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Com uma ampla produção literária, os poemas de Carlos Drummond de Andrade mostram sua forma peculiar de ver o mundo e o amor. Este texto tem como objetivo discorrer sobre alguns de seus poemas que integram a obra “Sentimento do Mundo”

Em Sentimento do Mundo, publicado pela primeira vez em 1940, Drummond reconsidera o fazer poético. Deixou o poeta individualista de “Alguma Poesia”, conscientizando-se do mundo. A obra traz o olhar do poeta sobre o mundo à sua volta, inclinando para um observar crítico e substancialmente político, muito embora, não deixa de lado o coração.

Pouco existe do eu-lírico, a dor passa a ser a do outro, tão mais importante que o eu-individual. São quatro dos 28 poemas contidos no livro sobre os quais apresentarei com mais detalhes.

Carlos Drummond de Andrade (2)

Elegia 1938

Elegia era o nome dado pelos gregos a um tipo de poesia cujo tema estava ligado à morte. Seu tom era sempre triste e de lamentação. O ano de 1938 encontra-se em um período de grande desenvolvimento industrial e uma grave crise social e política, que teve como consequência a Segunda Guerra Mundial. O poema relata problemas do homem atual; isto, seu desencaixe e solidão.

Esta declamação é de Caetano Veloso, que além de impecável, ao fim desta, ele relaciona a poesia ao atentado aos 11 de setembro.

Sentimento do mundo

O primeiro poema (que deu nome ao livro) revela a visão-de-mundo do poeta: não é contente, e sim, é repleta da realidade que apavora. Logo no começo já percebemos a indignação do poeta na frase que reflete suas limitações diante do mundo: “Tenho apenas duas mãos”. O pessimismo se faz presente nos versos de morte, inclusive a do próprio poeta. Neste, Drummond mostra toda sua sensibilidade e aflição em relação ao outro e diz ter “O sentimento do mundo”.

Mãos dadas

Mais uma vez observa-se seu compromisso com o outro. O poeta diz ser “o poeta de um mundo caduco”. Mundo esse onde não há esperança e espaço para preocupações excessivas com o futuro, é necessário focar no presente e renunciar ao lirismo romântico ou uma fuga contemplativa.

Os ombros suportam o mundo

Temos um mundo contemporâneo pleno de desesperança, onde ao homem restou à descrença. No melhor, só lhe resta continuar vivo, mesmo sozinho, mesmo sem querer.

O poema traz um tom de tormento e martírio. Não sente mais, nem teme as adversidades da vida, abstêm-se do amor e da fé, pois estes se tornaram inúteis. Há desilusão e um pessimismo racional diante da realidade, esta que o fez cético e melancólico. E por fim, desta forma consciente das dificuldades na qual a vida se mostra insuficiente a ponto de nada mais importar, o mundo já não lhe pesa mais que a mãe de uma criança. “Os ombros suportam o mundo”.

Assim sendo, a breve análise desses poemas reafirmam a genialidade de Drummond ao tratar de temas diversos nos quais podemos notar a atemporalidade do poeta, cujos assuntos permanecem presentes mesmo considerando uma visão atual.

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Giseli Betsy

Sou uma delicada estudante de Letras, que tem inclinações “hereges” por Filosofia, Psicologia e Arte. Nas horas livres assisto filmes de terror e escrevo rimas pobres, nada ao estilo Florbela Espanca não, meras rimas simples. Um tanto complicada, relativamente chata, gosto da felicidade, mas não faço dela absoluto. Apaixonada por noites de lua cheia, gostaria de ser uma das mulheres de Chico Buarque, sonho em morar na praia de frente para o mar. Até lá, sigo vivendo com arte seja como flor! Acredito na poesia da imagem e valorizo o poder da palavra.

"É na arte que o homem se ultrapassa definitivamente." (Simone de Beauvoir)