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livro uma duas - eliane brum

Tanto tempo para se ler um livro, ali, parado na estante. Depois fazer esse tempo todo valer a pena porque afinal você enfim leu a obra que estava te olhando durante os dias, meses, às vezes até anos. Lançado em 2011, Uma duas (editora Leya) livro de ficção da jornalista e hoje já consagrada escritora gaúcha Eliane Brum é um desses casos.

Desde o seu lançamento, este era um dos tantos livros que havida ficado numa pilha, como se talvez ainda não houvesse certeza sobre a leitura, e essa dúvida, que muitas vezes costuma cercar alguns livros, dissipou-se nas primeiras linhas do livro, obra que já provoca estranhamento no leitor quando a narradora inicia dizendo que “Eu agora sou ficção. Como ficção eu posso existir”. Que belo começo!

Uma duas, romance de Eliane Brum, conta a história de uma filha que se vê diante da doença da mãe, num caminho em que a filha vai descobrindo o seu papel diante do quadro de saúde decadente da mãe, ao mesmo tempo em que a história vai nos mostrando como ela redescobre a própria personalidade e a intensidade viva de sua mãe.

O livro fala portanto dessa relação tensa que por vezes se estabelece entre filhos e pais, e no caso de Uma duas, como o título parece nos propor, é como se fossem as duas uma só pessoa.

Assim, entre a chegada ao apartamento de sua mãe, que foi encontrada quase morta, abrir a porta do imóvel, chamar bombeiros e ambulância, levar para o hospital, o relacionamento com os médicos, a necessidade de envolvimento da filha com a mãe, o imprescindível cuidado que ela terá que dispor, o tempo que dedicará ao cuidado da mãe, tudo isso de alguma maneira vai desencadear na filha o sentimento verdadeiro por essa mãe. Que em um primeiro momento é tenso, a mãe a rejeita, a filha ironiza os médicos, é preciso tomar providências práticas, cuidar de tudo, sozinha, levá-la para casa, arrumar o apartamento imundo e semidestruído, enfim, retomar o diálogo com a mãe que não quer os seus cuidados.

Cruzam por aí as dificuldades com o chefe da redação, a anulação da vida acomodada e solitária da filha que agora tem que cuidar da mãe, as dúvidas profissionais dessa jornalista, que encontrar na nova tarefa de cuidadora um pouco do sentido da vida. Pela primeira vez na vida ela se sente útil a uma pessoa que tanto detestou.

Publicado com um cuidadoso trabalho editorial, o primeiro livro de ficção da escritora Eliane Brum tem todas suas páginas editadas com letras em vermelho (provavelmente simbolizando o sangramento que percorre a todo tempo a relação mãe-filha), mas o livro tem ainda um outro grande atrativo: a forma escolhida para  contar a história.

Enquanto a história vai sendo contada a partir das angústias de uma narradora a todo momento em dúvida, a tipografia do livro é alterada para mostrar os diferentes estados de ânimo da narradora, os momentos da história, e nesse passo o livro é excepcional ao revelar como o pensamento da protagonista se forma. Mais ainda: a inventividade dessa escrita polifônica se revela ainda nas diferentes formas de relacionamento que a filha desempenha em seus diferentes papéis sociais que assume na história: desde a filha que abandonou a mãe sozinha, passando pelo tenso relacionamento com o corpo médico do hospital até a profissional que deixa o trabalho e passa como boa filha para cuidar da mãe, chegando, ao final, na própria interpretação da filha vivendo o papel de filha – algo que ela havia perdido. Tudo como a comprovar o que a protagonista diz ao final do livro: “Escrevi para poder matar minha mãe”. Contudo, não se engane: é justamente o contrário que nos reserva o livro: é a filha quem redescobre o seu papel diante da mãe convalescente.

Isso tudo nos faz pensar não apenas em nossos diferentes papéis na sociedade (filha, jornalista, etc.), mas também como muitas vezes nos escondemos nesses papéis na esperança de fugir da realidade que nos oprime.

Dessa forma, o otimismo final desta obra, sustentado na bela construção de personagem, é que nos faz acreditar ainda mais no ser humano. Ou no fato de que por vezes acertamos ao puxar da estante o livro certo e adequado para ler no momento certo da vida.

Boa leitura.

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Edgar Aristimunho

EDGAR ARISTIMUNHO é escritor e revisor; trabalha nos Direitos do Cidadão (MPF) e é diretor de comunicação da Fundação João XXIII. Publicou o livro de contos O homem perplexo pela editora Dom Quixote (2008). Escreve veemente no blog O Íncubo (http://oincubo.blogspot.com), e instantemente no site Nonada (http://nonada.com.br).

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