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Luzes azuis, palco analógico, televisões de Lazaretto, roadies vestidos como judeus ortodoxos e um coquetel de Blues que faz mais estrago que muito Molotov por aí. Esses são os elementos que formam o universo esquizofrênico, bipolar, Bluesy e sádico do reverendo Jack White, guitarrista que proporcionou um dos melhores shows para o primeiro dia do festival Lollapalooza, fechando a sessão de destaques com o Robert Plant e a viagem subsaariana do Sensational Space Shifters.

Esperava por um show competente, afinal de contas tinha me dirigido para o festival com muitas horas de Lazaretto na cabeça, alguns anos de White Stripes e uma dose considerável de Raconteurs, isso sem falar em Dead Weather e no solo autointitulado deste criativo inventor de riffs.

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E para meu espanto o conteúdo absorvido pela minha embaçada lente quatro olhos foi muito superior ao “metido”, competente, que enumerei algumas palavras atrás. Mas o fato é que o Jack White solo conseguiu mostrar todo seu potencial ao mundo (e provar bastante coisa a si mesmo) e concretizar um fato para os ainda céticos: ele é bom, bom pra caralho.

Duvido e muito que se o americano estivesse com a Meg White até hoje (levando o som nas costas enquanto ela baquetava a batera como se estivesse com medo dos pratos) que este lunático teria brindado os presente com mais de uma hora e meia de timbragens insanas, solos com um claro desequilíbrio mental e uma instrumentação digna de uma resenha exclusiva para a banda de apoio do mestre do cerimônias.

Line Up:
Jack White (guitarra/vocal/piano/violão)
Daru Jones (bateria)
Dominic Davis (baixo)
Dean Fertita (órgão/piano/teclado)
Fats Kaplin (theremin/mandolin/violino/pedal steel guitar)
Lillie Mae Rische (violino/vocal/mandolin)

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Com uma das bandas mais técnicas e entrosadas que o mundo da música pode ouvir em disco e se impressionar ao vivo, o reverendo João Branco chegou e fez exatamente o que mais gosta: confundir as pessoas. Teve Blues seco na orelha, baladinhas Folkeadas com aquele tempero de Whisky Jameson, quebradeira instrumental, delírios de Jazz, viagem com LSD Country, camadas garageiras e até slide numa onda sinfônica que trata de mostrar a relevância de um dos maiores guitarristas em atividades, dono de um dos espetáculos mais interessantes para se entreter neste afrescalhado cenário atual.

Tudo em seu show é interessante, desde a posição dos músicos no palco (todos bastante próximos), o que aproxima Jack de tudo e cria uma energia invisível, mas que acaba sendo a base motriz desse som que é válido ressaltar, é fruto do mais fino néctar que a música produziu, e que nesse groove se mistura sem nenhum pudor.

O evento se desenvolve sem frescura nenhuma, é um som atrás do outro, algumas jams entre as canções e um todo que corre com uma naturalidade assustadora, coisa que não é muito normal, ainda mais com uma música tão pouco usual como essa. E tudo que se escuta em disco é plenamente captado ao vivo, “High Ball Stepper”, por exemplo, veio com solo de violino e o escambau.

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O ser, “Jack White”, é bastante peculiar nos palcos, sua alegria é tão singular que se assemelha a de um garoto brincando de abrir o registro pra dar choque na família toda e, por mais que essa descrição seja meio confusa, quando o cara sobe no palco sua guitarra caótica se funde com todo o ar jazz-purista de seu fantástico baterista Daru Jones, e ainda faz sala para os eruditos Dean Fertita, Dominic Davis (e seu belo cosplay de Paul Chambers), o multitarefa Fats Kaplin e a afinadíssima Lillie Mae Risch.

Citei o Sweeney Todd no título e não foi só para efeitos de semelhança física ou com o vestuário, mas sim porque um show do americano se assemelha e muito com um corte de cabelo com o Edward Mãos de Tesoura Assassino. O menino pode muito bem tocar um som na boa, levando o som na estica como também pode (e é de seu feitio) entrar no olho do furacão do som, encavalando todo o instrumental e soltar faíscas com sua guitarra de detritos não cósmicos, cortando cabeças, assim como sua versão Hairdresser.

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O repertório mostrou foco no grande sucesso de “Lazaretto” e nos brindou com eletrizantes versões da faixa que nomeia o disco, do Blues sacana de “Three Women” (com Jack no piano), muito feeling com “Just One Drink” e a bombástica “That Black Bat Licorice”, tema que explodiu a plateia e deixou claro o motivo pelo qual esse cara é tão elogiado. Ele é diferente, desde a forma como sola até o modo como canta, ninguém faz igual e dentro de um mundo onde todos querem ter um som parecido com algo já feito. Isso é absolutamente louvável, grande momento, o branquelo dichavou o Lollapalooza e o Daru Jones deu um workshop gratuito, com seus fundamentos jazzísticos e swing bombástico com pegada reggaeira pra sincompar o som.

Não foi só isso, o set list foi longo, a viagem fez uma geral pela vida e obra do ainda jovem (mas sacramentado talento). Só que para efeitos de puro charme excêntrico, a epifania do “S” do Senna chegou ao fim, e agradeça por não querer degolar sua mente enquanto o senhor passava seus olhos por esta ideia. Foi bom fazer parte do “Seven Nation Army” por um dia e ouvir Raconteurs, pra variar. Não tivemos Plant, mas quem estava presente viu algo ainda mais enérgico que uma chacina no cabeleireiro.

Fotos: JackWhiteIII.com

Set List:

”Icky Thump”
”High Bass Stepper”
”Lazaretto”
”Hotel Yorba”
”Temporary Ground”
”Weep Themselves To Sleep”
”Cannon/Dead Leaves And The Dirty Ground/Screwdriver”
”Just One Drink”
”Steady, As She Goes”
”Love Interruption”
”We’re Going To Be Friends”
”Fell In Love With A Girl”
”Black Math”
”Three Women”
”Missing Pieces”
”Top Yourself”

Bis:

”I’m Sloly Turning Into You”
”Would You Fight For My Love?”
”That Black Bat Licorice”
”Ball And Biscuit”
”Seven Nation Army”

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Guilherme Espir

Publicitário em formação, zappamaníaco e escritor de fundo de quintal fissurado em música tal qual um viciado à espera da próxima dose, neste caso aguardando em abstinência para o próximo disco.