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Foto: Divulgação/CMI

Por Centro de Mídia Autônoma

Se eu to me sentindo violentado pela forma como sou tratado, se to sendo atacado por que eu que to em baixo, sou eu que tenho que ser o pacífico? Ninguém tem cancha para dizer como eu tenho que me manifestar, porque ninguém aprende pela minha pele. Só eu sei pelo que tenho passado pela falta de grana. Com a passagem subindo eu perco meu direito de ir e vir, e não tem lei que proíba a gente de passar fome.

Entrevista do Coletivo de Mídia Autônoma de Porto Alegre com um participante das quebradeiras das manifestações contra o aumento das passagens em Porto Alegre em junho de 2013.

CMA: Gostaríamos de agradecer por tu conceder essa entrevista.
João: Valeu, galera do CMA, por dar espaço para eu poder falar. A mídia autônoma é a única que faz um esforço para ouvir todas as partes, e isso é importante!

CMA: Vamos te chamar pelo pseudônimo de João por uma questão de segurança como combinamos, ok?
João: Ok.

CMA: Por que você cobre o rosto durante as manifestações?
João: Se até o voto é secreto por que eu não poderia me manifestar sem me mostrar? Sem saber minha identidade e o meus motivos, me acusam de vandalismo como se tudo fosse sem sentido. Se soubessem quem eu sou, com certeza iriam me punir como um criminoso qualquer.

CMA: Tu nos disse mais cedo que participou das quebradeiras na avenida João Pessoa e na Azenha do dia 17, é isso?
João: Sim. Da concessionária da Honda, do prédio da polícia federal e também tentei chegar com o resto do povo até o prédio do grupo RBS, não conseguimos porque a tropa de choque nos impediu. Então continuam lá mentindo sobre o que está acontecendo nas ruas.

CMA: Você depredou esses locais?
João: Sim, eu ataquei esses lugares e também revidei o ataque da polícia.

CMA: E conseguiram te pegar?
João: Não chegaram nem perto. Um dos jornais tirou uma foto minha na esquina da azenha com a Ipiranga, mas não dá pra me reconhecer, eu sempre vou bem agasalhado.

CMA: E por que tu faz esses atos?
João: Se tu quer saber, ultimamente muitas fichas tem caído pra mim. Já faz tempo que esses políticos, junto com seus amigos empresários, vêm me pondo junto com todas as pessoas que eu conheço, numa situação de precariedade, exploração e dependência.

CMA: O que tu quer dizer com isso? A manifestação não era contra o aumento da passagem?
João: É contra o aumento da passagem e um monte de outras coisas. É sempre assim, todo ano, mais e mais, o aumento da passagem é só mais uma injustiça no meio de um monte de outras. Quase todo mundo está sendo superexplorado. Uma hora o povo cansa de ser miserável vendo político falando em progresso e crescimento roubando seu dinheiro. A gente tá cansado disso. Não vamos parar até a gente conseguir pelo menos o passe-livre.

CMA: Queremos saber mais sobre a tua vida. Tu é de onde?
João: Tenho 23 anos e nasci na região metropolitana de Porto Alegre. Mano, terminei os estudos faz um tempinho. Nunca nem pensei em ir pra faculdade porque tive que trabalhar cedo. Nunca tive um emprego decente.

CMA: O que tu faz pra viver?
João: Vivo de bico. Já vendi DVD, entreguei água e fui balconista em papelaria. Trabalho e não tenho grana para nada. Tudo está cada vez mais caro, e a gente vai ficando cada vez mais pobre. Enquanto isso no lado rico da cidade, os políticos enchem os bolsos e andam de namoro com os empresários graúdos, dono de empresa de ônibus, empreiteiro… obra superfaturada, suborno, e a gente de baixo cada vez mais fodida. Isso é injustiça! Isso é violência! Quem se dá conta da sacanagem, começa a ficar indignado.

CMA: Tu é filiado a algum partido ou organização? Está ligado a algum grupo de contracultura?
João: Não sou de partido nenhum. Detesto todos os partidos do mesmo jeito. São todos um bando de safados competindo entre si para nos enganar. Eles não me representam. Também não tenho organização, tenho uns amigos que são punk e também gosto de hip-hop. Se vou para as manifestações vou junto com amigos e vizinhos. A gente fecha uma galera e vai. A gente se cuida, e cuida para não ser reconhecido nem pego.

CMA: Por que você preferiu a forma de manifestação violenta ao invés de se manifestar pacificamente, como os jornais e a maior parte das pessoas defende?
João: Se eu to me sentindo violentado pela forma como sou tratado, se to sendo atacado por que eu que to em baixo, sou eu que tenho que ser o pacífico? Ninguém tem cancha para dizer como eu tenho que me manifestar, porque ninguém aprende pela minha pele. Só eu sei pelo que tenho passado pela falta de grana. Com a passagem subindo eu perco meu direito de ir e vir, e não tem lei que proíba a gente de passar fome.

CMA: O que tu acha da ideia de manifestações pacíficas?
João: Pra mim pelo menos parece que grande parte da mídia que defende a manifestação pacífica era contra as manifestações. Mas depois que a manifestação cresceu, esses que eram contra resolveram se tornar a favor. Querem manipular o povo para que nada mude. Dizem para ir se manifestar pacificamente e cercam a gente de soldado armado. O que não dizem é que manifestação pacífica não muda porra nenhuma, não serve para fazer pressão. Quem tem poder quer desinformar, transformar tudo na mesma coisa, desfile, carnaval, futebol e festa ? e a gente que paga imposto e é explorada no trabalho, a gente que tem uma saúde de merda e uma educação pior ainda, a gente que se revolta contra tudo isso – acabamos sendo tratados pelos bandidos de terno como se fossemos nós os criminosos.

CMA: Como são definidos os locais alvos de depredação?
João: Tem muita galera diferente que tá na rua, cada grupo tem seu critério. Mais porra-loca é a gurizada mais nova que vem das vilas e sente muita revolta, mas não consegue separar bem as coisas. Essa gurizada volta e meia faz bobagem, ataca um carro ou uma banca de revista, o que a imensa maioria de quem tá depredando é contra. A maior parte dos grupos prefere atacar bancos, lojas de empresas grandes, um ou outro ônibus, e estabelecimentos do governo.

CMA: Então os grupos não atacam qualquer lugar?
João: As ações de atacar qualquer lugar sem critério é coisa de policial infiltrado. Tem muito policial infiltrado nas marchas fazendo merda. Uns soltam bombas para apavorar a galera, também viram lixeiras e agridem outros manifestantes. Eles fazem isso para provocar, dar a deixa para o choque agir sem freio. Um amigo levou um jato de spray de pimenta na cara de um policial disfarçado, enquanto chutava a porta de um banco.

CMI: O que tu tem a dizer para quem condena e criminaliza as ações violentas. O que tu acha de ser chamado de vândalo?
João: A verdade é que são os violentos que não deixam que a polícia coordene as manifestações e atropele todo mundo. Pra mim tem graúdo todo cagado, com medo da revolta porque sabe que o povo tem motivo para se revoltar. A bundamolice está acabando, e já foi tarde. Se alguém tá revoltado tem mais é que quebrar mesmo. Quebrar até as coisas mudarem. Bater onde dói, no bolsinho dessa gente. Quebrar o que não funciona e criar tudo novo diferente. Bater em pessoas como faz a polícia é muito pior do que as quebradeiras. Até porque nem vidraça, nem lixeira sofrem dor. Se quiserem me chamar de vândalo, que chamem. Uma guria me disse nessa última marcha, que os vândalos eram um povo que enfrentou o império romano e venceu. Então fico orgulhoso de ser chamado de vândalo, porque acho que também to enfrentando o império e to vencendo! Acho que eu ficaria mais ofendido se os jornais nos chamassem de romanos. Os romanos são eles.

CMA: O que você teria a dizer para os proprietários de lojas que tiveram seus estabelecimentos atacados?
João: Pouco me importa se o empresário da loja da HONDA ficou chateado porque quebramos sua vitrine, sei que ele é só mais um explorador cheio de grana, roubando o trabalho de gente pobre como eu. Pra gente dessa laia uma vitrine é um quase nada. Para quem teve seu mercadinho atacado, eu diria pra ir pra rua para frente do seu negócio e conversar numa boa que a gurizada ouve e não faz de novo.

CMA: Teria alguma coisa a dizer para quem tá pensando em ir nas próximas manifestações?
João: Pessoal, tá na hora de sair do Facebook, de parar de ler a mídia burguesa, Zero Hora, e principalmente, deixar de criminalizar a revolta alheia. Se agasalhem que está fazendo frio, cobre bem o rosto e leva água com bicarbonato que é o melhor remédio para o gás lacrimogênio. Não deixe que nenhum pacifista banque o policial contigo! Pouco importa o que a mídia diz – nossa Revolta é Legítima! Vamos lutar, sair as ruas até conseguir o Passe livre! Era isso! Obrigado!

CMA: Valeu João!

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