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De difícil resolução o encontro entre a militância política acirrada e a boa literatura. Ghassan Kanafani, escritor, jornalista, pensador político e militante da Frente Nacional de Libertação da Palestina morto em um atentado (seu carro explodiu) em 1972, é uma dessa raras vozes que combinam a denúncia social com a humanidade do relato literário. Por isso, desvendar os textos de “Contos da Palestina”, reunião de pequenas narrativas lançada no Brasil em 1986, é uma dessas experiências difíceis surpreendentes. Isso tanto pelo relato do cotidiano de palestinos nos campos de refugiados, como pela circunstância de ser Kanafani um artista com olhar sensível e delicado sobre o povo palestina e a luta por seu território ocupado.

Em “Contos da Palestina”, encontramos um escritor bastante engajado em retratar o drama social vivido pelo povo palestino, ao mesmo tempo que está ciente do seu papel de transmitir pela experiência literária toda a humanidade que presenciou e viveu nos longos anos de guerra contra a ocupação israelense da Palestina. Se em contos como “O gato” e “Os carneiros crucificados”, que abrem o livro, nos defrontamos com um alto grau de simbolismo e elevada reflexão sobre a condição humana, não é menos verdade que em outros três contos adiante (“A guerra acabou”, “A chuva, o homem, a lama” e “Muros de ferro”) essa simbologia dá lugar ao relato quase jornalístico, cotidiano, trágico. Há no tempo em que se passam esses contos, fique claro, uma guerra real entre povos em conflito, mas a luta pelo território palestino na literatura de Kanafani deixa suas marcas nas famílias, nas paredes das casas, na organização social dos assentamentos, nas próprias pessoas, suas memórias, lembranças… E estão ali os contos “O amuleto” e “A proteção” para nos mostrarem até onde pode chegar a intolerância humana quando o assunto é os traumas de guerra. A violência do meio social e miséria econômica, contudo, não interferem no relato suave, no olhar distância mas jamais desatento, na caracterização de um povo pela sua própria convicção.

CONTOS_DA_PALESTINAQuanto à obra de Ghassan Kanafani, deve-se inicialmente afirmar que ela é vasta; porém, como sobra acontecer entre nós, muito pouco traduzida e quase nada conhecida no Brasil. A oportunidade rara de nos aproximarmos de um de seus textos literários mais importantes – as histórias curtas – e confrontá-los com a prática política e militante de Kanafani é também algo bastante promissor. Aliás, são raríssimo em literatura esses momentos de reflexão social e descrições literárias tão marcantes. São poucos, aliás, os escritores que conseguem isso: estar tão próximos e envolvidos na luta de um povo como pensador político, jornalista ou ativista, e ao mesmo tempo ainda conseguir construir uma carreira literária com altíssima sensibilidade artística. É isto que encontramos em Contos da Palestina: o retrato de um povo sem território, mas que mantém sua unidade e seu discernimento cultural próprio, com seus mitos, dogmas e assombrações. E se alguns contos tocam pela comoção que causa esta situação de exclusão vivida pelos povos subjugados – o menino órfão que precisa trabalhar e por isso acaba tendo baixo rendimento na escola, em “O vendedor de biscoitos”, conto que fecha o livro – tudo isso acontece porque o autor consegue separar aquilo que viveu nos nos campos de refugiados da boa literatura, a bem escrita, aquela que nos comove e faz pensar.

Em Contos da Palestina estamos diante de um mundo que sangra, pede transformações, e por isso mesmo pode (e deve) ser descrito em textos que mostram o ser humano que vive nesse mundo. Tudo isso sem jamais perder a característica de um texto com elevada qualidade literária. Ghassan Kanafani é esse autor que consegue nos transmitir emoção sem jamais ser melodramático; que se debruça sobre um dos conflitos históricos mais acirrados do Oriente Médio sem em nenhum momento ser panfletário; que transmite amor e esperança como um sentimento real e alcançável. Ao fazer isso em altíssimo nível, ele nos mostra que a literatura pode ser a voz do que querem ser escutados.

Boa leitura.

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