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Escrevo sobre música porque sinto que me liberta. Não me aproximo de História, Sociologia ou qualquer outro assunto porque a música me satisfaz. Escrevendo sobre ela parece que atinjo o nirvana dentro do patamar espiritual. Parece que enquanto destilo vocábulos sobre as notas que saem do rádio, minha mente ganha um ar celestial, meu corpo descansa e, apesar de se mover enquanto digita, só uma coisa parece trabalhar: a mente.

A escrita sobre qualquer outro assunto que não seja música me parece forçada, antinatural e não sincera. Por isso que sempre tento traçar um paralelo com alguma coisa relacionada com este tão sonoro e agradável assunto. E não porque o mesmo não seja interessante, mas sim porque se não tem notas no ar, não vejo motivo algum para continuar batucando as teclas.

albert camus

Sem música parece que não posso cantar-digitar-criar versos que não existem. Sem ela a folha em branco fica em branco por mais tempo e, quando é preenchida, fico mais propenso a apagá-la. Com música parece que meu texto tem que se moldar a uma trilha, mas não de forma forçada, as palavras apenas se adequam ao novo ambiente sensorial que o instrumental me fornece, mas o fazem de forma tão não automática, que me resta apenas acompanhar o beat de ideias.

Ontem estava pensando sobre escrever sobre outros assuntos, Política, Filosofia, Cinema… Agora, agora mesmo enquanto digito, sinto que não farei isso, neste exato momento, enquanto o barulho cacofônico de meus dedos pentelhando as teclas se desenvolve, crio uma certeza genuína de que não vou sair desse espectro.

hunter thompson art

A música é como um vela que nunca termina: você pode apagá-la em certos momentos, mas sempre vai acendê-la quando ficar escuro uma vez mais. E o mais filosófico e apaixonante é que não sabemos exatamente o motivo ou quando isso vai nos atingir, qualquer som serve.

Esse texto começou da forma mais banal possível. Coloquei “Burn Slow” (Chris Robinson Brotherhood) para tocar e as palavras simplesmente começaram a sair… Se estivesse em silêncio essa página ainda estaria em branco. É só apertar play que as coisas fluem.

E se caso ficar escuro novamente, você já sabe que é hora de acender a vela e escrever uma vez mais, porém não o faça sem apertar play antes, as palavras só surgem depois que algum nota reverbera no som e vibra em seu corpo… Como se você, caro leitor, fosse o instrumento que proclama aos que estão em silêncio.

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Guilherme Espir

Publicitário em formação, zappamaníaco e escritor de fundo de quintal fissurado em música tal qual um viciado à espera da próxima dose, neste caso aguardando em abstinência para o próximo disco.