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Foto: Luiz Alfredo/O Cruzeiro

Você sabia que ao longo de mais de meio século, o hospital psiquiátrico Colônia, na cidade mineira de Barbacena, criado pelo governo de Minas Gerais em 1903, foi responsável pela morte de 60 mil pacientes? O sanatório foi considerado por muitos anos, o maior do Brasil, mas ao invés de tratar e curar seus pacientes, o hospital não oferecia nenhum tipo de estrutura básica, não havia comida, nem camas, muitos morriam de frio e de fome, além das incessantes seções de eletrochoque.

Em 1961, imagens impactantes do sanatório foram publicadas na revista de maior circulação da época, O Cruzeiro, pelo fotógrafo Luiz Alfredo. Com as imagens, o poder público tomou providências a respeito do local, porém até hoje, poucas pessoas sabem sobre o que aconteceu no local.

Motivada pela falta de conhecimento de todos com a história e horrorizada com a violência e assassinatos do hospital psiquiátrico, a jornalista Daniela Arbex, conhecida por suas reportagens em defesa dos direitos humanos, começou a pesquisar e escrever sobre o assunto, que ela mesma chama de “holocausto brasileiro”.

Foram 2 anos até que a jornalista pôde publicar uma extensa série de matérias sobre o Colônia no jornal Tribuna de Minas, que acabou virando o livro “holocausto brasileiro”, pelo qual ganhou em 2012 o prêmio Esso de jornalismo.

holocausto brasileiro

Confira a entrevista com a jornalista feita pelo Porta Imprensa:

 Como surgiu a ideia de escrever sobre o hospital psiquiátrico Colônia, em Barbacena?

Na verdade, eu não conhecia sua história. Em 2009 fui fazer uma entrevista com o então vereador de Barbacena, o psiquiatra José Laerte, e no meio da conversa ele me mostrou um livro que foi editado em 2008 pelo Governo do Estado de Minas Gerais. A obra continha imagens do Colônia, feitas em 1961, pelo fotógrafo Luiz Alfredo, da revista O Cruzeiro.

Fiquei completamente impactada com aquelas imagens. Quando eu vi a primeira página já imaginei um centro de concentração ali. Exatamente porque não conhecia nada da história que me impressionei. Me questionei como a minha geração não sabia nada daquela história. Foi isso que me motivou a ir atrás dos rostos por trás daquelas imagens.

 Antes de virar livro-reportagem, a história do Colônia foi contada em uma série do jornal Tribuna de Minas. Como foi o processo de produção?

Só consegui fazer a série de reportagens que deu origem ao livro em 2011, dois anos depois que tomei conhecimento da história. Meu jornal é pequeno e como sou repórter especial, naquele momento a publicação não poderia dispor do meu tempo para o trabalho. Quando as imagens do Luiz Alfredo completaram 50 anos, em 2011, sugeri ao jornal que fizéssemos a busca pelos sobreviventes e testemunhas.

 Com quantas pessoas falou? Foi mais complicado localizá-las ou conseguir sua confiança?

Falei com cerca de 30 pessoas. Quando resolvi contar as histórias por trás dos rostos retratados pelo Luiz Alfredo eu parti para Barbacena com as fotos dele nas mãos. Fui pedindo ajuda dos funcionários e ex-funcionários do hospício para ver se eles conseguiriam identificar alguém e saber de alguém que estivesse vivo. Foi a partir daí que comecei a achar alguns sobreviventes.

 Como foi a postura do governo e da prefeitura diante da série? Afinal, as reportagens também são uma grande crítica ao descaso deles.

Essa é uma história que não tem nem como negar. Primeiro porque ela está muito bem documentada. As próprias imagens do Luiz Alfredo são a prova viva do que aconteceu, se elas não existissem talvez fosse mais difícil das pessoas acreditarem nos testemunhos que colhemos, mesmo com uma boa documentação. As imagens dão muita força ao livro.

E eu tive um facilitador, pois o governo de Minas Gerais, quando resolveu publicar esse livro com algumas imagens do Luiz Alfredo, meio que abriu essa porta para a gente revisitar esse passado. Foi um momento de lucidez do Estado, de assumir a culpa pela omissão de tantas décadas, porque o Colônia funcionou nessas condições sub-humanas até de 1903 a 1980. Se ela foi criada em 1903, olha quanto tempo esse hospital funcionou precariamente. O governo não tem nem como mudar, então assumiu. Foi esse movimento em 2008. Foi por causa disse que tive acesso às imagens.

 Quanto tempo levou no processo de apuração?

Para o jornal fiquei um mês. Para o livro fiquei um ano. Viajei muito para outros estados para estar com todas as testemunhas, olhar no olho dessas pessoas. Tive que voltar várias vezes porque para fazer essas pessoas confiarem leva tempo. Não é só chegar e pronto. Levei um tempo para conquistar isso. Refiz algumas entrevistas, fiquei horas com cada pessoa.

 Como foi a repercussão da série?

Barbacena sempre foi considerada a capital dos loucos. Com isso, as pessoas se referiam à cidade de forma muito jocosa, mas ninguém sabia exatamente que tinha esse passado por trás dos muros do hospital. Em 1961, O Cruzeiro fez uma grande denúncia. Em 1979, O Estado de Minas também fez uma grande denúncia, teve documentário “em nome da razão”, mas ainda assim a sociedade desconhecia o que se passava dentro do hospital.

Hoje ele ainda funciona. Claro, não nas mesmas características de antigamente. Os pavilhões ainda existem, apesar de alguns já estarem desativados. Hoje ele se transformou em um hospital regional com várias especialidades médicas, inclusive, a psiquiatria. Hoje existem cerca de 160 sobreviventes do Colônia e que vão morrer lá dentro. Existem muitos funcionários que ainda trabalham lá também. Que passaram uma vida inteira.

 Mudou muita coisa para a série de reportagens virar livro?

É outro material. Não aproveitei nem 10% da série porque a linguagem é outra, não teve como adaptar a matérias para o livro. Tive que percorrer todo o caminho de novo, até mesmo quem eu já havia entrevistado para o jornal. Fui achando novos personagens, novos sobreviventes nesse meu recomeço.

 Esperava ganhar o prêmio Esso pelo livro?

Na verdade esse é o meu terceiro prêmio Esso. Já ganhei em 2000 com uma série denúncia sobre a Santa Casa, e em 2002, com uma série sobre a ditadura. Mas foi maravilhoso, primeiro pelo reconhecimento e tanto do trabalho, acho que o mais importante, é que com essa matéria, contribui para que o Brasil pudesse visitar sua história e este é um dos piores capítulos, o mais dramático.

 As grandes reportagens são cada vez mais escassas na grande imprensa. Como fazer com que tenha mais importância?

Realmente, o espaço para as grandes reportagens está cada vez mais enxuto, os veículos precisam de reportagens mais rápidas até pelo próprio boom da internet. Só que matérias como o do Colônia mostram que a grande reportagem continua aí firme.

O que agrega valor para o jornal são essas matérias. Ninguém sabe a manchete que leu hoje, se esquece muito fácil. Mas uma matéria como a do holocausto brasileiro ninguém nunca mais vai esquecer, assim como muitas outras. Existe espaço, mas a gente tem que brigar por ele.

No meu caso, foram dois anos, não porque o jornal não quisesse a matéria, mas não podia parar para que eu fizesse essa investigação. Mas eu acreditava nessa matéria, então, nunca deixei de vender a pauta, até que surgiu um momento ótimo. Ótimo mais para o jornal, porque eu estava amamentando o meu filho de cinco meses na época, mas senti que precisava fazer. Queria que meu filho sentisse orgulho de mim e saí para fazer. É preciso brigar pelo espaço, convencer o jornal sobre a importância da matéria. Matérias que se tornaram maior que o jornal mesmo.

Holocausto Brasileiro
Foto: Luiz Alfredo/O Cruzeiro
holocausto brasileiro
Foto: Luiz Alfredo/O Cruzeiro
Holocausto Brasileiro
Foto: Luiz Alfredo/O Cruzeiro
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Foto: Luiz Alfredo/O Cruzeiro

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Juliana Acco

Jornalista, gaúcha, alérgica a corante vermelho e consumidora frenética de informação. Gosto do simples, minha casa é minha mochila e minhas raízes estão nas nuvens. Moro em qualquer lugar, desde que tenha sombra, água fresca e Wi-Fi.
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