COMPARTILHE

O conhecimento da poesia nos leva ao êxtase. Descobrimos isso quando nos deparamos com o livro de estreia da escritora, poeta, tradutora e agitadora cultural Cristina Macedo.

Abrindo seu livro na turbulência dos poetas libertários e adentrando de imediato no indomável caminho do lirismo erótico – sempre sujeito a interpretações adversas – a poeta revela toda sua arte neste livro inaugural, acertadamente batizado Do arrebatamento (Ed. Gazeta, 2015). Nesse seu primeiro trabalho solo, Cristina Macedo escolheu o caminho dos versos sensoriais e afrodisíacos num ímpeto suspenso, líquido e gozoso que eleva sua poesia ao patamar mesmo de um… arrebatamento. Que belo título!

A reunião de poemas Do arrebatamento é um instante único – como única deve ser a poesia de todo aquele que coloque sua cara pra bater. Pois é disso que podemos falar no instante em que terminamos a leitura do livro de Cristina Macedo: queremos mais, queremos mais daquilo que nos fez calmos.

Trabalhando de forma límpida e rítmica com temas da natureza, do cotidiano e do amor a dois, Cristina parece nos propor aquilo que está em um dos seus epítetos extraídos de Hilda Hilst: “Ama-me. É tempo ainda. Interroga-me”. Dentro desse espírito, poemas como “Urgência”, “Rito” e “Intenso” parecem demonstrar bem a força da escritora. Há neles algo de uma história de amor contada, que perpassa de certo modo todos os poemas e que está na intensidade própria de cada palavra cravada no livro.

A grande força do texto de Cristina parece confundir-se, assim, com a própria trajetória vulcânica e arrebatadora da escritora – tradutora, agitadora e promotora de eventos literários, ela costuma reunir ao redor de si grupo de poetas, colocando-os a exercer seus poemas ao vivo, na intensidade das belas vozes daqui. Esta, aliás, é a própria origem da palavra/poesia/literatura: ritmo e oralidade. E isso, leitor, podemos encontrar como semeadura no livro de Cristina Macedo: seus poemas são recitáveis, seu domínio da palavra rápido e avassalador; sua sintaxe, desconcertante/desconfiante; e finalmente, seu livro de largada, Do arrebatamento, nos convoca: “aqui estou e me extasio / entre tuas coisas ainda”. Depois: “siga o compasso / do meu cansaço / dance comigo”. E por fim: “me ama agora ou não me ama”.

Natural de Santa Maria, a escritora Cristina Macedo tornou-se conhecida pela sensível e adequada tradução da obra Ariel da escritora americana Sylvia Plath, em parceria com Rodrigo Garcia Lopes, reconhecida por sua obra esparsa publicada em inúmeras coletâneas, a autora hoje ocupa a cadeira nº 23 da Academia Literária Feminina do Rio Grande do Sul.

cristina_macedo

Estabelecida territorialmente em Porto Alegre, a poeta é também respeitada como uma autêntica agitadora cultural. Desde 2008 ela é a criadora e a divulgadora do Sarau Literário Zona Sul – atualmente em sua 52ª edição – evento já tradicional do círculo de poetas de Porto Alegre, agregando nomes locais como Berenice Lamas, Paulo Roberto do Carmo e Mário Pirata.  No evento, Cristina costuma trazer aquilo que define como “poemas à flor da pele”, e é comum ela reunir autores para ler poemas de gente do mundo, como Adélia Prado, Hilda Hilst e Wislawa Szymborska. Alguns desses saraus são temáticos, como aquele organizado sobre poetas russos, que aconteceu na recentemente reinaugurada Biblioteca Pública do Estado do Rio Grande Sul.

Sobre o sucesso da fórmula de agregar poetas para seu Sarau Literário Zona Sul, a autora revelou em entrevista anos atrás: “Acho que a literatura/poesia em um bar, ou cafeteria, ou ainda, restaurante, como tenho feito, permite uma descontração que um palco, por exemplo, não oferece. Quanto ao repertório, faço um ou dois encontros com o escritor antes do evento, e criamos juntos um roteiro. Seleciono cerca de 25 ou 30 poemas, que serão lidos, pelo poeta e por mim, na noite do sarau”. O evento acontece sempre na última semana do mês, quase sempre em algum local conhecido da Zona Sul.

O êxtase proporcionado pela leitura dos escritos de Cristina Macedo resulta ao leitor numa satisfação plena, diria, num arrebatamento – esta tão bela palavra utilizada no título de seu primeiro livro. Com a poesia de Cristina Macedo, vivemos a sensação de liberdade que explode num de seus textos, “Prova”: “antes de ti / não sabia nada / contigo ao lado / sou pós-graduada”. Coisa linda de poeta (e de se ler).

Boa leitura.

Gostou do que viu aqui?

Todo sábado enviamos um e-mail com os artigos da semana. Entre em nossa lista: