O inglês Ken Robinson é o responsável pela palestra mais assistida da história do TED (sobre como as escolas matam a criatividade). Seu discurso já atingiu mais de 44 milhões de visualizações mundiais desde junho de 2006, quando ocorreu o evento. 

Robinson pode ser considerado uma lenda em termos de reforma educacional. Em 1998, ele recebeu uma condecoração especial do governo britânico por seus aconselhamentos valiosos na área de Educação. 

Ele defende que, em meio a uma era de enormes desafios e constantes transformações, há uma necessidade latente de reconstruir os modelos originais de educação, em que a criatividade seja o principal foco.

“A criatividade é agora tão importante na educação como é a alfabetização, e deveria ser tratada com o mesmo status.”

Segundo ele, todas as crianças têm seu talento e potencial criativo, mas criatividade e educação não coexistem, principalmente nas escolas.

Embora Robinson acredite que criatividade não é o mesmo que estar errado, ele sugere que as crianças são menos criativas por serem inibidas à tentativa e erro.

“Não aumentamos a criatividade, nós a diminuímos. Ou melhor, somos incentivados a abandoná-la.”

De fato, as escolas em geral induzem à lógica de que errar é a pior coisa que pode acontecer. E, se as crianças não têm liberdade para o erro, elas acabam sentindo pavor em estarem erradas. Sendo assim, elas são fatalmente desencorajadas ao perceberem que fazer algo diferente pode significar um motivo a mais para serem punidas ou advertidas.

Robinson questiona:

“Se as crianças não forem preparadas para errar, como elas poderão ter ideias originais?”

O processo de escolarização instiga as crianças a serem menos criativas e mais condescendentes. Elas são levadas a pensar menos, então também criarão menos, e provavelmente serão adultos mais passivos, conformados, submissos, com menor capacidade de inovação e adaptação ao futuro.

A grande maioria dos professores também não colabora. Eles são mandatários do sistema, ou seja, valorizam o aprendizado à imaginação. Mas do que adianta conhecimento, se não houver criatividade o bastante para usá-lo em diferentes contextos?

A aprendizagem é o processo de aquisição de novos conhecimentos e habilidades. As crianças, por sua vez, costumam ser curiosas, aventureiras, desbravadoras; elas têm apetite voraz por aprender coisas novas. Segundo Robinson, manter esse apetite é a chave para transformar a educação.

Infelizmente, as crianças não têm o espaço necessário para demonstrar suas reais aptidões. Na escola, elas são forçadas a seguir um planejamento didático rigoroso em que as tarefas são rotineiras, simplórias e pouco desafiadoras, praticadas em horários específicos e regrados. Isso só torna as crianças mais chateadas, irritadas e entediadas.

As escolas formam alunos obedientes, não competentes. Escolas preferem alunos estáticos, comportados, que respeitam normas, seguem regras e não causam problema. Escolas não são instituições prontas para aceitar inovação e imprevisibilidade. É a uniformidade ao invés da diversidade, a conformidade em vantagem ao questionamento, o desempenho em detrimento a talento e esforço.

De acordo com Robinson, o atual sistema educacional é uma máquina programada para destruir a criatividade. E poucos discordam dele.

A destruição da criatividade infantil

Robinson tem a real convicção de que a estrutura do sistema educacional é deficitária, provocadora de alienação nos alunos, de modo que muitos abandonam os estudos antes de se formarem.

De acordo com ele:

“Se você tem um sistema como nos Estados Unidos, por exemplo, onde há uma taxa geral de abandono escolar de 30%, em comunidades afro-americanas de 50%, e em comunidades nativo-americanas de 80%, você não pode culpar as crianças por isso.”

Essas taxas de abandono (verificadas no mundo inteiro) refletem uma grave desconexão entre o que as escolas ensinam e o tipo de educação que os alunos têm.

Então, como as escolas, em especial, assassinam a criatividade? De acordo com Robinson:

1. Sendo fábricas

O inglês afirma que os sistemas educacionais cresceram em resposta à industrialização. Por isso, escolas são como fábricas.

“Os sistemas de educação, em geral, são processos de fabricação. Os testes padronizados são os melhores exemplos desse método industrial. As escolas não estão lá para identificar o que indivíduos podem fazer de melhor, estão lá para checar se as coisas são obedecidas da forma como são. Isso é tóxico para os alunos.”

Segundo ele, o que as escolas podem fazer é organizar os alunos em grupos heterogêneos para que possam encontrar as disciplinas pelas quais se interessam e se motivam, e isso requer uma mudança radical: da padronização para a personalização.

2. Estabelecendo uma hierarquia de disciplinas

Robinson faz sérias críticas a uma característica em comum aos sistemas educacionais do mundo: a hierarquia de disciplinas. Ele diz que isso ocorre nas escolas e também em universidades:

“No topo estão a matemática e as línguas, depois as humanas, e por último as artes. E também há uma hierarquia entre as artes. Arte e música normalmente têm uma importância maior nas escolas do que drama e dança. Não se ensina dança diariamente às crianças da mesma forma que se ensina matemática. De forma geral, as crianças são educadas progressivamente da cintura para cima, até chegar à cabeça.”

Para ele, a grave conseqüência disso é que pessoas altamente talentosas, brilhantes e criativas pensam que não são, porque aquilo que elas eram boas na escola não era valorizado, e sim estigmatizado.

3. Priorizando a aptidão profissional

As escolas em geral ensinam apenas as disciplinas que são mais úteis e convencionais para o trabalho. Ou seja, os alunos são condicionados a aprender um determinado conteúdo e, se não aprenderem, não passarão de ano, e nunca serão alguém na vida. Ameaça pueril.

“O sistema educacional explora mentes como exploramos a terra: em busca de recursos específicos. Para o futuro, isso não serve.”

Muitos estudantes se sentem desamparados por sua própria educação, uma vez que suas potencialidades não são levadas em consideração. É cada vez mais urgente a necessidade de se cultivar as capacidades individuais por razões pessoais, sociais e econômicas. Do contrário, continuará havendo desperdício de talento de forma sistemática e negligente.

“Todos nós nascemos com capacidades naturais para a criatividade, e sistemas de educação em massa tendem a suprimi-las.”

4. Estreitando a visão de inteligência

Robinson diz que escolas são meras extensões do processo de ingresso à universidade. Elas desconsideram competências e habilidades peculiares, o que restringe a visão de inteligência dos alunos.

“Os sistemas educacionais promovem a normatização e uma visão estreita de inteligência, quando os talentos humanos são pessoais e diversos. Promovem o cumprimento de deveres quando o progresso cultural depende do cultivo de imaginação e criatividade. São sistemas lineares e rígidos, quando o curso de cada vida humana é orgânico e em grande parte imprevisível. A construção de novas formas de educação sobre estes princípios alternativos não é um capricho romântico: é essencial para a realização pessoal e para a sustentabilidade que estamos tentando criar.”

A decadência intelectual das crianças

De acordo com Todd Kashdan, professor de Psicologia na Universidade George Mason, os atuais planos de educação não têm as expectativas alinhadas com os objetivos:

“Se queremos que as crianças experimentem um sentimento de admiração e descobrimento sobre informações de seu meio (sejam curiosas), se queremos que elas promovam ideias originais e adaptativas (tenham criatividade), e se queremos que elas derivem suas próprias perspectivas e conclusões após discussões (adotem o pensamento crítico), então o sistema educacional é falho.”

Uma pesquisa recente feita por Kyung Kim (professora de Educação na Universidade William and Mary) revela que as crianças de hoje vêm passando por uma fase crítica de decadência intelectual.

Baseando-se no método Torrance Tests of Creative Thinking, Kim mediu e avaliou 12 indicadores de performance criativa em crianças, e os resultados foram deprimentes:

“As crianças têm se tornado menos expressivas emocionalmente, menos enérgicas, falantes e verbalmente expressivas, menos bem-humoradas, menos imaginativas, menos inconvencionais, menos animadas e apaixonadas, menos perceptivas, menos sintéticas, menos aptas para fazer conexões de coisas aparentemente irrelevantes, e menos propensas a ver as coisas de forma diferente.”

Como contornar essa situação, e fazer com que as crianças aflorem sua imaginação e criatividade? Uma boa forma seria por meio de histórias.

As crianças adoram histórias, sejam reais ou não. Talvez, a maneira mais eficiente de gerar nas crianças o tesão e entusiasmo para aprender seja através de narrativas instrutivas e cativantes.

A transmissão de mensagens e ensinamentos por meio de personagens e acontecimentos marcantes acaba estimulando a imaginação e o ânimo das crianças. Assim, elas poderão voltar da escola não só com lições de casa para fazer, mas também com boas histórias para contar sobre aquilo que aprenderam. Com certeza elas se tornarão mais felizes e motivadas sabendo que nem todas as tarefas se baseiam em certo ou errado. As crianças vão querer colocar sua imaginação para trabalhar, sendo criativas.

Transformar a educação é vital e imprescindível. Isso levará tempo, mas pode ser feito de maneira viável através de programas organizados de aprendizagem, que focam na identificação e aprimoramento de habilidades individuais, que fomentam o raciocínio crítico, estimulam o interesse e a curiosidade e, enfim, formem alunos capazes de fazer e criar coisas que não fariam se fossem deixados à própria sorte.


*Com informações da CNN, Forbes e Huffington Post

Eduardo Ruano

Eduardo Ruano

Escritor e redator freelancer. Gosto de informação, conhecimento, cultura, arte, música, insights e boas histórias. Odeio cerimônias, falsidades e ostentação. Acredito no valor da humildade e me sinto bem vivendo com simplicidade. Observador ativo do comportamento humano e um apaixonado por ficção. Referências de conteúdo são sempre inspirações. Quando a mente viaja, eu escrevo.
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