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Foto: Michael Putland/Getty Images

Breaking Bad teve uma última temporada impecável em dezenas de aspectos. Atuações inspiradíssimas, roteiros completos, fotografia sempre muito bem trabalhada, takes envolventes e outros fundamentos que a gente poderia discutir por horas. E, musicalmente, não poderia ser diferente. Especificamente duas canções de Felina, último episódio da saga de Heisenberg, não foram escolhidas aleatoriamente. As músicas são El Pasode Marty Robbins e Baby Bluedo Badfinger.

Começando pelo final, que foi esplêndido, e que termina com uma música que se encaixa perfeitamente com a cena. Baby Blue entrou para aquele grupo em que uma música se torna “a música daquele filme, daquela série”. Baby Blue está para Breaking Bad assim como Eye Of The Tiger está para RockyStuck in the middle with you para Cães de Aluguel ou ainda Don’t stop believing para The Sopranos.

Guess I got what I deserved” é a primeira frase da música, mas poderia muito bem ser dita mentalmente por Walter White, segundos antes de seu adeus. É como se Walter estivesse mentalmente cantarolando “the special love I had for you, my baby blue” ao cair no chão de um laboratório de metanfetamina.

Baby Blue foi escrita por Pete Ham, vocalista e guitarrista da banda, para Dixei, uma ex-namorada, citada na letra. A música já foi trilha de Os Infiltrados, de Martin Scorsese, mas claramente não teve tanto destaque, ficou ofuscada em meio a Gimme Shelter, I’m Shipping Up to Boston, Comfortably Numb e outras. Como tema do último capítulo de Breaking Bad, a música teve índices de streamingdownload e venda potencializados. O Spotify marcou um aumento de streaming da música de 9.000% nas primeiras 11 horas após o término do capítulo.

Uma banda trágica como o destino de Walter

O Badfinger foi uma banda ótima, mas também muito azarada. Nascida no País de Gales como The Iveys, adotaram em 1969 o nome novo. Estourou ao ser o primeiro grupo lançado pela gravadora Apple, dos Beatles, sobretudo com o lançamento do single Come and Get It, canção de autoria de Paul McCartney. Começando com música composta por um ex-beatle, a banda conseguiu quatro singles de sucesso mundial no início da década de 1970. Depois de Come and Get It, a banda lançou No Matter WhatDay After Day (produzida por George Harrison) e Baby Blue.

Ao todo a banda gravou dez discos de estúdio, incluindo uma produção póstuma e o primogênito, Maybe Tomorrow, de 1969, quando a banda ainda se chamava The Iveys.

Foto: Michael Putland/Getty Images
Badfinger em 1971: Pete Ham, Tommy Evans, Mike Gibbons e Joey Molland
Foto: Michael Putland/Getty Images

Acontece, é que o Badfinger, como dito no início do parágrafo anterior, foi uma banda de muito azar.

“Stan Polley is a soulless bastard. I will take him with me”

A frase acima estava escrita na carta de suicídio de Pete Ham. O principal compositor da banda se enforcou em 1975, aos 27 anos de idade, esgotado mentalmente e falido. Stan Polley era o empresário explorador do Badfinger. Durante anos, Polley sugou quantias absurdas da banda. Enquanto fechava contratos milionários com gravadoras, seguia pagando os músicos da banda com um salário bem inferior.

Sem Pete Ham, a banda deu um tempo, mas continuou. O Badfinger passou por dezenas de dissoluções e reuniões e idas e vindas de integrantes. Muita gente saía e retornava à banda em pouquíssimo espaço de tempo. No início da década de 1980, existiram duas bandas chamadas Badfinger, com diferentes integrantes, tamanha era a crise.

E isso continuou até 1983, quando outro membro fundador da banda, Tom Evans, também se enforcou. Fim da banda. Todas as reuniões que aconteceram depois não tinham o mínimo fundamento sem a presença dos dois principais compositores do Badfinger.

Felina

Felina

O título do episódio derradeiro de Breaking Bad é um fácil anagrama para Finale. Mas há mais sobre Felina no capítulo. Logo na primeira cena, uma música é tocada no rádio quando Walter White liga o carro. A canção se chama El Paso e foi gravada pelo cantor country Marty Robbins. É a história de um cowboy que morre nos braços de uma mexicana de El Paso chamada Felina.

From out of nowhere Felina has found me, kissing my cheek as she kneels by my side
Cradled by two loving arms that I’ll die for, one little kiss and Felina, good-bye

http://youtu.be/kIHRgisdbeY

A audiência televisiva do último episódio de Breaking Bad foi de 10,3 milhões. No dia seguinte, mais de 500 mil downloads ilegais do último capítulo já tinham sido feitos na internet, um número que continua crescendo.

A canção El Paso não recebeu a mesma atenção que Baby Blue por razões óbvias. A segunda é tocada na íntegra e durante a última cena de toda uma série, enquanto a primeira toca por apenas alguns segundos.

Baby Blue, portanto, será para sempre a música do final de Breaking Bad e isso é uma honra. Joey Molland, antigo guitarrista da banda, ficou satisfeitíssimo com a escolha.

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Flaubi Farias

Jornalista, parolo, navegador, alienígena e editor do La Parola.
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  • Sérgio Luiz Fernandes

    Quando passarem os modismos, cairá a máscara de muitas Bandas e de muitos músicos. Restará o talento e a genialidade de poucos artistas. E William Pete Ham desfilará soberana e solitariamente nesta galeria.

  • Sérgio Luiz Fernandes

    Com um pouco da desglamurização dos Beatles, que segundo John Lennon eram mais famosos que Jesus Cristo, vem à tona a importância da Banda Badfinger, mas especialmente de suas duas principais estrelas: William Pete Ham e Tommy Evans que são os dois autores da música Without You que fez um estrondoso sucesso na interpretação de Harry Nilson na década de 70 e de Mariah Carey nos anos 90. Pete e Tommy se suicidaram em 1975 e 1983, respectivamente. O fato de ser uma “Banda apadrinhada pelos Beatles” segundo o entendimento de muitas pessoas, resultou numa importância menor do Badfinger e seus integrantes. Com a descoberta de Dan Matovina, Biógrafo do Grupo, de inúmeras canções de Pete, compostas ainda em sua adolescência e as muitas homenagens que estão sendo prestadas na cidade natal dele e no próprio cemitério onde o artista mítico está sepultado, a verdade está vindo a tona.. O trabalho de Dan Matovina é simplesmente espetacular, e se não fosse ele, iríamos acreditar por longo tempo que Pete era um eterno apadrinhado da Banda famosa. Pete tinha luz própria e que luz! Felizmente a história está fazendo justiça ao músico inigualável. No tempo do auge de Paul Mccartney, John Lennon, George Harrison e Ringo Star, músicos ou Banda ligados aos Beatles dificilmente conseguiam vida própria. Seria impossível ameaçar a superioridade dos “Deuses do Rock”. O próprio George Harrison teve inúmeras dificuldades para incluir suas músicas no catálogo Beatleniano. Com o achado de tantas composições, Pete começa a virar o jogo e revelar aos fãs, ao público em geral quem era verdadeiramente “ o cara” daquele período. Coitado do Pete. O cara era um gênio da música e não teve seu enorme talento reconhecido na época. Quem é o culpado por isso? Pete Ham compôs cerca de 140, 150 canções, muitas delas verdadeiras preciosidades, e o surpreendente é que ele não chegou a viver 28 anos. E tocava piano e guitarra magistralmente, era um cantor diferenciado, mas, sobretudo compunha letras e canções como ninguém. Este é o diferencial. Embora um fã como eu diga de peito aberto que qualquer coisa que Pete produzisse era única e inigualável. Um Shakespeare da música.

    Alguns artistas precisam de toda uma vida para mostrar seu talento. Os menos de 28 anos de vida foram mais que suficientes para que o incomparável músico revelasse a dimensão da sua arte. Na placa que homenageia Pete Ham está escrito: Mestre da melodia. Eu acrescentaria: Gênio da música, Gênio da arte, Gênio da vida.