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Para início de conversa, é pertinente pensar que a disseminação da cocaína nos Estados Unidos começando nos anos 70 é de responsabilidade deste americano, George Jacob Jung, conhecido também como Boston George. Jung foi membro do conhecido Cartel de Medelín, cujo papel na organização foi fundamental, sendo o maior transportador de cocaína entre Colômbia e os Estados Unidos. É conveniente ressaltar que o Cartel de Medellín foi responsável por aproximadamente 85% do mercado de cocaína nos EUA.

Os anos 70 foram altamente contagiados pelo consumo desta droga nos Estados Unidos. George Jung fazia o trabalho com o intuito de abastecer uma grande demanda frequentemente composta por músicos, cineastas, atores, pessoas da alta sociedade e artistas americanos em geral. Mesmo que não vendendo diretamente aos consumidores, George Jung foi o grande facilitador durante as décadas de 70 e 80.

George Jung

A relevância de Boston George no consumo de cocaína nos Estados Unidos foi tamanha que em 2001 foi lançado Blow – Profissão de Risco, dirigido por Ted Demme e com Johnny Depp no papel de George. O filme mostra a trajetória de um homem que virou traficante por decisão própria. George Jung viu seu pai, Fred Jung (Ray Liotta), trabalhar a vida inteira, quatorze horas por dia durante, sete dias por semana, frequentemente fracassar financeiramente. Vendo de perto a dura realidade decidiu partir para outro estilo de vida, ganhar dinheiro fácil e com o mínimo de esforço. Bem, não há disparidade maior entre ganho/horas de trabalho do que o tráfico de drogas, realidade mantida nos dias atuais.

Blow é narrado de forma romântica, com George Jung sendo tratado como um homem de princípios, diferente do estereótipo básico do criminoso. Boston George paga bem seus fornecedores e a seus amigos, pai, filha e às duas esposas que teve.Tão fiel que acreditou cegamente nestas pessoas. Tão cego que foi traído por todos.

George Jung

5 Decepções de George Jung

1.

Boston George, de acordo com o filme, foi um ser humano resignado. Durante a infância com o baixo orçamento mensal da família foi testemunha de discussões iniciadas por sua mãe, Ermine Jung (Rachel Griffiths), que acusava o marido de ter prometido dar a ela uma vida digna e não estar cumprindo. Por mais de uma vez, ela vai embora. Sempre voltava, mas sempre ia embora, abandonando o marido e o filho sem ressentimentos, sem o altruísmo materno que toda criança precisa.

2.

Após ter cumprido parte da pena, George Jung não voltou à prisão na primeira vez que foi encarcerado. A doença terminal de sua namorada na época o possibilitou que a acompanhasse com frequência, até o dia de sua morte. Após esse dia que George não voltou. Permaneceu foragido até voltar para casa de seus pais. No reencontro enquanto conversava com seu pai, George foi traído pela própria mãe, que ligou para a polícia e denunciou que o foragido da justiça estava ali, naquele teto.

3.

Na prisão, Boston George foi companheiro de cela de Diego Delgado (Jordi Molla), de quem se tornou grande amigo. Diego o apresentou a Pablo Escobar (Cliff Curtis), conhecido na Colômbia como El Padriño e inseriu George no lucrativo ramo da cocaína, o Cartel de Medelín. George tinha um esquema e um trato com um antigo amigo, o cabelereirero gay Derek (Paul Reubens). O contato era mantido em segredo até que Diego o pressionou para que George contasse. Assim George o fez, contou quem era seu contato que o ajudava a distribuir a droga. E a partir desse momento ambos o traíram, pois George, teoricamente, já teria se tornado um mediador desnecessário e oneroso para o negócio.

4.

George Jung sofreu uma emboscada do DEA (Drug Enforcemente Administration) durante uma festa de aniversário. Para não ir à prisão fez um acordo. E este acordo custou todo o dinheiro que tinha arrecadado com o tráfico até então. A família Jung tinha ido do luxo ao lixo, George se tornara igual ao seu pai, protegendo ao máximo sua filha Kristina (Emma Roberts), enquanto sua esposa Mirtha (Penelope Cruz) reclamava da vida que tinha que levar a partir daquele momento, exatamente como sua mãe cobrava de seu pai. Em um surto, Fulana denunciou o marido à polícia e, mais uma vez, a prisão apareceu no caminho de George.

5.

Livre novamente, e agora divorciado, George Jung buscava reconciliação com a filha. Naquele momento era só o que importava em sua vida, uma vez que sua mãe não o considerava mais como filho. Sem dinheiro e sem perspectiva profissional após tantos anos enchendo os bolsos rapidamente e com o mínimo esforço, George resolveu fazer um último trabalho para dar qualidade de vida à sua filha e levá-la ao lugar que gostaria de conhecer, a California. George se reuniu com um pessoal novo, um deles sendo inclusive um amigo de infância, Kevin (Max Perlich), que o ajudou a traficar maconha antes do envolvimento com a cocaína. Por fim, tudo não passava de um golpe para que Boston George fosse pego novamente e Fulano fosse absolvido de outras acusações. Pela quinta vez em duas horas de filmes, George foi traído por alguém que nunca antes tivera feito mal algum, apenas confiado demais.

George Jung

George Jung foi um traficante que não teve a visão amplificada e pouco se importou com o hipotético mal que poderia causar nos Estados Unidos e na Colômbia. O foco de Jung foi pai, mãe, esposa e filha. Jung nunca matou ninguém, foi condenado por ter transportado grandes quantidades de substâncias ilegais. Sua intenção era apenas propiciar qualidade de vida às pessoas que amava, em virtude de uma traumática infância. E seu maior erro foi confiar demais nas pessoas, sendo, ao longo de sua vida, apunhalado pelas costas por diversos amigos.

Boston George foi considerado um mágico ao vender centenas de quilos de cocaína em poucos dias, mas não foi o suficiente. Boston George não foi cruel, nem ríspido, foi tudo o que um traficante de drogas normalmente não é, e por isso pagou caro. Boston George é o retrato da sentença “o crime não compensa”, mas não por ter sido preso, e sim por ter perdido todas as pessoas que um dia amou.

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Flaubi Farias

Jornalista, parolo, navegador, alienígena e editor do La Parola.
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