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Um tempo atrás estava passando uma série de documentários sobre a cultura boleira de vossa pátria de chuteiras. Não me lembro ao certo quanto tempo faz que a série parou de passar, nem seu nome, mas posso afirmar com certeza que tudo que foi relatado aconteceu nos anos 60 e 70, época que assim como na música, o lance era pra valer, era tudo pela paixão, como tudo deve ser.

Sei que enquanto trocava de canal sintonizei a ideia em algum dos episódios que formavam o DOC e dei de cara com o Pelé dando risada, algo curioso, logo, não mudei mais de canal. Minutos depois encontrei a piada, o melhor jogador de todos os tempos estava comentando sobre os treinos da seleção campeã do mundo no México em 1970 e o repórter estava às gargalhadas.

E o motivo foi uma frase mais ou menos assim: “A gente ia treinar e aí aparecia o Edson, o Carlos Alberto, Rivelino, Jair, Gerson, Tostão… Bom, na realidade a gente conversava, trocava alguns passes e fazia algumas finalizações porque TREINAR mesmo não dava, ia dar errado. Só tinha craque, o lance era na hora do jogo”.

seleção brasileira de 1970
A seleção tricampeã mundial

Achei isso o maior barato! Primeiro que parece meio esnobe-excêntrico soltar uma dessa, mas segundo consta não existiram muitos times nesse nível, era um fato, só tinha craque e era bem capaz que o treino fosse meio complicado mesmo. Só que aí depois disso já rolou aquela patifaria de “continua no próximo episódio”e eu segui órfão de algo para se fazer, mas ainda seguia com a frase do Pelé na cabeça…

E para poder levar isso para o gramado da música é preciso que fique claro o quanto a frase do nosso digníssimo craque pesa. Necessitamos de uma ponte sonora que faça frente aos dotes da seleção de 70 em virtude da excelência técnica, da classe e da complexidade que seus onze representantes empregavam quanto se direcionavam para uma session de pimba na gorduchinha.

Paco De Lucía, Al Di Meola & John Mclaughlin
Al Di Meola , John Mclaughlin e Paco De Lucía

E para tal, acredito que a união entre Paco De Lucía, Al Di Meola & John Mclaughlin consiga responder à altura. O live colaborativo do trio, “Friday Night In San Francisco“, é um claro exemplo do que acontece quando três músicos de outro planeta se juntam numa jam Flamenco-Jazz… Treinar ia dar errado, mas gravando o improviso impera tal qual a providência divina! E digo mais, nem o time de 70 junto com o de 82 conseguiria acompanhar a triangulação desse guitar trio!

Line Up:
Paco De Lucía (violão acústico)
Al Di Meola (violão acústico)
John Mclaughlin (violão acústico)

Track List:
”Mediterranean Saundance”
”Short Tales Of The Black Forest” – Chick Corea
”Frevo Rasgado” – Egberto Gismonti
”Fantasia Suite”
”Guardian Angel”

Da união entre três dos maiores músicos da terra só temos prensagens faraônicas, inclusive, para combinar com a line up, são 3 registros em voga no curriculum da tríade:

Friday Night In San Francisco – 1981
Passion, Grace And Fire – 1983
The Guitar Trio – 1996

Todos são ótimos trabalhos, são exemplares que fazem o ouvinte precisar comprar um dicionário de sinônimos para poder elogiar os temas, a execução e o feeling que esses caras blindam em seus respectivos instrumentos. Mas brindo certa atenção para essa gravação em especial, pois além de se tratar de um trabalho ao vivo, todos os envolvidos só estão armados de violas acústicas, ou seja, além de nenhum efeito e de um som absolutamente puro, as linhas de improviso brotaram na hora, como pequenos oásis no miolo de um deserto escaldante.

São cinco temas esplêndidos que formam esse absurdo todo-e-complexo instrumental. São momentos que transitam entre temas criados por cada um dos participantes e outros que se prestam a homenagear grandes peças de outros nomes, tão importantes e retumbantes como o trio que se prestou a dar essa aula de música para a humanidade.

Friday nigh in San Francisco Live - Capa
Friday Night in San Francisco Live (1981)

São poucos sons, é verdade, mas são ideias sinuosas e que, apesar de complexas, planam livres dentro de uma base cristalina e absolutamente linda. Parece até simples, mas rapaz, só quem já pegou numa viola sabe da complexidade desses grooves. Em alguns momentos o ouvinte é forçado a tirar o fone da cabeça para poder oxigenar o cérebro porque não parece anatomicamente possível!

E isso já acontece logo após “Mediterranean Sundance“, absurda composição de Al Di Meola, que já solta o Flamenco na roda e deixa o mestre Paco cadenciar a ventania de notas enquanto John e o compositor deste tema seguem para uma linha acústica mais jazzística. Sempre com insights absurdos como no tributo ao mestre Chick Corea em “Short Tales Of The Black Forest“.

Egberto Gismonti
Egberto Gismonti

E na grande citação a um dos maiores músicos brasileiros em todos os tempos, o inexplicável e poucas vezes lembrado Egberto Gismonti, é em “Frevo Rasgado” que três dos maiores músicos do planeta demonstram uma humildade sem tamanho e um respeito sem igual perante um brasileiro que é praticamente desconhecido em seu país, mas que (graças a Jah) é reverenciado em águas internacionais.

Mas o que mais impressiona nesse disco (e nos outros que o trio lançou) é como ninguém consegue chegar ao nível do mestre Paco De Lucía. Em vídeo isso fica mais visível principalmente na hora das improvisações, momentos que tanto Meola quanto McLaughlin se contorcem e retorcem nos solos e o mago espanhol segue inabalável, com a camisa intacta e o fraseado sempre um degrau acima de caras que, é válido ressaltar, também são considerados extrassiderais.

Paco de Lucía
Paco

Não é só pelas passagens intrincadas de “Fantasia Suite, tampouco pela proeza de “Guardian Angel” (único tema registrado em estúdio), é pelo todo e ao mesmo tempo apenas pela estrela de Paco, que “Friday Night In San Francisco” é tido como uma das maiores gravações de violão acústico de todos os tempos.

De fato, treinar poderia ser um problema, mas quando as notas vibram, o Jazz tabela com a dupla de atacantes McLaughlin-Al Di Meola e manda o Flamenco para o camisa 10 matar no peito e pegar de trivela sem deixar o globo de couro cair. No lado “A” os torcedores vibram e no “B” o Paco apenas admira a beleza das redes balançando e das cordas de nylon reverberando imersas, todas sempre imersas num nirvana acústico e episcopal. Profético.

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Guilherme Espir

Publicitário em formação, zappamaníaco e escritor de fundo de quintal fissurado em música tal qual um viciado à espera da próxima dose, neste caso aguardando em abstinência para o próximo disco.
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