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Às nove da manhã ela me acordou e nos levantamos da cama. O sol despachava sua luz e invadia o quarto através do tecido da cortina. Estávamos na praia, Laura e eu. Ela veio até mim com seu rosto ainda sujo de maquiagem borrada e me desejou um bom dia. Respondi com um sorriso.

– Eu poderia viver aqui – ela disse, olhando o mar pela janela.

– Eu poderia morrer aqui – respondi.

– Morrer? – ela perguntou espantada. – Por que morrer, se é melhor passar a vida toda aqui?

– Eu sei, querida. Não entenda mal, esse lugar é maravilhoso. Mas “viver” dá uma ideia de continuidade, abrindo lugar para um futuro incerto no final. Eu quero terminar os meus dias aqui, ao seu lado. Não há nenhum outro lugar onde eu gostaria de estar agora.

E isso foi o suficiente para deixá-la louca por mim durante o resto do dia.

Era a casa dos pais dela. Já haviam morrido há muito, e ficou tudo em nome dela e da irmã, Lara. Laura pegou a casa de praia e o carro e cinquenta por cento da poupança. Lara, que era a mais bonita, recebeu a casa de campo e os outro cinquenta por cento, que usou para abrir um restaurante de frutos do mar perto da casa de praia. Ao contrário de Lara, que chamava a atenção sempre e em qualquer lugar, Laura tinha uma beleza disfarçada pela timidez. Timidez que servia de disfarça para o perigo que ela era. Levantando meio centímetro de saia, ela poderia fazer você arquitetar um plano para matar o presidente; qualquer presidente.

O único meio de chegar lá era de carro. O ônibus te deixaria na estrada principal. De lá, você tinha que ir a pé ou arrumar um carro para chegar até a casa. Tínhamos o carro que os pais dela deixaram, um Hyundai barato.

Almoçávamos todos os dias no restaurante de Lara. Eu nunca me dei bem, nunca me entendi com os camarões ou mexilhões ou ostras ou qualquer coisa do tipo, mas a comida lá era ótima, e as bebidas ajudavam a descer. No começo da tarde nós juntávamos uns panos e armávamos uma mesa na varanda da casa, no segundo andar. Jantávamos lá todas as noites. A casa era rodeada pela areia, com a estrada de chão atrás dela, e com o mar na frente. As ondas vinham e chegavam bem perto. E a lua nos vigiava.

Laura não sabia comer ostras. Desperdiçava grande parte delas, e assim elas caiam aos montes no chão. Eu ia na cidade toda manhã e trazia alguns pães, salame, carne de boi, vinhos e licores, tomates, batatas, todo tipo de coisa que não fosse servida no restaurante de Lara. Eu cozinhava enquanto Laura dançava entre a sala e a varanda. A música era alta. Éramos os únicos naquele lugar. Ela gostava de jazz. Era difícil encontrar uma garota que gostava de ouvir jazz. Mas ela gostava muito, e colocava seus artistas favoritos para tocar na vitrola antiga do pai. Só pude reconhecer alguns deles. Ela deslizava por todo lado com aquele vestido branco e com uma coroa de algas e conchas. Algas e conchas e Nat King Cole rodeados por todos aqueles retratos de artistas antigos que estavam pendurados nas paredes. Todas as fotos em preto e branco, e que me deixavam angustiado. O tempo ia passando, e eu estava certo de que ninguém nunca teria uma foto minha pendurada na parede.

– Você vai ao centro hoje, querido?

– Acho que sim.

– Você pode me trazer umas coisinhas?

– Claro. O que é?

Ela tinha pedido para eu comprar um tal licor de menta. Trouxe-o. Era bom. Nós misturávamos com um refrigerante de limão e bebíamos. Ela ficava alta com facilidade. Eu bebia e sentia sono. Ela queria sempre dançar e cantar e girar.

– Não – eu dizia –, você sabe que eu não sei. E meus pés estão me matando.

– Você só sai daqui pra almoçar e jantar – ela respondia. – Como que seus pés estão doendo?

– Eles pressentem o perigo, querida. Eu não sei dançar.

– Você tá é quebrando minha onda.

– Dance para mim, então.

E ela dançava. Ela subia o vestido e eu já imaginava o presidente morto ao meu lado. Com um par de coxas como as dela, eu estriparia qualquer um dos doze apóstolos, e com um sorriso. Laura tinha esse poder.

Durante a janta, com a música vindo lá de dentro, eu tentava ensiná-la a comer ostras. Eu não sabia, mas como ela também não sabia, nos divertíamos juntos.

– Você tá é derramando tudo – ela dizia sorrindo.

– É que você tá fazendo tudo errado, eu estou tentando te ensinar!

– Olha só quem fala! O cara comendo batata fritas.

– Pelo menos eu sei comer minhas batatas. Cuida das suas ostras, mulher, elas estão fugindo.

E as ostras caíam e melavam o chão, fazendo aquele barulho que faz uma bexiga de pus caindo do quinto andar.

Ela tinha essa fixação maluca de querer transar dentro do mar. Ela pensava que seria excitante ou qualquer coisa do tipo.

– Por que você quer tanto isso? – eu perguntava.

– Vai ser diferente. Você não quer tentar coisas novas? E vai ser muito excitante.

– Eu quero sim, querida. Mas pra quê? Não tem ninguém aqui perto. É melhor a gente ir pro quarto e ficar lá mesmo.

E então ela fechava a cara para mim e saía furiosa para o quarto. Eu voltava para a varanda e recolhia a sujeira das ostras.

Laura fazia um movimento estranho com as penas. Uma vez dentro dela, ela trancava as pernas ao seu redor, e você nem pensaria em sair. Ficaria o resto da vida lá, se fosse possível. Nós não tínhamos uma cama, propriamente dita. Era um colchão velho que ficava jogado no chão. Garantia certa estabilidade, o que era bom, mas eu era acordado todas as noites por Laura, apavorada, que pedia para que eu verificasse se não havia nenhuma barata ou ratos por perto.

– Nós estamos no litoral, querida, não há ratos por aqui.

E ela sempre acreditava. Ou me enganava, porque na noite seguinte tudo se repetia.

Então os dias se passaram até que eu cedi para a tal ideia maluca de foder no mar. Se as baleias e os golfinhos e os camarões podem, eu também posso. E agora seria a vez deles provarem um pouco do meu suco.

Descemos bem cedo e comemos no restaurante de Lara. Era a única coisa que ficava perto da casa de Laura. Aproximadamente dez minutos de carro. Havia sempre essa grande concentração de turistas, a maioria buscando um pouco do nosso sol e do nosso clima. Eu via alguns velhos asquerosos que entravam acompanhados de suas garotinhas jovens e perfumadas. Eles se sentavam todos sempre no mesmo lugar, perto das janelas. Os velhos e suas mãos trêmulas que acariciavam o rosto sujo de ostra. E as garotas que escondiam a cara de nojo. Admiravam a vista do mar, com a areia refletindo o sol, e as ondas trazendo o suco do sexo marinho para a costa. E em breve, nós, Laura e eu, estaríamos retribuindo a gentileza.

Nós comemos uma grande porção de lulas, polvos, camarões e alguns pedaços de filé de carpa. O filé… a única coisa que me agradou.

– Eu vou trazer uma amiga… – ela disse.

– Uma amiga pra quê?

Ela hesitou e então soltou um suspiro. Ela tinha esse ligeiro sorriso no canto dos lábios. Largou os talheres e disse:

– Pra se juntar à gente no mar.

– Você quer levar a garota pra transar com a gente dentro do mar?

E foi assim que eu conheci Teri, a amiga de faculdade de Laura.

Fiquei de buscá-la no centro da cidade. Às dez horas da manhã eu estava com o carro parado em frente ao mercado municipal. Teri vinha carregando uma única mala de mão. Ela me conhecia pelas fotos que Laura havia enviado. Parou ao lado do Hyundai, se curvou e olhou pela janela.

– Você é muito diferente das fotos – ela disse.

– É, eu sei – respondi. – Nas fotos eu não falo, não me movo e nem respiro. Minha luz natural brilha ao vivo. Entre, por favor.

Ela sorriu e entrou.

– Laura me alertou e disse que você faria algum comentário estranho.

Retribuí com uma olhadela.

Teri era essa loira grandona, com uns trinta anos e uma cabeleira longa. Parecia ter saído de um comercial de shampoo. Quando sentou na poltrona, eu observava, seu jeans curto subia revelando toda a coxa, e ela deslizava na poltrona procurando uma boa posição.

– Esse carro não tem ar? – me perguntou.

– Não – respondi. – Os pais de Laura foram muito generosos com a casa e com a herança, mas pelo visto não se importaram muito com o carro.

Ela abriu sua janela, eu abri a minha, e dei a partida. Logo pegamos a estrada de chão que nos levaria até a casa.

Teri às vezes se apoiava na porta e colocava a cabeça para o lado de fora, como um cachorro viajando de carro, e deixava o vento talhar seu rosto. Era um rosto suave, com uma expressão de quem tinha vivido muito bem até então. Ela não falava muito, mas quando o fazia, era para comentar sobre os tempos em que estudou com Laura, e como as duas haviam se divertido juntas. Nenhuma diversão seria como a que elas teriam dentro do mar comigo, pensei. Tinha mãos grandes e dedos compridos.

Chegamos e topamos com Laura vindo nos receber e falando alto com Teri, que retribuía na mesma altura. Me encarreguei de levar sua pequena bagagem para dentro.

Era um almoço especial, pois pelo que Laura havia me dito Teri também não simpatizava com frutos do mar. Tivemos bifes e tortas de batata e alguns champignons. Me agradava ficar ali sentado enquanto as duas conversavam e relembravam os dias passados. Eu ficava ouvindo aquilo, mas sentia um vácuo inexplicável dentro de mim, como a saudade de algo que nunca havia acontecido. Eu nunca tinha ido à faculdade, nunca dividira casa com ninguém, nunca participei de festas com amigos do colégio. Foi sempre eu e mais ninguém. Quando, por sorte, passava alguns dias assim, com alguma garota, eu sempre experimentava essa sensação de carência. Mas as mulheres foram sempre muito boas comigo, e isso me bastava.

Passamos o fim de tarde bebendo vinho e uma vodka sabor maracujá. Veio a noite, e Laura pediu para que eu cuidasse de organizar a louça da janta enquanto iria para o mar com Teri e, com suas palavras, “ligaria o motor e o deixaria pronto”. Não relutei. Aquela era uma boa mulher.

Terminei a louça e imaginei quantos cavalos já haviam penetrado aquele “motor” loiro. Era uma grande máquina. A gravidade fazia seu trabalho aqui e ali, mas o conjunto ainda era muito bom. Desci os doze degraus de madeira e senti meus pés tocarem a areia. A praia de areia quente, que havia sido cozinhada pelo sol durante as últimas horas estava lá me esperando.

– Ei, você não vai entrar? – gritou Laura.

– Já vou, querida! – respondi.

– A água tá quentinha.

– Isso é uma delícia – gritou Teri.

As duas já estavam nuas e brincavam com a água. Tirei minha camisa. O tempo estava fechado. Nuvens negras carregadas. Luzes brilhando acima delas. Senti a brisa leve do mar soprando em mim, atravessando entre meus braços e pernas, fazendo-me sentir num bulevar de relâmpagos e estrelas cadentes. O vento soprava pequenos grãos de areia para longe, e formava esses lençóis sem cor na minha frente. A música que vinha da casa só fazia aumentar minha sensação de fragilidade. Eu sofria um fascínio extraordinário por estar no meio daquela tempestade natural. Não era necessário lutar.

As garotas nadando nuas. A luz vinda do céu. A areia quente. Meu peito atacado pela brisa e pela chuva leve que começava a cair. Era nosso litoral particular, e eu dançava como um cacique clamando por seus deuses. Mexia os braços para cima e para baixo, olhava para o céu, mantinha a boca aberta recebendo as leves gotas de chuva. Não enxergava estrela nenhuma, mas percebia a lua escondida atrás daquela espuma negra lá em cima. As garotas riam de mim e imitavam minha performance.

Atravessei a fina barreira de areia formada pelo vento intenso, um pé saía e outro entrava na lama de água do mar, e corri para o encontro delas.

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Iago Calegario

Iago Calegario

Nasci em Junho de 92 em Cachoeiro de Itapemirim, ES. Após passar dois anos na faculdade de Engenharia Química da UFRRJ, desci voltar atrás e tentar algo novo. Então eu me vi cursando Agronomia na UFV.Havia essa diferença insana entre o que eu queria e o que eu estava fazendo.
Sobre escrever, é o que eu faço quando esqueço que não estou fazendo exatamente aquilo que gostaria – como todo o resto do mundo. Talvez o que mais me aborreça seja o fato da maioria das pessoas julgarem a literatura baseada naquele livro chato que elas leram quando eram mais novas. Há muita coisa boa por aí.
Iago Calegario

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  • Sr. Unforgivable

    Ótimo texto.