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Quando o Led Zeppelin se estabeleceu, a ideia dos caras começou a ficar ainda mais miscigenada a medida que a dupla Plant e Page se aventurava pela rica musicalidade africana e deixava Bonham em casa com a família e John Paul Jones no mesmo esquema de tranquilidade dominical. O resultado dessas viagens exploratórias surgia com clássicos Folks que foram eternizados em trabalhos seminais, algo que culminou com “Stairway To Heaven”, o apogeu deste momento miscigenado.

De forma geral essas ideias mirabolantes e rolês poucos usuais para encontrar o néctar da música africana surgiam de Plant. O lado Folk veio dos dois, mas o âmbito de ritmos e percussões tocava mais na cabeça do vocalista, logo, quando Page podia, preferia comprar antiguidades e instrumentos para brincar no seu playground de Crowley a ouvir batuques acompanhados de seu companheiro de banda.

Só que o som africano bateu no ouvido do Plant e ficou. Foi algo semelhante ao que aconteceu com o Ginger Baker, quando este foi apresentado ao caldeirão de ritmos africanos por Phil Seamen: a vida de Robert mudou. É bem interessante ler relatos sobre essa época, pois nota-se claramente que ele foi coletando influências e alimentando um som que apenas ele ouvia, um novo DNA que depois de sintetizado só se tornou público quando o Hippie foi desbravar a música em carreira solo.

Robert Plant - Lollapalooza Brasil (6)
I Hate Flash / Flickr Lollapalooza BR

Essa história resumida tem mais de 40 anos de idade e creio que milhares de brasileiros a conheçam, mas mesmo tendo noção de tudo que o Zeppelin era, é, e sempre será, e conhecendo a carreira solo de Plant, tendo lido tudo que saiu com o nome do cidadão (e todos os músicos envolvidos), confesso que fiquei absolutamente consternado e que, pela primeira vez na vida, não tive reação enquanto presente de corpo (e alma nem tanto), no maior espetáculo intimista que já vi na vida: Robert Plant & The Sensational Space Shifters – Especiarias de Marrakesh À Moda Lollapalooza.

Não me interessa se o Led Zeppelin não vai voltar, se vai voltar (mentira, me interessa e não é pouco), ou se uma das vozes mais marcantes da música já está envelhecida e não alcança os agudos dourados de outrora, o fato é um só: 66 mil pessoas viram o Sir Robert Plant no palco Skol no primeiro dia de Lollapalooza e, este resenhista que vos escreve, se sente absolutamente honrado por ter feito parte disso de alguma maneira.

Cresci ouvindo esse cara cantar, nunca pensei em vê-lo e quando o velhaco adentrou o palco na estica, tudo o que tinha pensado antes caiu por terra tal qual um satélite desfigurado por uma colisão com um asteroide. Perdi a conexão com tudo e me impressionei com a malandragem de um caro que, é válido repetir: está no topo de seus 66 veraneios.

Robert Plant - Lollapalooza Brasil (4)
I Hate Flash / Flickr Lollapalooza BR

Se por um lado este ícone não pode sair gritando como fazia nos tempos de ouro, hoje em dia o britânico nos ensina que ainda é possível fazer um belo show com uma voz mais limitada. Com uma instrumentação no tom de sua voz, uma banda fantástica e uma malandragem que não se aprende na escola, o reverendo Robert Plant brincou com sua voz, encontrou novos rítmos nas roupagens chapadíssimas que sua banda criava e, além de cantar “The Lemon Song”, deu uma aula de música, matéria que teve até Willie Dixon e bastante Led, algo que Robert costuma dar menos espaço em seus shows fora daqui (mas que em virtude de “nos dever uma”, afinal de contas o Zepplin nunca parou seu dirigível em terrar tupiniquins), acabou sendo bastante abundante.

Foi até engraçado quando o mestre começou a cantar os primeiros versos de “Turn It Up”, um dos singles de seu disco mais recente (o competente Lullaby And… The Ceaseless Roar), todo mundo estava perplexo, não cantava, não falava, as cabeças estavam fundindo e quando acabou o show parecia que neurônio era coisa da elite, ainda bem que o cidadão fez um show mais enxuto.

Algo que em nenhum momento tira a beleza dos Medleys Zeppelianos, nem da instrumentação bastante singular de seu grupo, que justiça seja feita é de um talento assombroso, empolgando a plateia até em temas do novo disco, me espantando com “Spoonful” e pela fidelidade em temas que não precisaram de novos arranjos para arrebatarem o público, como “Rock And Roll”, por exemplo, o marco do final deste grande show.

Robert Plant - Lollapalooza Brasil (3)
I Hate Flash / Flickr Lollapalooza BR

Durante pouco mais de uma hora parecia que estava em outro país, habitando um sonho no Montreux Jazz Festival. A energia de Interlagos estava absurda neste momento do dia e o fato do mestre ter entrado às 18:20 foi ainda mais sinestésico, pois quando seu show acabou já estava escuro e as luzes de seu espetáculo foram se fundindo e se acostumando ao entardecer e ao vento que tanto batia nesse Blues raiz, foi lindo, poético e absolutamente marcante.

Nunca vi um show com mais de 60.000 pessoas ser intimista, mas quando acabou fiquei maravilhado por ter visto tudo aquilo. Creio que essa seja a maior prova da força que Plant ainda possui: chegar em um festival que não tem seu público habitual, com um novo som e ainda fazer um estrago desses e conseguir levar um estádio lotado no gogó… Tem que cantar muito e ser muito bom pra isso, coisa que esse cara era, é e sempre será: um completo fora de série.

Esse show vai ser um acontecimento inexplicável na vida de todos que puderem presenciar este momento, vai ser algo místico, “Natural Mystic”, como diria Bob Marley. Um momento que será digerido por anos e que nos resultará em grandes balanços.

Robert Plant - Lollapalooza Brasil (2)
I Hate Flash / Flickr Lollapalooza BR

As pessoas mais experientes (com mais tempo no taxímetro na terra), são as mais respeitadas, as mais estudadas e cultas… Com o show do dia 28 de março de 2015 aprendi que isso nem sempre tem fundo filosófico, este que vos resenha mensura a vida em shows, quem mais viu eventos ou quem viu os nomes mais marcantes são os mais bem vividos, algo que a julgar só por ontem me deixe na frente de muita gente, merece até lugar no curriculum.

Entrevistador: Você possui alguma experiência?
Entrevistado: Não, nenhuma, mas eu já vi o Robert Plant…
Entrevistado: Creio que isso seja o suficiente, você está contratado.

E não se esqueçam: Ah Ah Ah Ah… Ah Ah Ah Aaaaahhh

Set List:

”Babe, I’m Gonna Leave You” – Joan Baez
”Rainbow”
”Black Dog/Arbaden (Maggie’s Baby)”
”Turn It Up”
”Going To Califórnia”
”Spoonful” – Willie Dixon
”The Lemon Song”
”What Is And What Should Never Be”
”Finxin’ To Die” – Bukka White
”Whole Lotta Love”

Bis:

”Rock And Roll”

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Guilherme Espir

Publicitário em formação, zappamaníaco e escritor de fundo de quintal fissurado em música tal qual um viciado à espera da próxima dose, neste caso aguardando em abstinência para o próximo disco.