Você com certeza já ouviu falar de Angenor de Oliveira só não deve estar ligando o nome à pessoa, ou melhor, a música a pessoa.

“Bate outra vez

com esperanças o meu coração…”

Cartola não teve educação formal, pois bem, o que poderia saber este homem? Ele sabia música, sabia que doía, sabia que poderia doer ainda mais, sabia que as rosas não falavam, sabia da vida e da morte.

Ninguém menos que Carlos Drummond de Andrade lhe prestou homenagem escrevendo “Cartola – no moinho do mundo”. Sim o poeta rendeu-se ao encanto, desalento e sensibilidade deste também poeta, embora menos conhecido. Cartola tomou conhecimento do belíssimo texto dias antes de sua morte.

“O nobre, o simples, não direi o divino, mas o humano Cartola, que se apaixonou pelo samba e fez do samba o mensageiro de sua alma delicada.”

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Angenor de Oliveira não é só o poeta das rosas e nem o compositor que aconselhou-nos que a vida segue, envelhecemos e somos responsáveis por nossas escolhas usando de metáforas em “O mundo é um moinho”.

“Preste atenção, querida

Embora eu saiba que estás resolvida

Em cada esquina cai um pouco a tua vida

Em pouco tempo não serás mais o que és…”

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Cartola cantou com a alma e com o coração. Cantou o amor, amor real não o “felizes para sempre” esse amor que dói, que alegra, que começa e que termina. Acreditava no estar junto.

Pensando bem, Cartola é o próprio amor, começando pelo samba e logo pela Estação primeira de Mangueira da qual é um dos fundadores. Depois vieram suas mulheres, companheiras de vida, com algumas sofreu mais do que foi feliz com outras chegou a adoecer. Até que encontrou dona Zica e com ela viveu até o fim de seus dias.

“Chega de tanta procura

Nenhum de nós deve ter

Mais alguma ilusão

Nós dois…”

Muito do que sentia colocava em suas canções ou sambas-canções, por assim dizer. Sua dor pode ser sentida e ouvida em suas composições.

Foi este homem que cantou “A sorrir eu pretendo levar a vida”, uma pena que a vida não lhe sorriu de volta. Sua história muito sofrida caminhos tortuosos entre flores e espinhos percorreu, até guardador de carros chegou a ser e nunca pode viver do que mais lhe fazia feliz, o samba.

“Finda a tempestade o sol nascerá”

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Estava com quase 70 anos e fazendo alguns shows eis que o sol se pôs novamente, mestre Cartola descobre que está com câncer. Decidido a não contar a ninguém fez um desabafo da melhor maneira que conhecia, cantando.

E assim consciente de que lhe restava pouco tempo de vida compôs Autonomia. Sabia que a morte o levaria em breve, foi então que quase como uma súplica escreveu:

 “Se eu pudesse gritaria, se eu pudesse brigaria

 não vou, não quero.”

Não lhe foi dado o direito de escolha, a doença venceu em 30 de novembro de 1980. Aos 72 anos morreu um dos grandes poetas, injustiçado, da MPB.

“É impossível nesta primavera, eu sei

Impossível, pois longe estarei…”