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Como uma estudante de jornalismo apaixonada por personagens reais, não seria difícil também me encantar pelo profissionalismo de Eliane Brum. De jornalistas históricos a jornalistas políticos, de opiniões fortes, esportivos, caricatos e renomados, eu fico com a escritora e jornalista que faz da profissão uma verdadeira literatura.

O livro O Olho da Rua (2008, Eliane Brum) é a caricatura fiel do jornalismo literário, classificação que, ao meu ver, deveria ser regra na nossa profissão – seja na política, seja no esporte, seja nos cadernos de cotidiano. Dividido em dez grandes reportagens publicadas na Revista Época, Eliane viaja (muitas vezes literalmente) por um Brasil que nós, das matérias factuais, não imaginamos existir. Da Amazônia às favelas do Rio de Janeiro, Eliane não mediu esforços, nem poesia, para descrever as vidas de minorias que estão às margens das pautas jornalísticas. E não que o buraco da rua onde mora Dona Maria não seja matéria importante. É sim! E é história.

Sobre isso, Eliane não deixa dúvidas no que escreve. Desenterra no livro a invisibilidade. Permite-se observar e, desta forma, nos coloca na posição de plateia e público que, atentamente, absorve a informação que se esconde por trás das vidas. Ela diz: “eu acredito que, nas ruas e no mundo, o grande desafio é olhar para ver. E olhar para ver é perceber a realidade invisível – ou deliberadamente colocada nas sombras. Olhar para ver é o ato cotidiano de resistência de cada repórter, de cada pessoa.”

Nas veias do jornalismo literário, Eliane Brum é sangue. De todas as cores, de todas as raças. Percorre por um país diverso e, ao mesmo tempo, por um país desabitado. Desbrava a Amazônia como se fosse um universo infantil a ser descoberto pelas pequeninas mãos frágeis de uma criança. Conta histórias da vida e para vida e não esquece dos seus erros. Ao final de cada reportagem, a escritora e jornalista retorna ao momento que escreveu a história e analisa, com cuidado, os erros que cometeu e não deixa de nos contar a sua experiência de viver outras vidas. Eliane Brum é a transparência da ética e do bom jornalismo.

Se existem o medo e a iminência do jornalismo perder as estribeiras e descer pelo ralo, Eliane mostra em palavras que a salvação está numa vertente ainda pouco utilizada. Literatura e Jornalismo são dois conceitos que, separados, não combinam. Sobrevivem com a solidão do século XXI, mas acredito que podem viver se juntos estiverem. Tom Wolfe, jornalista e escritor norte-americano, em seu livro Radical Chique e o novo jornalismo (2005), é categórico e explica o porquê do jornalismo literário ser um caminho que acarreta boas respostas. Parece que Eliane Brum o seguiu:

“A ideia era dar a descrição objetiva completa, mais alguma coisa que os leitores sempre tiveram de procurar em romances e contos: especificamente, a vida subjetiva ou emocional dos personagens. Por isso foi tão irônico quando os velhos guardiães tanto do jornalismo como da literatura começaram a atacar esse Novo Jornalismo como “impressionista”. As coisas mais importantes que se tentava em termos de técnica dependiam de uma profundidade de informação que nunca havia sido exigida do trabalho jornalístico”.

Nas histórias do menino sentenciado pelo crime na favela, dos Raimundos de uma terra sem meio, da enfermeira que cuidou de tantas vidas esperando a sua terminar, Eliane dá exemplo de humanidade. Não esconde a dificuldade que é viver várias vidas, enquanto a sua não é contada, mas vivida entre tantas outras. Não esconde a facilidade que é cometer equívocos. Mas deixa claro, e disso não abre mão, que é sobre o ser humano que o jornalismo trata. Ou que deveria tratar.

É fato que tantos outros autores permeiam a linha do literário. É fato também que alguns veículos já tentam caminhar ao lado da literatura. Daniela Arbex, autora do livro O Holocausto Brasileiro, também nos permite a beleza de uma história contada. Num cenário de guerra e mutilações, as histórias tornam-se vivas aos nossos olhos. O jornalismo literário nos traz o real e deixa a cargo do leitor a emoção permeada entre as linhas destacadas com as aspas.

Eliane também ensina. Para quem está sempre querendo aprender, os seus livros são verdadeiras fontes teóricas, por assim dizer. “O que as pessoas falam, como dizem o que têm a dizer, que palavras escolhem, que entonação dão ao que falam e em que momentos se calam revelam tanto ou mais delas quanto o conteúdo do que dizem. Escutar de verdade é mais do que ouvir. Escutar abarca a apreensão do ritmo, do tom, da espessura das palavras – e do silêncio”, ela escreve. E escreve como ninguém.

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