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A xuva enxarcou o meu xapéu qando xeguei na xácara. Qe xato isso! Tem xá na xaleira?

Faz pouqísimo tempo qe o novo acordo ortográfico entrou em vigor. Mas é posível qe a língua portugesa, em sua forma escrita, sofra mais alterasões. A proposta é da Comisão de Educasão do Senado, sob o aval do Senador Cyro Miranda (PSDB-GO) e  a coordenasão dos profesores Ernani Pimentel e Pasquale Cipro Neto, o famoso Profesor Pasquale.

Anote aí então na sua ajenda. Ainda não á data definida ou ora marcada, mas o dia em qe tudo o qe estudamos será jogado no ralo poderá estar com os dias contados (apezar de eu duvidar muito qe esa ideia louca vire realidade de fato). Ademais, todos os livros estarão com a ortografia ultrapasada também. Ok, nenhuma novidade. A última reforma ortográfica, por mais sutil qe tenha sido – alterou 5% do dicionário – já foi responsável por dores de cabesa em profesores, vestibulandos, escritores e jornalistas em jeral. Até oje, por ezemplo, me dói ter qe escrever ab-ruptamente, talvez a mudansa mais sem sentido de todas. Dá nada, tive qe me acostumar, asim como todos os demais profisionais de comunicasão. Á décadas que a língua portugesa vive em um transtorno bipolar sem fim, sendo modificada incesantemente.

Além da prerrogativa de unificar ainda mais os países de língua portugesa, simplificando o idioma, a proposta da nova reforma prevê uma economia de R$ 2 bilhões. Confeso qe não entendi esa conta, já qe todos os livros didáticos de todas as escolas de todo o Brazil terão qe ser reescritos e reimpresos em menos de uma década depois de iso já ter sido ezecutado. É realmente algo bem intelijente. A alterasão será drástica na forma como escrevemos. Será o fim do h antes de vogais e de indecizões entre x ou ch, s ou ss, s ou z, g ou j, entre outras palavras dificílisimas de serem escritas, já qe é precizo um pouco de estudo e leitura para a compreensão do idioma. Ainda á ideias severamente mais ouzadas, como trocar o c pelo k em alguns “k”asos.

Quase ninguém sabe a ortografia em nosso País. Encontrar quem saiba usar hífen, j, g, x, ch, s, z, é algo raro. Até professores precisam recorrer a dicionários para confirmar como se escreve uma palavra ou outra, de tão complexo que é o nosso sistema. (Ernani Pimentel)

Observem bem. A justificativa dos senhores proponentes é de qe, já qe não consegimos educar uma populasão, vamos deixar as coizas mais fáceis. Afinal, o portugês é realmente muito difícil, para aprendê-lo é precizo ir à escola e ler alguns livros. E pode ser qe nem ir à escola seja o suficiente, já qe profesores não sabem ensinar o idioma de maneira preciza (Brazil: 0 38º país no ranking mundial de educasão). Muito mais fácil se adaptar ao novo dialeto dos comentários de internet do qe realmente aprender o idioma correto, não axam?

A qestão aqi está lonje de discutir se é certo ou errado, mas vizionário qe sou, já estou escrevendo o meu primeiro artigo com a nova – e ipotética – ortografia. Alterasões já ocorreram ao longo do tempo. Machado de Assis, o maior escritor qe o Brazil já criou, escreveu seus livros com uma ortografia ultrapasada. Com o pasar dos anos suas obras foram adaptadas, mas iso não foi o suficiente para as tornarem menos geniais.

“Você” já foi “vossa mercê”, “contato” já foi “contacto”, “autorretrato” já foi “auto-retrato” et caterva. Portanto, estejamos acostumados ao qe posa acontecer, mas sem esqecer qe nenhuma reforma foi tão estravagante quanto esa pretende ser. Mas qe nada, vamos dar uma xance aos qe não consegiram aprender (por falta de incentivo ou vontade própria) o portugês correto e vamos nós aprender a escrever de novo, já qe a justificativa é esa. Vamos nivelar por baixo.

A propósito, gostaria de aproveitar e sujerir esa fabuloza ideia ao governo da Xina. Qe idioma xato é ese tal de mandarim, em qe os mesmos fonemas podem significar palavras distintas de acordo com a entonasão uzada. Iso é deveras confuzo e preciza ser facilitado, #MudaXina.

Também sujerir ao Obama e à Rainha qe o inglês seja mudado. Se o brazileiro axa duvidozo o x e o ch, imajine só os coitados dos americanos e inglezes que precizam “decorar” diferensas de pronúnsias em uma mesma palavra como: bUt, cUte e rUle ou mIles e mIlk, #MudaInglezes.

Não sei, mas às vezes é com crase.
Não sei, mas nesse caso “às vezes” tem crase.

O projeto Simplificando a Ortografia ainda está em faze inicial e, como muitos outros projetos de lei brazileiros, parece algo bastante umorístico, ao menos no início. A Comisão de Educasão pretende entrar em contato com Portugal, Mosambique, Angola, Cabo Verde e outros paízes de língua portugueza até maio de 2015 para alinhar as mudansas.

Não pretendo ser conservador em absolutamente nada e foi bem esquizito escrever dessa forma. Axo até qe pareceu qe eu estava escrevendo diretamente no feicibuq. Enfim, não imajino que iso irá acontecer, mas cazo aconteça, algumas mudansas, de acordo com o site do Senado, serão esas:

Homem – Omem
Hotel – Otel
Hoje – Oje
Humor – Umor
Harpia – Arpia
Harpa – Arpa
Guerra – Gerra
Guitarra – Gitarra
Chá – Xá
Flecha – Flexa
Macho – Maxo
Analisar – Analizar
Blusa – Bluza
Exemplo – Ezemplo
Exuberante – Ezuberante
Êxito – Êzito
Exigente – Ezigente
Exame – Ezame
Executar – Ezecutar
Existir – Ezistir
Amassar – Amasar
Açúcar – Asúcar
Moço – Moso
Pescoço – Pescoso
Auxílio – Ausílio
Asa – Aza
Brasília – Brazília
Base – Baze
Avisar – Avizar
Música – Múzica
Meses – Mezes
Deuses – Deuzes
Pegajoso – Pegajozo

Ao escrever esse texto tentei me adaptar às supostas novas regras. Até consegui, mas, sinceramente, vá pro diabo com essa reforma. O Brasil tem milhares de assuntos mais importantes que podem entrar na pauta do Senado. Nada vai mudar se alguém continuar escrevendo de maneira errônea desde que essa pessoa não seja um profissional da comunicação. Sem falar que ir à escola e ler meia hora por dia de um livro, jornal ou revista já é o suficiente para que todos saibam escrever palavras básicas.

Não tem como fazer com que a linguagem escrita seja exatamente igual à fonética. No Sul do país, por exemplo, é comum ouvirmos as pessoas falando “caroça”, “corendo”, “fero” e “pareira”. No Rio, falando “ishqueiro”, “forrte”, “deshtilado” e “amorr”. Mesmo assim, as pessoas se mostram capazes de aprender a escrever da maneira que a ortografia manda. A língua falada definitivamente não é a mesma da língua escrita. Existe uma característica – geralmente regional – chamada sotaque que impede essa uniformização fonética.

O problema não é a ortografia complicada da língua portuguesa, mas a falta de interesse da população  pela leitura e pelo próprio idioma. Hoje as pessoas leem pouco e compartilham muito. Tem também quem lê os comentários e não lê a matéria. Foda. Dessa forma não vejo imagem melhor para resumir a atualidade do que essa tira do Raphael Salimena.

sociedade-da-informacao-raphael-salimena

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Flaubi Farias

Jornalista, parolo, navegador, alienígena e editor do La Parola.
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