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Meu primeiro contato profundo com Tom Zé aconteceu em 2009, segundo ano da faculdade. Eu era uma completa ignorante, não que hoje eu não seja, mas naquela época tudo era diferente no meu mundo.

Inconscientemente eu sabia que ali estava alguém a se respeitar. Eu só não sabia exatamente por quê. Tom Zé para mim era uma imensa interrogação.

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Estava para acontecer a Jornada de Literatura em Passo Fundo. A disciplina era… eu não lembro o nome, mas era algo livre, relacionado à criação, produção de um jornal experimental, acho até que era esse nome. Enfim, primeira aula foi uma reunião de pauta do jornal focado na Jornada, então “Jornalda”. Tipo “Mafalda”, saca? Até hoje não sei se isso foi criativo ou não. A reunião foi sobre a programação do evento, mas Tom Zé só foi citado no fim, por mim, que fiquei o tempo todo pensando como ninguém tá falando do Tom Zé? Bem, eu acho que foi uma clara demonstração de covardia da turma, porque quem citava a pauta, automaticamente a assumia. Todos ali sabiam que ele era importante, o mais importante, mas ninguém realmente sabia por quê.

Acabou que eu, que nunca tinha entrevistado ninguém, agora tinha a missão de falar com o tal de Tom Zé. Eu estudei, mas como já disse eu era uma ignorante, então foi o mesmo que estudar engenharia, você pode ler, ouvir, assistir, mas você continua não entendendo nada. Então eu li uma entrevista dele para a Le Monde Diplomatique Brasil, que se chamava “É impossível entrevistar Tom Zé”, eu sempre fui otimista e não levei essa afirmação tão a sério, por fim eu formulei uma entrevista cruamente ignorante, que graças a Deus nunca aconteceu.

Naquele tempo eu nunca tinha entrevistado ninguém, mas eu já tinha minhas fontes, que me informaram em qual hotel ele estava. Naquele momento ele participava de uma roda de debates com um tanto de gente intelectual. A única coisa que eu lembro disso é que ele interrompeu o papo pra mover as cadeiras mais próximas ao público, até desceu e sentou-se na plateia. Até então eu não sabia muito sobre ele, e nem por que respeitá-lo, o que imediatamente começou a mudar.

Peguei um ônibus e fui esperar ele no hotel, antes que acabasse a dança das cadeiras no palco de debates. Passou um tempo e lá estava ele, com sua esposa Neusa, que me impediu de falar com ele (hoje eu entendo que aquilo foi um ato de amor e proteção), mas mesmo assim ele falou com a gente (ah sim, eu estava com uma colega da turma e outro jornalista de um site de contra cultura Os Armênios). No final das contas a entrevista foi parar nesse site, feita por telefone. No hotel ele foi muito simpático e a Neusa acabou cedendo, rolou até foto, então o guia, funcionário do evento falou sobre a possibilidade da entrevista acontecer após o show, no backstage. Na última música corri para trás do palco enquanto todos olhavam para ele, não tinha ninguém lá trás e então ele apareceu, todo suado, veio na minha direção e me abraçou, “vou ligar para você! Fazemos isso por telefone, ok?”. Já não me importava mais, ele estava me abraçando. Mas Tom Zé ligou, não para o meu número, nem tive nada a ver com a entrevista. Os anos passaram e eu passei de ignorante a alguém que sabe por que ele merece todo o respeito. Eu lembro que escrevi um texto com o título “Diário de bordo de um Astronauta”, não o tenho mais, tampouco foi publicado, aliás, o Jornalda nunca chegou a existir, por incompetência da turma, nada mais.

Agora o astronauta libertado é uma interrogação muito maior !

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E entrevistá-lo não é impossível, porém é de um nível intelectual alienígena e universal muito sofisticado para nós, humanos ignorantes, não que Tom Zé não seja humano, talvez sim, talvez não, mas a explicação, confusão e esclarecimento dele o coloca lá num universo distante, onde habitam outros tantos humanos que conhecemos, e que costumamos chamar de Lóki, ET, maluco beleza…

Tom Zé deu um peitaço no engenheiro de som em uma passagem de som na Suíça, pela arrogância diante de uma banda formada por um velho descabelado, pretos, pobres, brasileiros, que chegaram lá com uma música sofisticada demais para eles. Tom Zé deu mesmo, tá tudo no documentário Fabricando Tom Zé.

Ele não é Tropicália, porque Tom Zé não é Pop, além de ser muito maior que um termo que o próprio Tom Zé descreve assim:

“…eu acho que diante daquela situação efervescente que estava a cultura brasileira em 1963, 64,65… a redescoberta de Oswald de Andrade, os parangolés (…), toda essa coisa, esse empurra empurra, eu acho que isso serviu de tiro pra vazar o hipotálamo (onde o sujeito guarda as lembranças profundas e valorosas) de Gil e Caetano. Vazou pro córtex e então armados do que eles tinham jogado no hipotálamo, que era da cultura inicial deles, isso vindo pro córtex armou eles de tal capacidade de interpretar o Brasil, que eles foram capazes de fazer uma música e um agrupamento de acontecimentos estéticos na arte da música que ninguém tinha feito, que tiveram que dar um nome, Tropicália e isso e aquilo” (Roda Viva 06/05/2013).

A razão de Tom Zé não se encaixar nessa história toda é a sua incapacidade de ser comercial, mesmo quando faz comercial para a Coca-Cola (que gerou muitas críticas a ele), parece que ninguém lembra da música “…e na hora do breque um belo assopro de Coca-Cola…” de 1970, ele já falava da tal Coca-Cola. E nesse tempo era de graça, no comercial ele ainda tirou uma grana que foi destinada a Escola de Musica de Irará, berço do nosso querido. Que atire a primeira lata quem nunca bebeu Coca-Cola!

A origem da música brasileira segundo Tom Zé:

“A primeira conformação da música brasileira veio do Troubadour e Jongleur, que era da primeira cultura da europa, a cultura celta antes da romanização e que depois recebeu vindo da Pérsia, a música religiosa que passou no Magrebe, ali no norte da África, foi influenciada por alguns ritmos africanos, entrou em Andaluzia no século IX – XI, os cantadores de Moaxá, e essas duas coisas unidas o Jongleur, o Troubadour, mais o Moaxá fizeram a primeira forma da canção brasileira”

Meta refrão micro tonal pluri semiótico:

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Juliana Acco

Jornalista, gaúcha, alérgica a corante vermelho e consumidora frenética de informação. Gosto do simples, minha casa é minha mochila e minhas raízes estão nas nuvens. Moro em qualquer lugar, desde que tenha sombra, água fresca e Wi-Fi.
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