Mãe na Zona, de Antônio Costa Neto

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Sexo, drogas, angústia e rock’n’roll em ritmo intenso na literatura de Antônio Costa Neto

Ele tinha um humor filho da puta. Falou que iria encher o cu de carne. E que adorava encher o cu de carne. Quem diz isso é Francisco referindo-se a seu amigo homossexual, o X (personagem vivido por Caio Fernando Abreu (AKA o poeta das redes socias do século XXI) na realidade), em Mãe na Zona, romance de Antônio Costa Neto.

Mãe na Zona é a história de Francisco, personagem autobiográfico que vive os anos 80 em plena intensidade hedonista. A história, com suas elipses de tempo durante a narrativa, caminha pelas ruas e, sobretudo, pela vida noturna de Porto Alegre, São Paulo, Rio de Janeiro, Londres, Cairo, Turku e algumas outras. Francisco conta sua trajetória desde a infância, filho de brigadiano, o começo e ascensão da carreira como publicitário e escritor de peças teatrais, a chegada do sucesso, junto com a riqueza, e os ingredientes que o dinheiro compra através de, como citado na narrativa, uma busca pela autoflagelação.

Capa do livro Mãe na ZonaO livro nasceu após uma conversa entre Antônio, Cazuza e Caio Fernando Abreu, em uma noite no Madame Satã, em São Paulo. Caio sugeriu que Antônio escrevesse uma crônica sobre a “Mãe na Zona” para ser publicada na revista AZ. A repercussão foi tamanha que Caio pediu para que fosse transformado em um livro. Quase vinte anos depois o despretensioso papo no Madame Satã tornou-se um romance, publicado pela editora Matrix.
Mãe na Zona entrelaça histórias de amor e sexo, viagens e aventuras, bebedeiras e outras drogas, tudo em uma bem formada contextualização temporal durante o folhear das páginas. À medida que a história vai transcorrendo, as revoluções e notícias que marcaram a história do Brasil e do mundo vão sendo citadas e comentadas acidamente pelo protagonista, em uma visão pessoal de mundo.

Nos anos 70, as feministas vieram com tudo. Veio a Betty Friedan e o Women’s Liberation March e os seus sutiãs queimados etc. […] Nos anos 70, teve O Dia do Chacal, a guerra civil de Angola e o nascimento daqueles barangas do Queen. O Mao morreu na China, e Rocky, o Lutador, deu a cara do Sylvester Stallone para bater. Os Muppets chegaram para alegrar nossas vidas e nos fazer esquecer que Elvis havia morrido. David Bowie começou sua metamorfose, e Johnny Rotten botou pra foder nos Sex Pistols. […] No final dos anos 70, surgiu o Lula, depois veio o PT.

Nos anos 90 Yeltsin declarou a independência da Rússia. Eu queria ter conhecido esse Yeltsin. O cara era bom de copo, sabia beber umas que outras. […] Em 90, surgiu o Collor e sua gangue neoliberal, e o Brasil nunca esteve tão corrupto.

O personagem raramente conta um episódio que passou estando sozinho em sua vida, mas frequentemente se sente como tal. Durante esse anos permaneceu vivendo em um estilo de vida desregrado e canalha. Francisco explica, psicologicamente, como sua vida tornou-se desse jeito.

Quando todos já não gostavam mais de andar de bicicleta, nem eu mesmo, meu pai resolveu me dar uma de Natal. Pedi a ele ou uma Monaretta ou uma Caloi dobrável, que eras as bicicletas que todos tinham. Uma semana antes do Natal, chegou a minha bicicleta. Nem uma Monaretta nem uma Caloi, mas uma bicicleta made in Brazil, chamada Bandeirante. Era uma bicicleta para uma criança de 6 anos, e eu tinha 10. […] A minha Bandeirante era supostamente uma bicicross. Assim, nesse estado de transe, em que eu tentava provar para mim e para todos uma coisa na qual nem eu mesmo acreditava, jogue-me de corpo, alma e bicicleta na minha primeira manobra radical. Ao descer da calçada, o frágil guidão quebrou.[…] Eu entendi, de uma única vez, a minha condição de ter nascido pobre, de ter menos que os outros. Entendi que tudo o que tinha vivido antes não tinha sido por acaso. A pobreza fazia parte de mim, assim como meus braços, minhas pernas, meu nariz. Compreendi que tudo na minha vida, daquele momento em diante, seria assim. Os meus sonhos nunca teriam limites, mas a sua contrapartida, ou melhor, a realização dos sonhos, estaria eternamente comprometida. Entendi que para o resto da minha vida teria somente parte daquilo que eu desejava. E para mim isso foi um alívio. Daquele dia em diante eu poderia escolher as minhas ilusões. Foi assim que deixei minha alma marinando na tristeza. E a minha vida ficou para sempre com gosto de dor.

Ao longo da narrativa a explicação se repete:

Hoje me dou conta de que depois daquele episódio não consegui mais me abrir para o mundo. Estou falando de uma abertura emocional. Fechei-me, tornei-me inseguro, Mas tudo isso estava escondido. […] O garanhão, canalha, era a minha máscara preferida, porque chamava tanto a atenção das pessoas, as distraía tanto que ninguém jamais mudava de assunto e dizia “bem, agora vamos falar com você”.

A narrativa da obra remete a uma história autobiográfica pelo seu estilo sincero e franco, sem rodeios para falar palavrões e utilizar linguagem coloquial. Seja em diálogos ou em divagações, a proximidade entre a ficção e a realidade aparenta ser muito pequena pela forma com que Neto narra os episódios.

E a gente rindo. Daí eu falei que tinha transado sem camisinha, que tinha comido o cu dela e tudo. E disse que tava morrendo de medo de ter pego aids dela. Então o meu amigo disse que também tava morrendo de medo de ter aids. Daí ele começou a chorar. Daí eu comecei a chorar com ele. Os dois com medo de morrer de aids.

Não há como ser mais sincero e se aproximar mais da realidade do que isso. Neto fala da vida com a sensibilidade de alguém que já vivenciou momentos de felicidade, tensão e angústia. Não existe palavra feia. Há aquele tipo de escritor que evita palavrões em seus livros. Hesita até mesmo em falar “merda”, mas chama de “filho da puta” o motorista daquele celta prata que passou cortando a preferencial no trânsito. Neto, com muito sucesso, narra a trama de forma poética e verossímil.

E Katy ria. Ela gostava pra cacete de rir. Na Finlândia, o pessoal não ri. Toma vodca e não ri. Katy ficava só me olhando, como um cachorrinho olha para o dono, esperando que eu jogasse uma piada para ela. Eu jogava. Ela ria. E abanava o rabinho. Branco, durinho. Katy tinha um belo rabo. Dezoito aninhos. Fernando Costa, um amigo cearense, sempre dizia que as mulheres se apaixonam por homens que as fazem rir. E os homens se apaixonam por mulheres que os fazem chorar. Eu estava fazendo Katy rir e pedindo a Deus que ela nunca me fizesse chorar.

Mãe na Zona tem outra (mais uma) boa particularidade: os subtítulos. A cada nova passagem há uma epígrafe explicando de maneira bem humorada o que é ter a mãe na zona. Estas epígrafes fazem parte da crônica que deu origem ao livro.

Mãe na zona é um impulso de vida suicida. É uma vontade de ser algo que ainda não se sabe.
Mãe na zona é cometer um erro atrás do outro e acreditar que a soma dos erros é o maior acerto.
Mãe na zona é perder a memória no dia seguinte. É confundir os fatos, as datas, os amigos e não saber mais quem se é. Mãe na zona são flores artificiais.
Mãe na zona é ir às reuniões mistas do AA em busca de companhia feminina.

Se este artigo não o convenceu o suficiente para ler, deixo que Luís Fernando Veríssimo, autor deste belíssimo prefácio faça a sua tentativa.

O Toninho é um dos melhores entre os (poucos) humoristas de texto do Brasil, e uma das pessoas mais originais que conheço. Não é como alguns, que parecem originais, mas você vai ver é xerox. O Toninho Neto é ele mesmo. Ou então é uma falsificação perfeita, o que dá no mesmo. Dele pode-se dizer que pensa engraçado. Tem um texto criativo. O sonho dele é um dia fazer um texto totalmente em branco, só de entrelinhas. Enquanto não consegue isto, vai trabalhando com linhas. E que linhas. Olhe aí dentro e comprove. O homem é único. Ainda por cima é um grande cara. E, pelo que sei, um bom filho.

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Flaubi Farias

Jornalista, parolo, navegador, alienígena e editor do La Parola.
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