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Buscamos no cinema sentimentos que já conhecemos, que já visitamos. Assumimos outras personalidades temporariamente, e nos tornamos o que gostaríamos de ser. Heróis, bandidos, amantes, pensadores. Personagens que fujam da desinteressante vida real, e não sofram com a banalidade da falta de sentindo.

Assistimos novamente Casablanca, esperando que o amor entre Bogart e Ingrid Bergman finalmente dê certo. Esperamos encontrar sentido na dor da separação que um dia sofremos na vida real, torcemos para o final feliz, porque este nos é negado. Procuramos um sentido dentro das telas, uma esperança futura, mas no fundo sabendo que o máximo que teremos é a lembrança de Paris.

O cinema cria um afastamento da realidade onde vivemos, e nos permite por algum tempo, sentir algo inexistente na realidade. Visitamos o mundo de A bela e a Fera, porque gostamos de acreditar que acreditamos na beleza interna, e que não somos seres superficiais mesquinhos. Tememos não o exterior da fera, tememos o julgamento da sociedade, por julgarmos algo que a sociedade considera bestial, lindo. Choramos com esse filme, porque gostaríamos de acreditar que não somos superficiais, que enxergamos além da limitação física dos olhos, e não que estamos incapazes de ver mais do que nossos cérebros pré-programados para não serem utilizados permitem.

Somos Clint Eastwood. Implacáveis, corretos, inatingíveis. Somos o bom, o mau e o feio. Queremos ser bons, corretos, felizes mas a sociedade nos impede. Isso faz com que nos tornemos maus, corruptos, mesquinhos, covardes e egoístas. Temos vergonha disso, nos tornamos feios aos nossos próprios olhos. Somos implacáveis com o belo, corretos com a ignorância e inatingíveis pelos sonhos.

No mundo fantástico do cinema podemos ser os seres humanos que esperamos ser. Fortes, corretos, felizes. Temos uma missão, um sentido, algo pelo que lutar. Condensamos todo o mal do mundo em um anel, e precisamos destruí-lo. O mal já não está no coração dos homens. Somos bons e lutamos contra o mal externo. O olho do mal nos vigia, mas está longe, preso atrás de suas muralhas. Podemos combater o mal em forma de orcs, magos e uruk-hai. Não em forma de desejos, fraquezas e humanidades que cometemos.

Quando a frustração toma conta, buscamos Robert De Niro e Michael Douglas para que de táxi, nos levem a um dia de fúria. Sem arrependimentos, sem remorso, sem pensar duas vezes. A frustração do dia a dia devolvida de forma crua e violenta, como sonhamos fazer várias vezes. A impotência frustrante à que a sociedade nos força, devolvida com um grito de “você tá falando comigo?!” seguida de um balaço redentor.

Sonhamos com a Matrix porque queremos tomar a pílula vermelha e descobrir o que existe por trás da humanidade. Quando a visão se torna desesperadora, imploramos pela pílula azul. Não suportamos a visão do que a humanidade não é. Nos assusta tudo que deveria estar lá e não está. A visão da Matrix é demasiada. Um deus máquina, que comando o ser humano pela mecânica. Mecanicamente viva, estude, trabalhe, procrie, pereça.

Mais do que entretenimento, arte, indústria, o cinema é fuga. É utopia. É sonho. É a fábrica de vidas que não podemos ter, porque somos demasiado humanos. Cometemos humanidades demais contra a humanidade. Sendo a maior delas, a forma de fugir da realidade, e não precisar assumir as consequências da humanidade que cometemos todos os dias.

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Paulo Ludwig

Jornalista, ex-professor, cineasta, apaixonado incondicionalmente por cinema, quadrinhos e artes e cultura em geral. Fãde Kubrick, Alan Moore e Deadpool (nessa ordem).