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Na Holanda existe e passa na TV

Dia desses, eu acordei e fiz algo inusitado: liguei a TV enquanto tomava o café da manhã. Inusitado porque não sou um grande entusiasta de televisão e também porque, morando na Holanda e não falando holandês, minhas possibilidades na telinha ficam limitadas a BBCs e CNNs da vida — ou seja, nada muito empolgante para um café da manhã (eu acho, pelo menos). Havia assistido parte de um jogo (ruim) do Ajax contra o Barcelona na noite anterior e a TV havia ficado sintonizada num canal local. Ainda bem. Naquela manhã pude me surpreender ao ver Alexander Klöpping e seu sócio Marten Blankesteijn numa entrevista que durou cerca de uma hora num programa matinal tipo o da Ana Maria Braga ou o da Fátima Bernardes.

Não entendi nada do que falavam, mas fiquei surpreso. Não sabe ou não lembra quem são Klöpping e Blankesteijn? Não tem obrigação mesmo. Explico. Os dois são os fundadores do Blendle, uma plataforma que foi apelidada de “iTunes do jornalismo”. Nela, o usuário pode basicamente comprar artigos e reportagens de todos os jornais e revistas holandeses individualmente, conforme sua vontade de ler, por cifras entre 0,20 e 0,40 euros. A plataforma já tem mais de 140 mil usuários e, na semana passada, recebeu investimento de 3 milhões de euros do New York Times e do empresário de mídia alemão Axel Springer. Vai rolar uma expansão para outros países em breve, possivelmente Alemanha e França. Entre céticos e esperançosos, a coisa avança.

Na hora, pensei: “Quando um empreendedor no jornalismo brasileiro teria um espaço desses na televisão?”

A resposta você pode imaginar. Logo terminei meu suco de laranja e escrevi uma mensagem para o Moreno Osório, do Farol Jornalismo, e conversamos como no Brasil a competição é desigual. Empresas jornalísticas grandes só mencionam o nome de outras empresas jornalísticas grandes (não as concorrentes diretas, Veja bem) quando morre um padre. Iniciativas independentes? Jamais serão.

Está certo que ainda não temos assim muitas iniciativas de empreendedorismo jornalístico no Brasil, mas vá lá (consigo pensar em uma ONG tipo o Repórter Brasil, uma Agência Pública financiada por fundações internacionais, o recém fundado mas não lançado Brio, os arrecadadores de crowdfunding Catarse e O Sujeito, o finado Impedimento, agências de conteúdo tipo Fronteira, Cartola, Padrinho, algo mais?). Você imagina que alguém teria um espaço desses no programa da Ana Maria Braga ou da Fatima Bernardes, por exemplo, antes de fazer um estrondoso sucesso? Eu não. Acho que daqueles, só vi o Douglas Ceconello do Impedimento no Redação SporTV um dia. E foi só.

Pode ser que na Holanda isso só exista porque o país é pequeno (coisa de 17 milhões de pessoas) e faltam notícias, mas o fato é que, além do Blendle, já foi lançado por aqui o De Correspondent, simplesmente o campeão mundial de crowdfunding — levantou mais de 1 milhão de euros em duas semanas depois que seus fundadores explicaram a ideia nos canais de televisão locais.

Em termos de empreendedorismo no jornalismo, a pequenina Holanda dá de 7 a 1 no Brasil

Não é viralatismo. Talvez hoje só fique atrás de uma potência empreendedora como os Estados Unidos, de onde vêm 80% ou mais das novidades que vemos surgindo por aí. Não é fantástico?

Por todo lugar os negócios do jornalismo vão de mal a pior, mas em terras tupiniquins isso atinge patamares preocupantes (as recentes demissões na Folha de S. Paulo e os outros passaralhos recentes não me deixam mentir). Uma empresa no Brasil demora em média 119 dias para ser aberta e a papelada não custa menos de uns R$ 2 mil, enquanto em países vizinhos como o Chile tudo pode ser resolvido num único dia. Muita gente gabaritada acredita que ninguém mais quer pagar para ler notícias. Os paywalls de Folha e Estadão estão aí para dar uma noção disso (não sei se já temos respostas). Uma grande reportagem que sai numa iniciativa independente como a Pública, por exemplo, paga pouco ao repórter pelo tanto de trabalho e tem uma repercussão ínfima em comparação às mulheres peladas que saem na rua em Porto Alegre (olha a dor de cotovelo). Para completar, empreendedorismo em geral quase não é assunto para a mídia tradicional num país onde a gente é educado para tentar ser funcionário público. Com todos esses obstáculos, ainda tem louco que pensa em empreender na área.

Eu, por exemplo. Atualmente curso um mestrado em Mídia e Negócios na Universidade Erasmus de Roterdã. Foco em negócios e novas mídias, empreendedorismo. Estou pertinho de iniciativas como o Blendle e o De Correspondent (oxalá possa abordar algum deles na minha dissertação). Ideias surgem a toda hora. Esta é minha primeira publicação no Medium e a ideia do momento é tornar isso aqui um espaço de discussão de tendências do negócio do jornalismo. O título deste post já é uma provocação (barata, eu sei). Vamos ver no que vai dar. Toda sugestão é bem-vinda.

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Giuliander Carpes

Jornalista, mas não tenha pena. Gaúcho não praticante. Tenista amador.

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