Essa é uma entrevista épica, sensacional, descontraída e muito sincera. Foi encontrada por acaso no site Afrôencias. A entrevista está em áudio, basta clicar no playzinho e escutar o Tim Maia falando sobre tudo e sobre todos. Entre os arquivos de áudio há algumas notas e contextualizações muito bem escritas por Gabriel Rocha Gaspar, do site Afroências. Em homenagem à data de hoje, 15 de março de 2013, que completa 15 anos sem Tim Maia, o mestre do soul brasileiro, reproduzimos a entrevista na íntegra. Fica a saudade e a falta que um cantor e compositor do calibre do Síndico faz ao nosso país.

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por Gabriel Rocha Gaspar, Afroências

Não, isso não é uma sessão espírita, nem um encontro extraterreno preparado pelo Racional Superior. Muito menos uma viagem triatlética de baurets com brizola e goró. O Afroências orgulhosamente apresenta uma entrevista inédita com o mestre do soul brasileiro, Tim Maia.

Esse papo entre Tim, Marcio Gaspar e Lauro Lisboa Garcia rolou em São Paulo, curiosamente às nove da manhã de 28 de maio de 1995. À época, Marcio escrevia para a efêmera revista de música Qualis, tão efêmera que não sobreviveu até a publicação da entrevista; Lauro reportava para o Jornal da Tarde e publicou uma materinha sobre o assunto. Curta, infelizmente, porque Tim Maia andava meio “quatro-quatro-meia” (gíria dele mesmo, “uma fração, que não chega a ser cinco”) no mercado. Tinha acabado de lançar “Voltou Clarear”, um disco a la Tim Maia, meio “mela-cueca”, meio “esquenta-sovaco”, mas tachado imediatamente de brega. E estava numa onda esquisita – pra variar – chamada Nova Era Glacial. Dizia que o mundo, ao contrário do que imaginavam alguns cientistas, estava esfriando. Havia até feito um disco dedicado a essa ideia. Bom, disco é exagero: tinha o nome de “Nova era glacial”, uma música falando do assunto e fim de papo. O resto era o bom e velho Tim, mezza romântico, mezza dançante.

Pouco se sabe sobre a entrevista. Nenhum dos dois lembra direito. Marcio conta que Tim recebeu os repórteres vestido em um agasalho esportivo azul-turquesa. Só. E, embora a fita – que recuperei com árduo esforço – esteja datada de 28 de maio, encontrei uma cópia de “Voltou Clarear”, com autógrafo e dedicatória ao Marcio, escritos no Rio de Janeiro, em 28 de abril. Pelo menos é o que diz o manuscrito espalhafatoso de Tim. Marcio jura de pé junto que não esteve no Rio em abril de 1995, muito menos com Tim Maia. De repente, o síndico esqueceu que estava num apart hotel de São Paulo, um mês adiante. Ou senão foram seres intraterrenos, extraterrenos ou mesmo lunares que misturaram essa entrevista no tempo. Talvez seja efeito do esfriamento global ou culpa de algum ETA (Explorador de Talento Alheio em Tim Maiês) safado…

Mas chega de lero-lero. Curta o áudio da entrevista na íntegra abaixo. Para ouvir os trechos, basta clicar no ícone “play” dos tocadores, depois que a barrinha de tempo ficar cinza. Para ler a conversa na íntegra, corra às bancas e compre a Revista Brasileiros – sim, o Afroências entrou na era das parcerias. Aperte os cintos e boa viagem; você está entrando no mundo de Tim Maia.

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Galo velho empoleira cedo

Embora gostasse de dizer o contrário – neste trecho, por exemplo – Tim Maia não era muito de acordar cedo. Ou não dormia, ou acordava a qualquer hora. E quando aparecia cedo, era problema, como conta o empresário André Midani em seu livro “Música, ídolos e poder – do vinil ao download”. As duas vezes em que aparecem os hábitos matinais do síndico são catastróficas: numa, uma ameaça de morte, reação ao disco do Casseta & Planeta “Preto com um buraco no meio” (“se você não retirar essa merda do mercado, vai ter um francês com um buraco no meio da testa”); na outra, uma ligação de Nova York, cancelando um contrato de gravação com ninguém menos que os lendários J.B.s, banda de James Brown. Depois de gravadas bases do mais fino funk, Tim resolveu que não gravaria voz nenhuma se não recebesse um “levado” extra (“Se não me der esse dinheiro, você pode fazer o que quiser com essas bases. Inclusive…”). Mesmo assim, Tim Maia gostava de dizer que acordava cedo. Mais do que isso, se definia como um cara que acordava cedo. Em uma entrevista clássica à revista Playboy, em julho de 1991, disse que Tim Maia “é um sujeito que, em vez de estar dormindo com uma Miss Brasil maravilhosa até as 9 da manhã, acorda às 6h43 com uma prostituta que sai correndo e ainda leva quinzinho”

Os reis do grilo

Tim Maia, Cassiano e Hyldon foram o “segundo time”, como diz o próprio Tim nesta entrevista. Isso porque o primeiro foi aquele que surgiu na Haddock Lobo esquina com Matoso – esquina que aliás, virou música no disco “Nuvens” -, quando Tim Maia (na época, só Tião), Roberto e Erasmo Carlos brincavam de tocar bossas e rocks em pseudo-inglês. Mas o primeiro tinha pouco de time. Tim vivia dizendo que os outros o sacanearam sempre que puderam. Mais pra frente nessa entrevista, diz inclusive que Roberto lhe deu botas dois números menores que seu pé naquelas primeiras apresentações de TV da Jovem Guarda. Com Hyldon e Cassiano foi bem diferente: até onde se sabe, Tim não teve nenhuma rusga com eles, embora tenha detestado a capa de “Tim Maia, Cassiano e Hyldon – Velhos camaradas”, reproduzida aí ao lado.

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Persona non grata

Nem é preciso dizer que Tim Maia era um cara inconstante. Reza a lenda que foi banido da TV Globo depois de marcar uma participação no Domingão do Faustão e sumir sem dar satisfação – perdoem a rima pobre. Mas os problemas vinham desde os tempos da Cultura Racional, quando ele se apresentava todo de branco, cercado de gente também de branco, propagandeando uma seita preparatória para a chegada dos ETs. Um pouco demais para a Globo. Marcio Gaspar, um dos autores dessa entrevista, foi encarregado pela Warner Music de tentar uma reaproximação entre Tim Maia e a Globo. Marcou uma visita de Tim ao Projac. Viajou para o Rio de Janeiro. Chegou ao aeroporto Santos Dummont, ligou pro síndico: “Tim, tô aí em 20 minutos”. “Pode vir”, ecoou o trovão do outro lado. Em 20 minutos, caminhava pela lendária rua Vitória Régia. Tocou a campainha, atendeu um carinha qualquer. “Tim Maia não está”. “Como não está? Falei com ele agora há pouco”. Marcio deu uma espiadela pra dentro e viu Tim sentado numa varanda. “Pô, tô vendo ele ali. Ô Tim!”. Tim nem levantou os olhos. Disse só: “Não vou fazer porra nenhuma. Solta os cachorros atrás desse filho da puta”. Dito e feito – Marcio saiu correndo, pulou um muro e quase matou do coração uma pobre senhora ao entrar desarvorado pela cozinha.

Jabaculê é que nem chifre…

…todo mundo tem, mas ninguém quer dizer. Pois é, só que o Tim Maia falava e eu, pra falar a verdade, também vou falar. Quando trabalhava com assessoria de imprensa de artistas, pude ver de perto como a prática dos subornos a DJs e programadores de rádio molda o mercado. A começar pelos divulgadores específicos. Enquanto basicamente qualquer pessoa pode divulgar um artista para imprensa ou televisão – com mais ou menos sucesso, dependendo do poder de barganha e da lábia -, é preciso ser um certo tipo de negociador astuto para fazer divulgação em rádio. Um tipo de negociador que carrega uma mala. O jabá não só existe, como é a moeda do mercado. Tem emissora que emite até nota fiscal da tal “taxa de divulgação”. Tem bandinha da moda aí que desembolsou R$ 7 mil por uma semana de execução numa grande rádio de São Paulo.

Caçulinha

João Gilberto, extremamente bem-humorado, tocou o mais fino de seu repertório. Tocou “Rosinha”, “Isaura”, “Palpite infeliz”, “Corcovado”, tudo; chegou até a convidar o público a pedir músicas. E, pasmem: acatou as sugestões. Um show lindíssimo. Mas quem aguçou os ouvidos ficou com a pulga atrás da orelha. Era viagem ou havia um tênue som de piano acompanhando os acordes do violão de João? Parecia que um pianinho baixinho, um playback inspirado acompanhava o show todo. Mas não era possível que o playback pudesse acompanhar – e muito bem, diga-se de passagem – até os ensejos da plateia. Ao finalzinho de “Aquarela do Brasil”, já no segundo bis, uma cortina à direita do palco se abriu e revelou o genial Caçulinha, talentoso a ponto de acompanhar João Gilberto numa noite inspirada. Não era a toa que Tim Maia andava tão injuriado com Fausto Silva.

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Mais grave, mais retorno, mais tudo

Quisesse ver um técnico de som tremer igual vara verde, bastava dizer que Tim Maia tocaria na casa. Dono do tal ouvido absoluto, Tim fazia questão de que o som entrasse no eixo. E não bastava que soasse bem – tinha que soar como as big bands americanas de soul. Os metais deveriam ficar claros e bem-definidos, sem entretanto atrapalhar os backing vocals, cuja timbragem era semelhante. O baixo deveria soar grave, no exato tom do bumbo da bateria, enquanto as guitarras e teclados dividiam o campo dos agudos sem nunca se sobrepor uns aos outros. Instrumentos percussivos deveriam ter tonalidades específicas que servissem não apenas para enfeitar o som, mas para marcar a cozinha rítmica. Por fim, a voz do próprio Tim deveria soar clara e nítida, sobressalente no campo sonoro, mas sem ofuscar nenhum instrumento. E ele só queria era que tudo isso aparecesse no retorno. Pô, é pedir demais?

Músico, advogado e pedreiro é foda

Nesta entrevista, Tim acabou absolvendo o pedreiro. Talvez porque seu contato com músico e advogado fosse mais constante. Um levava ao outro, já que era praxe entre os músicos que saíam da Vitória Régia processar Tim Maia. Embora ele próprio se dissesse vítima de conspirações absurdas de gente inescrupulosa, não dá pra tirar dessa gente todos os motivos. Por exemplo, na biografia “Vale Tudo”, o jornalista, produtor e compositor Nelson Motta conta que Tim pagava quem queria, quando queria e até como queria. Ele adorava o slogan “Vitória Régia – a única que paga aos domingos após as 21 horas”. Mas era só um slogan. Teve um certo músico que foi buscar seu levadinho e saiu com duzentos gramas de fumo. “Pô, esse é do bom, mermão!”, argumentou o síndico. “Mas eu não fumo, Tim…”; “Quem falou que é pra fumar? Isso aí é dinheiro. Tu vende e fica com a grana!”

50 mescalinas e uma religião

Gilberto Gil partiu para a macrobiótica, Caetano Veloso, paz, amor e liberdade, Roberto Carlos virou beato, os Mutantes pegaram seu cometa e partiram para país dos baurets. Tim Maia cortou barba e bigode, largou misto quente (skank com haxixe), goró (bebida) e brizola (cocaína), jogou todos os brinquedos dos filhos no lixo, doou os móveis da casa, se vestiu de branco e foi esperar pela chegada dos seres extraterrenos. Era a tal da Cultura Racional, uma seita mística encabeçada por Manoel Jacintho Coelho, que prometia – em livros herméticos de tão mal escritos – preparar os homens para o encontro com o Racional Superior, uma espécie de força criadora independente e antagônica à matéria. Pela primeira vez, Tim Maia revela que entrou na “fase mística” depois de tomar 50 mescalinas.

Pararraio de pilantra

Empresários musicais, donos de gravadoras, programadores de rádio, músicos, prostitutas, traficantes. Tinha toda espécie de gente querendo tirar uma casquinha do Tim Maia. Em entrevista à Playboy, Tim conta que certa vez recebeu um telefonema de uma moça, que disse: “Nasceu! Mas ela está fraquinha a nenenzinha, coitada”. Tomou um susto: “Nasceu o que, se a gente nunca transou?”. E ouviu a história insólita: “Sabe aquele carinho que eu te fiz com a mão? Então, peguei ‘o negócio’ e botei ‘lá'”. Outro susto: “Que negócio, minha filha?”; “O esperma”.

Os ETs e o esfriamento global

Enquanto o mundo começava a se preocupar com o efeito estufa e o aumento geral da temperatura da Terra, o visionário Tim Maia preparava os casacos para uma nova era glacial. Se os cientistas acreditavam que a humanidade já havia encarado um congelamento, Tim Maia garantia que já passavam de quatro. Ou mais. Ele também alertava para a existência de seres extra e intraterrenos – os lunares, brancos porque nunca viam o sol -, gente do futuro vivendo entre nós e até mesmo um motel para ETs, que ficava numa imensa propriedade rural em Nova Iguaçu. Isso porque seu interesse era apenas na ufologia, “o estudo de uma coisa que ninguém sabe o que é”. Talvez venha daí o lema filosófico que Tim propagou até o fim da vida: “Tudo é tudo e nada é nada”.

Sai “I love you”, entra “Leia o livro”

Boa parte das músicas que entraram nos dois volumes de Tim Maia Racional já havia sido composta previamente. Mas, para entrar no disco, por ordem de Manoel Jacintho Coelho, as letras tiveram de ser reescritas, sob a ótica absurda do Racional Superior. Os temas de festa “We’re gonna rule the world” e “Que beleza” ganharam estrofes messiânicas como “Read the book Universe in Desenchantment” e “Leia o livro e você saberá a verdade”. Até a história do bêbado regenerado de “Bom senso” (“Já fiz muita coisa errada/Já pedi ajuda/Já dormi na rua”) se “racionalizou”. Até a hora em que Tim Maia caiu na real e largou o Racional do mesmo jeito que aderiu a ele: da noite pro dia sem explicar nada para ninguém.

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These are the songs

Com 19 anos, morando nos Estados Unidos, Tim Maia tinha um inglês impecável, sem qualquer sotaque que denunciasse a origem tupiniquim. No máximo, achariam um resquiciozinho de Bronx, Brooklin ou outra periferia negra de Nova York. Tanto que, frequentemente, conseguia acertar aluguéis de quartos por telefone – tarefa inglória para latinos. O problema era que não importava quão bom fosse o inglês; quando chegava aquele preto gordinho de cabelo alisado, a coisa ficava esquisita. E ele ouvia todo tipo de bizarrice: “O quarto acabou de ser alugado”, “há uma goteira sobre a cama”, “alguém acabou de ser assassinado lá”. Mas, na volta ao Brasil, o inglês virou um trunfo do qual Tim Maia se orgulhou até o fim da vida. O pessoalzinho da Jovem Guarda era muito bom, obrigado, mas todo mundo cantava rock em português – ninguém arriscava encarar o inglês. Exceto o Tim. Quando ele partiu para a bossa nova, resolveu cantar em inglês. Não que não gostasse das letras em português; gostava até mais do que em inglês – sempre achou esnobe esse negócio de “Quiet nights of quiet stars”. Mas queria porque queria sacanear João Gilberto. Para ele, “um ótimo cantor que não canta porra nenhuma”.

Tombo na chola

Final dos anos 60, comecinho dos 70. André Midani estava atrás de um artista à espera de ser descoberto, um gênio escondido por aí, com um som ao mesmo tempo original e vendável. Queria um diamante bruto. Foi atrás dos Mutantes: “Tem um tal de Tim Maia, muito louco, mas genial”. Perguntou pro Erasmo: “Tem que conhecer o Tim Maia, muito louco, mas genial”. Caçou o tal do Tim Maia e encontrou a figura – gordinho invocado, antes conhecido como Tião Marmiteiro, porque carregava as marmitas que seu pai preparava e dava conta de devorá-las antes da entrega. Assinou um contrato de gravação com o cara, ele entrou no estúdio e saiu com “Primavera”, sucesso absoluto. E abandonou o alisamento a base de queimadura, que ele mesmo chamava de “tombo na chola”.

Elis, Marisa e regravações

Reza a lenda que a música “Chocolate” é uma declaração de amor à maconha. Tim Maia nunca confirmou o boato. Afinal, ele não bebia, não fumava, não cheirava. Só mentia um pouquinho. Mas ele ficou pê da vida quando viu Marisa Monte escancarar a apologia em sua versão. Para ele, quando ela cantou “Não quero cocaína, me liguei no chocolate”, feriu o espírito da música. Coisa que Elis Regina jamais faria. Elis era perfeita, não exagerava, não errava, não era fraca, tinha emoção forte, sabia se expressar, tinha cabeça boa. E mesmo quando entrava em disputas musicais – como nos casos do dueto com Hermeto Pascoal, no Festival de Montreux; e na clássica parceria com o próprio Tim, em “These are the songs” -, era elegante e precisa. Ah, como Tim Maia queria ter cantado mais com ela…

Vende mais porque é fresquinho ou…

Erasmo disse ter comido mais de mil mulheres. Roberto deve estar por aí. Erasmo ganhou milhões – torrou vários outros milhões. Roberto ganhou milhões e transformou em bilhões. Tim Maia não comeu tanto, não ganhou tanto. Mas ainda ficou melhor do que os grilos Cassiano e Hyldon. Por que uma turma se deu bem e a outra nem tanto? Tim Maia não sabe, mas repara em algumas “curiosidades” acerca dos velhos companheiros.

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Vovôs na pista

Em 1995, Jorge Ben Jor embarcou para Nova York e trouxe na bagagem o disco “Ben Jor World Dance”, além de um novo bonezinho virado para trás. Embaixo de cada música, havia legendas como “club dance version” e “radio version”, mas as músicas eram as de sempre: “Fio Maravilha”, “País tropical”, “Taj Mahal” etc. A diferença eram as batidonas eletrônicas. Lulu Santos também entrou numas de fazer dance e trocou a guitarra pelo batidão. Tim Maia continuou Tim Maia, alternando mela-cueca com esquenta-sovaco, mas ganhou a pecha de brega. Pelo menos pode se orgulhar de não ter virado um velho tentando passar por menino. Teve gente que até mentiu a idade!

Rap calango

Na Jamaica dos anos 60, nenhuma gravadora se atrevia a lançar artistas de reggae, muito menos rastafáris. Por isso, todo mundo saía em compacto simples – desde gente muito grande como Bob Marley e Jimmy Cliff até artistas menos famosos como Lloyd Parks e Jackie Opel. Enquanto um lado do disco tocava a música completa, com harmonia e vocais, no B, os produtores colocavam instrumentais viajandões para o povo curtir enfumaçado de ganja. Era assim, até que um ou outro DJ teve a ideia de animar a festa improvisando rimas sobre as bases de dub. Surgiu o ritmo e poesia, surgiram os MCs e o povo começou a acelerar as rimas. Os primeiros passos do rap nacional seguiram as pegadas da rima americana e não das raizes jamaicanas. Por isso, Tim Maia desce o pau no rap e no funk. Para ele, um calanguinho vagabundo.

Triatlo

Tim Maia não sabia nada de droga. Afinal, como a gente já disse lá em cima, ele não fumava, não bebia e não cheirava. Só mentia um pouquinho. E, quando não mentia, parecia mentira. Era triatleta profissional. Não, natação, ciclismo e corrida não passavam nem perto do cantor de 160 quilos. O triatlo dele consistia em uísque, maconha e cocaína em quantidades exorbitantes. Mas nada descontrolado: a brizola era de primeira linha; a maconha, apelidada de misto quente, era uma mistura insólita de skank e haxixe; e o uísque, só de 12 anos para cima. E houve fases em que iam cinco garrafas em três dias. Pelo menos, o Tim Maia só bebia quando fazia shows ou andava de avião.

Roberto, Erasmo e Ed Motta? Não conheço.

Sempre que perguntavam a Tim Maia se ele gostava do Roberto Carlos, ele lançava um claro e retumbante “não”. A mágoa vem desde os tempos de Jovem Guarda, quando o Tião Maconheiro – que largou a marmita tão logo se apaixonou pela cannabis – voltou deportado dos Estados Unidos, depois de “uma etapa” de oito meses em cana gringa. Tim precisava de um apoio dos velhos colegas, de uma forcinha para se levantar. Ela não veio. Tim não conseguiu se juntar a turma que, de acordo com ele, “tinha medo da revolução do soul”, e, quando conseguiu, entrou no palco com botinhas dois números menor que seu pé, que o deixava ainda mais desengonçado, mais desajeitado e mais inseguro. Erasmo, o Tremendão, era boa gente, mas sempre manteve uma certa distância – “Nem conheço os filhos dele”. E por falar em não conhecer, Tim teve um herdeiro “meio quatro-quatro-meia”: Ed Motta, cantor jovem e talentoso de 150 quilos, mas que curtia falar mal do tio. Talvez não tanto quanto o tio curtia falar mal dele. Mas Tim Maia é Tim Maia, né?

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