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Em todos os lugares do mundo as grandes capitais carregam símbolos, ícones capazes de sintetizar a essência e a memória das mais variadas correntes que transpassam a vivência social desses meios urbanos. São elas a Estátua da Liberdade de Manhattan, a Torre Eiffel de Paris ou o Big Ben de Londres, por exemplo. Ao pensarmos em São Paulo, uma imagem é recorrente: um imenso bloco de concreto suspenso por colunas em vermelho e cravado em uma icônica e larga avenida: o MASP.

A arquitetura tem esse poder de síntese. Entender seus criadores é, em parte, também entender um pouco de sua produção deixada para tantas e tantas gerações. Afinal, o MASP da arquiteta Lina Bo Bardi, que completaria cem anos em 2014 é, para além de tudo, uma lembrança viva na memória de cada paulistano, em suas vidas que utilizam essa cidade como cenário na construção de sua história.

Lina Bo Bardi - MASP
MASP

O prédio erguido para ser museu se tornou bem mais do que isso. Símbolo da cidade, a única exigência inicial de Joaquim Eugênio de Lima, que construiu a Avenida Paulista e atuou no urbanismo da cidade, era a construção não obstruir a vista e a amplidão do espaço e panorama proporcionados na área, que tinha vista direta para a Serra da Cantareira naquela época. A solução foi justamente suspender o prédio a oito metros do solo e criar espaços subterrâneos para serem aproveitados.

A exigência deu espaço para que a área fosse ocupada para os mais diversos fins. Hoje, o grande e histórico “Vão do MASP” é palco de protestos, embates, passagens e, principalmente, encontros. Destes, aliás, a italiana radicada no Brasil entendia bem. Lina era capaz de transmutar grandes ideias em pedra e metal em suas construções.

Outras grandes obras levam sua autoria, como o SESC Pompéia e a Casa de Vidro. A parceria de Lina com seu marido, o crítico de arte Pietro Maria Bardi, resulta em elementos que conciliam a arte em sua concepção, com a capacidade de se projetar para o futuro, um lugar em que parecia conseguir ver e estar e, com suas ideias, trazer o potencial de transformação. A riqueza estava principalmente na escolha precisa e nos detalhes, que vão desde os cavaletes de vidro até cada placa de sinalização para garantir a movimentação adequada do público e colocada no prédio original. Eles propunham uma nova relação entre o espectador e as obras expostas. Revolucionários e subversivos, faziam com que os quadros “levitassem” e confrontassem o público.

Lina Bo Bardi - Obra
SESC Pompéia

Bo Bardi, entretanto, é uma “estrela póstuma” por não ter sido muito bem compreendida pelos colegas da época. Seu estilo estético era bastante contundente e se prestava diretamente a anular o estilo internacional em prol de uma arquitetura mais simples e mínima, com inspiração popular na construção do modernismo.

Dos resquícios da guerra e de sua história na Itália, ficam na memória principalmente a luta contra o fascismo e uma visão que buscava escapar do destino de muitas produções artísticas que a antecederam, que se esgotavam na produção de “arte pela arte” e se distanciavam cada vez mais da realidade do mundo e das pessoas. Por esse mesmo motivo, a arquiteta buscou em seus trabalhos produções que fugiam completamente de casas para ricos. “É uma doença, não é pose. Sou incapaz de projetar uma mansão particular, um banco, um hotel”, escreveu Bo Bardi.

Lina Bo Bardi - poltrona bowl - interiores
Poltrona Bowl

Do período de conflito na Europa também vieram suas ideias de urbanismo e do papel do arquiteto na construção de elementos que dão alicerce à vida, às condições básicas para a felicidade, dignidade e liberdade de cada ser humano. A reconstrução das cidades destruídas pela guerra e o espaço para criar a trouxeram para o Brasil com uma possibilidade de pôr suas ideias em prática.

Em São Paulo, a italiana criou sua Casa de Vidro, no Morumbi, e aceitou o convite de Assis Chateaubriand para projetar o MASP. Fama e reconhecimento internacional só vieram depois, com a noção de que sua arquitetura presente na vida dos cidadãos perdura mesmo após fases de “tendências” efêmeras no mundo da construção.

Lina Bo Bardi - Casa de Vidro
Casa de Vidro

Hoje, o legado de sua obra vem sendo celebrado, especialmente no momento em que se completam 100 anos de seu nascimento. O foco vem justamente desse interesse renovado pelas ideias modernistas brasileiras e principalmente da contraposição ao constante bombardeio de modas e estéticas arquitetônicas. Desse interesse surgem exposições, como a sala dedicada a Lina na Bienal de Veneza de 2010, retrospectivas em São Paulo e uma exposição de arquitetura latino-americana no MoMa, em Nova Iorque, em 2015.

As linhas desenhadas por Lina Bo Bardi continuam ali, para quem as viu serem erguidas e para quem as conhece hoje, como estão. Suas linhas vitais, entretanto, foram mais frágeis, como é de natureza de qualquer ser. Porém, seu legado permanece firme, impactando na história de muitas pessoas, imortalizando a italiana que ajudou os brasileiros a enxergarem a si mesmos.

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