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Durante a vida, passamos por breves momentos em que não tendo nada a se fazer, sentimo-nos entediados, olhando os ponteiros do relógio e percebendo a morte se aproximar a cada segundo. Por esse ângulo, percebemos um lado bom em nossa rotina de trabalho, ou seja, de que se estamos com a mente ocupada tiramos o sentimento de morte que o tempo nos mostra, através do relógio. Caso contrário, poderíamos estar com o rabo colado numa poltrona, mudando o canal a espera de algo que fizesse esquecer aquele tédio, o qual só piorasse à medida que os canais fossem passados.

Sem muitas oportunidades, durante certo feriado, estava eu mudando de canal, quando de repente ouvi meu vizinho escutando um clássico do rock nacional:

“sabe esses dias em que horas dizem nada…”

Isso fez com que eu refletisse sobre a questão da solidão, pois agora éramos três passando pelo mesmo sentimento: eu, meu vizinho e o cara que escrevera a letra da música. Então resolvi continuar meu trabalho de troca de canais, quando parei em um que me chamou a atenção.

Sendo que um líder religioso, meio que caracterizado de cowboy, mostrava centenas de fiéis seguidores. Dentre estes, alguns davam seus testemunhos que achei interessante: “…depois que entrei para igreja consegui seis carros, uma moto e ainda tenho oitenta mil no banco. Quero agradecer o senhor por ter feito isso por mim”.

O cowboy limpando o suor do rosto recebe alguns cheques do fiel que diz ser para a igreja, em seguida o líder ainda faz uma sátira: “mas este cheque não é sem fundo não né?”.

“a monotonia tomou conta de mim…”

Em seguida aparece outra fiel com uma criança de colo, a discípula, pior que o cara dos oitenta mil no banco, aparece toda sorridente falando ao seu mentor: “antes de me converter, eu não tinha onde cair morta, agora tenho muito dinheiro para gastar”. (A maioria dos dentes superiores dela era de ouro. Outra coisa que chamou atenção do seu conselheiro que não deixou de fazer outra piadinha).

“cortando os meus programas, esperando o meu fim…”

Quando estava quase para mudar de canal, eis que aparece mais uma fiel, surgindo do meio da multidão aos berros e quase derrubando o líder, e este quase esbofeteando a mulher a qual fazia questão de dar seu testemunho (ou aparecer na TV): “eu estava sem andar, com problemas disto e daquilo, dada como morta pelos médicos até que o senhor surgiu e me fez curar…”.

Depois disso resolvi parar de perder tempo. E meu vizinho resolveu finalmente trocar de música.

“Enquanto você se esforça pra ser um sujeito normal, e fazer tudo igual, eu do meu lado aprendendo a ser louco…”

Então, fui ao bar mais próximo comprar uma caixinha de cerveja gelada para matar o calor e o enfado do tempo perdido.

E pensando que enquanto alguns ganham dinheiro em sua igreja vendendo a água, eu gasto na minha igreja comprando o vinho.

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Fabrício França Costa

Fabrício França Costa

Fabrício França Costa é graduado em Letras, professor de Língua Portuguesa, pós graduando em Língua Portuguesa e Literatura brasileira e colunista dos sites Grajaú de Fato e Puta Letra.
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