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Os homens negam, mas as mulheres mudam o cronograma de nossas vidas. Elas nem alteram o nosso horário, muitas da vezes elas jogam o despertador antigo fora e nos adestram a seguir o delas, só que até notarmos já se passaram uns 5 ou 6 meses. As nossas manias são podadas, a tampa do vaso perde um pouco de sua costumeira ousadia e até a louça passa a sofrer sérias consequências. Agora o depósito de pratos que antes era uma clara tentativa de maquete do Empire State Building, começa a conhecer o detergente e, como se não fosse suficiente, ainda é enxaguado, secado e guardado.

Notem como a alegria começa a ficar descolorida. A princípio, isso não é percebido, o bobalhão está ocupado demais admirando as curvas e tonto em excesso por aceitar tudo, só que devo admitir, há males que surgem para o bem, mesmo que sua senhora não venha a permanecer por muito tempo… Porém, certas marcas acabam sendo perpetuadas e por mais que você volte ao padrão antigo, a moça trouxe um tempero novo, você descobriu que as tarefas de casa não são uma imitação da usina de Chernobyl.

Betty Davis (1)

A vida ganha uma nova perspectiva, não é nada simplório como comprar uma TV com mais polegadas, é mais profundo que aumentar o campo visual, o lance pode não durar, mas a troca de influências pode ser fatal por uns tempos e, sim, pode alterar até no groove. Por mais que os músicos apreciem fazer aquele bom e velho rodízio de corpos, vai chegar a hora que eles estarão bêbados o suficiente para apostar em algo mais durável.

O que não falta é exemplo de casamento que não deu certo, aliás creio que para estar envolvido nesse ramo todos precisam possuir pelo menos um divórcio e, por favor, não seja ingênuo a ponto de pensar que essa rotatividade fica restrita ao campo do Rock ‘N’ Roll. E o Miles Davis sustenta essa afirmação, até o mestre do Jazz, um dos maiores nomes da história da música já se amarrou e pasmem os senhores, foi influenciado pelos LP’s de sua patroa.

Betty foi uma das poucas mulheres que um dia puderam ostentar o sobrenome “Davis” no fim de uma assinatura e mesmo que a americana só tenha ficado casada com Miles durante um ano (68-69), ela com certeza tem muita história pra contar. Foi uma das grandes responsáveis (talvez a maior) pelos rumos ácidos que Miles tomou, tanto durante este curto romance, quanto posteriormente. Sendo que chapações sonoras como “On The Corner” e a odisseia do Jazz Fusion “Bitches Brew”, só foram arquitetadas depois que sua sinhá trouxe a nata do Funk e da Psicodelia para a residência Davis. Fazendo com que nomes como Sly Stone e Jimi Hendrix (pífio guitarrista com o qual Miles quase gravou um disco) tocassem a campainha e descabelassem o som caxias-tradicional do Jazz.

miles davis e betty

O trompetista gostava de pavonear suas mansões com grandes sessions entre músicos, reuniões onde a música era fermentada de forma natural. Sua mulher logo percebeu o caráter estimulante que isso poderia ter em inúmeros aspectos, tanta na carreira de seu marido, como em sua vida de modelo e respectiva música, que só começaria a ser gravada após o fim do casamento com a mente brilhante por trás de “Kind Of Blue”.

Betty Mabry foi uma modelo de sucesso, tanto nos Estados Unidos quanto na Inglaterra, só que após seu casamento com Miles ela começou a questionar sua posição, declarando que: “Para ser modelo não era necessário possuir um cérebro”, e com isso em mente, a negrona resolveu aplicar o que aprendera com seu ex, só que misturando com suas influências de clima Motown. O resultado é excelente, aliás deu tanto caldo que virou carreira.

São quatro discos de estúdio, três lançados na década de 70 e “Is It Love Or Desire” (que foi gravado em 76 mas só saiu em 2009). Todos venderam relativamente bem na época de lançamento, mas não foi nada de outro planeta, chegou na Billboard mas acabou ficando no miolo, top 50… faixa dos 40 mais. Só que com o passar dos anos esses discos se tornaram grandes clássicos e o primeiro deles (o auto intitulado lançado em 1973) é o mais celebrado hoje em dia, mas todos são muito bons.

Line Up:
Betty Davis (vocal)
Larry Graham (baixo)
Gregg Errico (bateria)
Doug Rauch (baixo)
Merl Saunders (piano)
Jules Broussard (saxofone)
Sylvester – The Pointer Sisters
Patryce Banks – The Pointer Sisters
Kathi McDonald – The Pointer Sisters
Annie Simpson – The Pointer Sisters
Willy Sparks – The Pointer Sisters
Willie Sparks (bateria)
Neal Schon (guitarra)
Pete Sears (piano)
Doug Rodrigues (guitarra)
Richard Kermode (piano)
Hershall Kennedy (órgão/vocal)
Victor Pantoja (percussão)
Mic Gillett (trombone)
Greg Adams (trompete)
Skip Mesquite (saxofone)

A ideia inicial era sair da Inglaterra e aparecer em Los Angeles para gravar um disco com o Santana, um detalhe que além de mostrar o talento da cantora, mostra como esse som estava fadado a pelo menos ser concretizado. Só que a moça era tinhosa, chegou nos EUA e não deu nem bola para o grande Carlos e se concentrou em criar seu próprio material. Fez conexões com contatos da época que estava com Miles e fortaleceu o laço criativo para fechar o baile com Gregg Errico (Sly & The Family Stone) e requisitar a nata de músicos da Bay Area, fechando a conta com Neal Schon, Doug Rauch e Larry Graham.

O som desses discos agrega o Funk dentro de seu estado mais bruto, onde além de linhas muito bem traçadas e entrelaçadas entre todos os instrumentos, os envolvidos apostam na riqueza de detalhes como revolução e arriscam riffs ácidos e passagens que assustam pelo peso, isso mesmo que você leu, peso.

Betty Davis (2)

Quando abrimos o disco com ”If I’m Lucky I Might Get Picked Up” a coisa fica clara. Percebam a chumbada da percussão, o groove passando por cima de tudo e a voz chavosa da senhorita, que aliada daquele bom e velho approach Soul, chega encurralando orelhas com um inspirado e rifferamático Neal Schon em puro êxtase depravado.

Larry Graham bem que tenta, mas ele também perde a linha. Os temas são curtos, mas a cozinha é uma senhora quebradeira, tudo chega somando no groove, desde os ilustre backing vocals do pessoal da The Pointer Sisters até o órgão de Hershall Kennedy, que chega recheando a baguete do swing com “Walkin’ Up The Road”. Mas o destaque do disco é a senhorita Betty, ela domina o vocal de uma forma que apenas os grandes conseguem, ela irradia sua arte e como se não bastasse ainda tinha um time de músicos que ganhava até Champions League, se liga no que o baixo faz em “Anti Love Song”, destilando riffs como se fosse uma guitarra!

Betty-Davis-1973---Capa

Segura o ímpeto temperamental da mulher, “Your Man My Man” surge com uma confiança que chega a ser até arrogante e quando o Wah-Wah chega pra somar, a casa sente a piração e os ouvintes percebem que o Miles era nerd demais pra essa mina, o marido ideal devia ser o Sly, tamanho o grau de Funk que temos em “Ooh Yeah”. Mas sem entrar nessa de conselheiro amoroso, antes só fazendo sons como “Steppin In Her I. Miller Shoes”, do que mal acompanhada dando rolê em passarela sem groove no nível de “Game Is My Middle Name” ou metalizando a ideia com “In The Meantime”.

Agradeço essa senhora não só por ter apresentado o Funk ao mestre, mas por ter gravado seu próprio material, um dos raros exemplos de esposas que tinham uma profissão que ia além de “ser esposa do Miles Davis”. Coisa fina, gritaria Black Power!

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Guilherme Espir

Publicitário em formação, zappamaníaco e escritor de fundo de quintal fissurado em música tal qual um viciado à espera da próxima dose, neste caso aguardando em abstinência para o próximo disco.
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