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Um vídeo de uma menina americana de 15 anos que teria mantido relações sexuais com vários garotos em uma escola nos EUA foi divulgado na internet na última semana. Não há alegação de estupro, foi “sexo consensual” segundo os envolvidos. Contudo, após ter sido vítima de inúmeras ofensas e julgamentos nas redes sociais, uma amiga da jovem tornou público o fato de que a menina foi vítima de tráfico humano por dois anos, período em que sofreu abusos sexuais.

Eu me pergunto o quanto este caso de sexo com consentimento diferencia-se do caso de estupro coletivo acontecido recentemente no Brasil. Um consentimento em que não há uma sólida capacidade de discernimento não seria também um estupro?

É provável que os jovens que fizeram parte do incidente nos EUA não tivessem ciência do fato da garota ter sofrido violência sexual anteriormente. Ainda assim, não os considero menos inocentes ao divulgarem imagens, vídeos e colocarem-na em tal situação de humilhação pública. São perpetuadores da mesma cultura que abusa e traumatiza. E mais, também me questiono o quanto cada um desses meninos não foi por si só a reprodução de atos de violência sofridos e revividos na mente de uma menina que teve sua saúde mental abalada e foi destituída do poder de racionalizar claramente sobre suas atitudes no que tange envolvimento físico, desejo sexual e livre arbítrio em relação ao sexo oposto.

Recentemente, assisti o filme “A Garota do Livro” (2015),  no qual a personagem principal, Alice, frequentemente mantém relações sexuais casuais com homens que acabou de conhecer, o que não seria um problema, se esse comportamento não fosse fruto de um abalo mental sofrido por ela ao ter sido seduzida e sexualmente abusada quando era adolescente.

Nesta história, a falta de suporte, a atitude machista e a culpabilização de sua família fizeram com que esse trauma nunca fosse tratado. Como consequência, menina cresceu usando o sexo com uma válvula de escape para qualquer momento de instabilidade emocional – o reflexo de uma autoestima profundamente devastada e de uma necessidade de sentir-se fisicamente amparada, mesmo que por desconhecidos. Tal atitude lhe proporcionava um consolo passageiro, mas no dia seguinte, Alice voltava a sentir horrivelmente despedaçada.

O que considero mais relevante aqui é que ambas as mulheres que citei provavelmente não teriam se colocado em uma situação de “sexo consensual pós-traumático” doentia se não houvessem sido emocionalmente destruídas por outros homens.

Lutamos para que as mulheres tenham mais liberdade sexual sem terem sua intimidade exposta e condenadas por uma sociedade machista e hipócrita, que, por si, só já é capaz de danificar mentes sem que sequer tenha havido algum tipo de abuso sexual ou psicológico.

Imagine o quanto essa mesma sociedade é eficaz em matar de dentro para fora as pessoas que sofrem de fato algum trauma e não conseguem novamente fortalecer-se, pois são permanentemente atacadas e julgadas por algozes que lhes aniquilam qualquer chance de recuperação.

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Alicia Madrid

Exploradora de universos, sejam eles lugares, livros ou pessoas.

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  • Nathassia Nogueira

    Sou mulher e não concordo que um trauma leve a cometer outro trauma ainda mais se for consensual. Eu mesma já fui vítima de preconceitos e traumas públicos e nem por isso coloquei a culpa em fatos e acontecimentos. Tive que aprender a sofrer, colocar meu orgulho no lixo olhando diante de um futuro longe do que me fez sofrer. Nada justifica a falta de carácter, errar é humano, querer ter desculpa para cometer novos erros e ser vítima sempre nao tem justificativa. Mudar é querer dar a volta por cima e ser firme nas nossas atitudes, se atualizar de informações. Hoje mulheres e homens buscam desculpas para nao se responsabilizarem pelos seus atos, muito me parece o que acontece com as religiões… Enfim digo uma frase que parece ser boba pois acreditam ser de contos infantis, sigo a risca: mais de uma vez é dito durante “Alice Através do Espelho” que não é possível mudar o passado, mas sim aprender com ele.