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A vida de conselheira é até agradável. Pra mim, que me encanto com as histórias de todo mundo, é um exercício confortante. Nos últimos dias ouvi de uma amiga um desabafo raivoso. Forte. Fui atenta a todas as palavras. Captei cada vírgula. Transformei sua história de amor pouco convidativa numa carta de desabafo.

“Essa carta é pra você que se foi, mas que não deveria ter vindo nunca. Você que poderia ter feito sorrisos, ao invés de lágrimas. Você que resolveu construir muralhas de concreto, sem pensar na dificuldade de derrubá-las. Essa carta é pra você que fez do coração dela, pedra. Que fez aço o que era doce e instável feito gelatina. Você que, com tantos anos nas mãos, preferiu deixar o legado do rancor no lugar de cravar um “valeu a pena” nas lembranças de um amor da juventude. Juventude que envelheceu.

A moça, que hoje narra tudo com indiferença, trouxe-te para os seus melhores dias. Pois é, isso é péssimo. Colocou-te ao lado de pessoas que não mereciam sequer ouvir teu nome mencionado. Transformou-te num passado que ela jamais gostaria de retornar, apenas aprender em cima dos erros, ultrapassar as barreiras que ela mesma construiu. E você, pouco a pouco, sem sequer se fazer presente, foi desmoronando todo o interior dela como uma fileira de peças de dominó. Você deixou sua marca de menino que não se nomeia homem em uma pessoa que não merecia nem a sua mentira mais sincera.

Essa carta é pra você que a roubou a capacidade de confiar nos próximos. É pra você me encravou a desconfiança, a infelicidade e essa nova criatura deplorável que se deixa levar pelas marcas de um passado que não vale a pena ser lembrado, imagine escrito. Essa carta é pra você que nunca lerá e que nunca saberá o mal que disseminou na vida de moça que tanto acredita no amor e que tanto se entristece com ele, por ela mesma. Aliás, por você. Essa carta está sendo escrita pra você que a tornou a frieza em forma humana e colocou-a em posição eterna de contra-ataque.

Você não sabe, mas fez a menina nunca doce, ser ainda mais amarga. Se antes ela chorava por acreditar tanto, hoje chora pela descrença humana. Não superou. E parece que nunca vai. A moça que em nenhuma hipótese largou a pior lembrança do passado, veste-se hoje em capa invisível, se protegendo das palavras caluniosas que ela mesma denominou assim. Enquanto o outro deita pra dormir em paz, ela descreve cenas inimagináveis em sua mente. É criativa, não se pode negar. Sempre foi. Mas olha lá, isso tem feito um mal enorme a ela.  Se ao menos virasse livro. Mas só vira lágrimas. E decepção consigo mesma.

Essa carta é pra você que merecia ouvir um discurso de 50 minutos de como agir honestamente. De como ser sincero. De como ser humano. Essa carta é para não verbalizar o que uma mente exausta grita em palavras. É para não fazer exaltada o que a cabeça borbulha em afrontas. Essa carta é para o homem que sempre foi menino, que não se fez grande em palavras ou em ações, mas em decepções e amarguras.

Essa carta é pra te dizer que ela te desculpa por tudo, por todos os anos. Mas não te perdoará jamais por torná-la refém da sua própria história. Não te perdoará por apresentá-la o sentimento de desconfiança que quem a ama jamais merecera. Essa carta é pra deixar bem claro que as palavras podem acabar, mas a mágoa não cessa. Essa carta é pra você que nunca foi aquilo que poderia ser.”

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Dani Fechine

Graduanda em Jornalismo.

Conta histórias da vida, do que escuta, do que observa, do que lê e do que vive. É uma amante da vida real, mas não larga sua própria ficção.

Escreve também no seu Blog Pessoal, o Escrever Para Não Implodir.

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