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Volta e meia, nos estudos de artigos, leituras de textos e discussões, me pego na questão da crise do jornal impresso. Para muitos, um tema chato, já muito questionado e debatido e, por isso, trivial. Porém, somo a isso – outro assunto que também tem se encontrado muito nas minhas pautas pessoais – o jornalismo literário, que é aprofundamento, vivência e um “quê” de parcialidade. O que eles têm em comum?

O advento de uma nova era trouxe consigo a crise de outras. O mundo digital ganhou um espaço imensurável e tornou o papel um pouco mais obsoleto – embora ainda muito disputado. As matérias rápidas, notícias imediatas, reportagens audiovisuais e o imediatismo trouxeram para o mundo jornalístico uma discussão que pauta o futuro dos profissionais: o jornal impresso vai sobreviver? A discussão não envolve só as redações. Os leitores são também muito afetados pela nova onda tecnológica: tornaram-se mais acomodados, relaxados nas telas de computadores e pouco interessados na investigação e na história do fato. Isso me faz apresentar uma solução um tanto óbvio para o jornal impresso, além de afirmar: ele pode sim sobreviver.

A minha primeira premissa é a de que o diferente deve adquirir certo lugar no antigo. Se estamos acostumados aos leads prontos da internet, por que retroceder o impresso a essa maneira rápida de se fazer jornalismo? Não. O impresso precisa inovar. Precisa sair da zona de conforto de que diminuir os seus textos é a única solução ou que aumentar as imagens pode ser uma saída. Por que não contar histórias? O jornalismo literário pode ser uma válvula de escape para quem não quer ver o papel se extinguir. A ideia é que se busque um veículo diferente em meio à enxurrada de notícias nos tempos atuais.

A verdade é que o número de assinantes poderia diminuir, mas o que se pensa também não é na extinção do jornalismo tradicional. É apenas uma forma de acrescentar ao que está decaindo algo novo e que instigue o leitor a procurá-lo. Ao invés da notícia pronta, dos dados metodicamente trabalhados, da transmissão estática dos fatos, por que não se aprofundar e contar o que aconteceu? Por que não participar do caso e transmitir assim uma maior verdade? Por que não contrariar a frieza do jornalismo convencional e lançar mão do mito da imparcialidade? Esse negócio não existe. Cada texto possui um pessoal do autor e cada autor expõe em seu texto um lado também seu. Os fatos não se tornam menos verídicos devido a uma inserção de subjetividade e reflexão, e é justamente por esse ângulo que o Jornalismo Literário caminha.

A questão é que eu não acredito que para o jornalismo impresso sobreviver ele tenha que se galgar no meio digital. Não! No mínimo, adquirir uma mistura com esse novo meio, mas nunca se entregar. Pode ser conservadorismo da minha parte não querer abrir mão do antigo, do que vai se tornar obsoleto um dia – se já não estiver. Mas em uma entrevista realizada com o editor-chefe de um jornal da minha região, eu ouvi a seguinte frase:

“Achávamos que o jornalismo impresso iria morrer com o surgimento do computador. Mas em cada equipamento daquele vinha uma ou duas impressoras. O impresso tem, no mínimo, 100 anos pela frente. Enquanto nós digitarmos, enquanto pudermos escrever, ele vai viver.”

Isso me aliviou ao máximo. E cada vez que ouço essa pergunta, uma única resposta vem a minha mente: o jornalismo impresso vai sobreviver, mas não é pautado no meio digital que ele vai conseguir. Não é fazendo igual que podemos nos reerguer ou não deixar decair. Afinal, quem vai querer ler um jornal quando o seu mote se faz igual ao da internet? Enquanto o novo ainda estiver sendo proposto para o impresso, ainda temos esperança dele não acabar. O jornalismo literário é, sem dúvida, uma saída para não deixar o cotidiano morrer. Essa vertente pode não ser a grande salvação do meio jornalístico, mas é, sem dúvida, um sopro de esperanças para jornalistas, leitores e empresários.

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