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Entre as relíquias eternizadas do jornalismo impresso, eis que surge uma simples, breve e deliciante entrevista com o aniversariante do dia, Charlie Chaplin, que completaria hoje (16 de abril) 124 anos.

O texto, na linguagem original, foi publicado na Folha da Manhã em 5 de maio de 1954.

O jornalista italiano Alfredo Paniucci, de “Epoca”, obteve em fins do mês passado uma entrevista de Chaplin – em sua vila de Corsier-Vevey, Genebra – que pode ser considerada sensacional. Correra uma noticia, na França e na Italia, que Chaplin, ao comemorar seu 65º aniversario, no dia 16 ultimo, receberia os representantes da imprensa daqueles dois paises para uma entrevista coletiva. Na realidade, tratava-se de mero boato. O grande ator nada havia marcado e foram numerosos os jornalistas que fizeram inutilmente a viagem, voltando apenas com algumas fotos da residencia de Chaplin e no maximo de um ou dois de seus filhos. Paniucci, entretanto, foi mais persistente. Insistiu, junto ao mordomo, para ser recebido. Este, após tenaz resistencia, comprometeu-se a falar com o criador de “Luzes da Ribalta”: se ele estivesse de bom humor, no dia seguinte, era provavel que concederia a entrevista. E o reporter italiano voltou, para conversar com Chaplin, dele obtendo declarações que, se não são novas, não deixam de ser curiosas.

Depois de descrever o aspecto da vila, as particularidades que pôde notar, na sala de espera, Paniucci, que é o primeiro jornalista a ser recebido por Chaplin na sua vila suiça, diz que ele lhe parece, em trajes esportivos, com um aspecto extraordinariamente juvenil. Seus olhos azuis, sobretudo, são sorridentes como os de um menino. Conduz o reporter a uma pequena colina nos fundos de sua vila, depois de recusar o chapéu, que lhe oferece sua esposa: “Não sou tão velho assim para necessitar de chapéu”, diz. E sai, quase correndo, acompanhado pelo reporter. Na colina, faz um gesto amplo com os braços, parecendo querer alçar voo e diz: “Deste ponto, domino o lago.”

Ambos regressam e Chaplin vai mostrar o quem possui na sua vila. Aponta para um espelho, “puro estilo Chippendale” e sobre uma escrivaninha o reporter observa apontamentos que acredita serem de um “script”. São folhas divididas ao meio, escritas do lado direito, ao passo que do esquerdo algumas notas apenas. Chaplin fala, mostrando suas famosas porcelanas, mas a atenção do jornalista é despertada por uns quadros abstracionistas.

Chaplin pergunta: “Gosta?” E acrescenta : “Para mim são profundamente antipaticos. Tenho-os na parede exclusivamente porque, vendo-os, saio desta sala, de que não gosto.” Mal termina a frase e abre uma porta que dá para o estudio, decorado de moveis austeros e escuros. As quatro paredes estão recobertas de livros. Poucos discos sobre a vitrola, entre os quais a “Nona” dirigida por Toscanini. Chaplin aponta para os livros, denotando orgulho. São todos luxuosamente encadernados. De uma estante tira uma edição de Shakespeare, 1700, impressa em Londres.

O jornalista vê, nas estantes, obras de Thakerav, de Platão, Maupassant, Plutarco, Balzac, Dickens, Poe e Thomas Payne. Num angulo, descobre “Mein Kampf”, de Hitler. Chaplin exclama, sorrindo: “Não sou nazista, não. Li-o antes de realizar “O Grande Ditador”. Mac Carthy gostaria de possuir este livro. Mas não o darei, jamais.” E ante uma pergunta do jornalista, diz, sempre sorrindo, os olhos azuis exprimindo ironia: “A maior parte de meus livros são sobre psicologia. Gosto muito de estudar o proximo; gosto das ciencias ocultas. Ah! Se eu pudesse transformar-me em feiticeiro!”

Ambos voltam para a outra sala, já acompanhados de Oona. Na porta o jornalista quer dar passagem primeiro a Chaplin, mas este abre caminho e diz: “É inutil você querer ver minhas costas; não sou Marilyn Monroe.” E ri, gostosamente. Deixa-se cair numa poltrona e pergunta: “Nunca esteve em Hollywood, na California? Não? Pois não vá nunca para lá. Não vale a pena”. Ergue-se, põe a mão direita sobre o peito e levanta a esquerda, para recitar: “Moi, moi seul et c’est assez.” Inclina-se e acrescenta: “De “Medéia”, de Corneille”. Oana sorri e Chaplin, ao observá-la, continua: “Minha mulher quer voltar para a Italia. Tenho um desejo feroz de rever Florença e Veneza. Florença é uma cidade estupenda. Mas sabe onde eu gostaria de viver? Nos tropicos, em Singapura, em Java, em Bali. Pena que haja muitas moscas.” E, como se estivesse dando combate a uma mosca, faz um “gag” que o jornalista considera irresistivel. Mas aproveita o instanste para fazer uma pergunta sobre o proximo filme de Chaplin. Ele agora parece irritar-se. Diz apenas: “Até agora não tenho nada de concreto. Posso dizer que não será uma tragedia como “Mr. Verdou” e “Luzes da Ribalta”, mas uma comedia moderna: um filme que focalizará os diferentes sistemas de vida dos americanos e dos europeus.” E ante uma nova pergunta de Paniucci, o genio diz: “Os americanos não me querem bem. Durante 30 anos me admiraram e depois passaram a odiar-me. Feriram-me profundamente.”

A esta altura, diz o reporter, alguns fotografos que permaneceram na cidade já estavam entrando na vila de Chaplin. Eles entram e batem chapas, perturbam a entrevista. O mestre ordena uisque para todos, e grandes doses são servidas. E Chaplin aproveita para retirar-se da sala.

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