferir quem a havia dito. Alguém que já havia vivido muito e aprendido com o tempo e com o amor. Supus que essa frase fosse uma conclusão de toda a sua vida regada a amores presentes que não a fizeram feliz. Mas tive que discordar.

Amor só presta quando está longe? Ao pé da letra mesmo, senhora? Não posso concordar de forma alguma. Amor é bom ao lado. Encostado no teu corpo, acariciando o teu cabelo, te entregando uma proteção que as fronteiras do país não conseguem te presentear. Amor distante também é amor. Também faz bem. Também “presta”. Mas o amor sem distância não se pode dispensar. Depois de tanto pensar, acompanhada pelo sacolejo do coletivo, eu comecei a achar um absurdo cada palavra daquela frase.

Amor, no sentido sentimental, abstrato, precisa estar perto incessantemente. É preciso viver dele e com ele. É a pulsão que a sua vida precisa pra engatar. É o combustível que faltou. E é, sem dúvida, o que ainda te mantém vivo. É o amor e não importa por quem seja. Pode ser pelo teu cachorro, mas pode ser pela tua mãe. É preciso torná-lo presente e para isso não há espaço para distâncias. Amor precisa de presença diária, constante. Longe ele não existe. O amor precisa estar perto. Você precisa que o amor esteja perto.

O amor no sentido carnal e humano, personificado em um homem ou uma mulher, na relação de casal propriamente dita, sobrevive a jardas de distância, mas também é capaz de durar a um centímetro de diferença entre os corpos. Amor carnal existe independente da localidade e “presta” estando longe ou perto. Atribuo, sem medo de errar, que a proximidade é infalível para a permanência do amor-sentimento. Mas que também longe é possível não quebrar o elo.

O que quero dizer com tudo isso é que é possível viver de amor em qualquer lugar do mundo. Impossível mesmo é viver sem ele em algum momento da vida. Aprendi que distância foi feita para encurtar e saudade pra matar. O amor surgiu para unir os dois, seja isso bom ou ruim. Ele vai existir em qualquer situação. E vai sobreviver, vai viver, não importa o tempo, não importam os quilômetros. Tudo depende de quem ama. Meu ponto de descer se aproxima. Chega a hora de cessar os pensamentos presos ao vento que entrava pela janela do ônibus. Pausa. Retorno no próximo capítulo, com outro personagem, com outro clímax. Desço. E a mulher que acreditara que amor só presta longe continua sentada esperando, lá no fundo, que a distância se encurte, que o tempo voe. Pra quem ama a presença é gritante.

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  • Ana Paula Horta

    Sem dúvida e sem acrescentar mais partilho da opinião da autora.