COMPARTILHE

Mesmo com o preconceito com o estilo musical, ainda que seja coisa de marginal, é impossível não se marginalizar, não querer sair do centro das atenções e fugir para as margens, uma vez na vida querer ser o regressor, se rebelar contra o sistema vigente e carente, de oportunidades sim, mas muitas vezes carente até mesmo pela falta de dente, a pobreza assola a maioria, é fácil julgar como errado sentado no seu sofá sem perder metade da vida de Pirituba a Santo Amaro, sendo pobre, sofrendo, mas ainda vivendo, e sobre tudo isso vendo, que não tem pra onde fugir, que a fome aperta antes da chance de mudar, que batalhar é a única opção, falta de visão é o começo da repressão, não julgue a música antes de conhecê-la, ritmo e poesia sempre, Rap é o som!

A nível nacional é impossível questionar que Racionais MC’s é o grupo de Rap mais popular. Mesmo que não seja a melhor das realidades, é muito provável encontrar alguém nas ruas de qualquer quebrada que conheça o Mano Brown mas não conheça Raul Seixas, portanto, conhecer o Rap nacional é conhecer também os Racionais, e como todo grupo de Rap, sua história não é nenhum conto de fadas, não começa com nenhum ‘Era uma vez’, ela começa um pouco mais embaixo, descendo ao extremo sul, você conhecerá o começo da trajetória de um dos maiores grupos da música brasileira.

Quatro pretos sem prospecção e nem esperança de futuro, fazendo um som, uma dupla na Zona Norte e outra no extremo Sul das favelas da cidade de São Paulo, esse é o Racionais, um exemplo de Rap e um exemplo de vida.

O símbolo dos Racionais, Mano Brown, vindo do funk e do samba, recebeu seu nome quando nas rodas de samba na sua quebrada, no final do samba, sempre sobrava um tempo para puxar um som com a percussão, e Brown optava por um som gringo, um funk um soul, e pra zuar com a cara do Brown, os caras na roda já apelidaram o mesmo de ‘Janis Brown’.

Ice Blue era primo de Mano Brown, crescidos no mesmo terreiro, lutando pelo mesmo som, na mesma revolta, fazendo um som pela quebrada, na São Bento até o Centro Sul de Santo Amaro, começando como A.C Blue e D.C Brown – Antes do Capão Blue e Depois do Capão Brown – fazendo shows para dez, vinte pessoas, mas sempre com letras fortes contra a repressão racista, contra a polícia e contra o sistema opressor.

Numa casa de Rap na Brigadeiro Luis Antônio, se encontravam 30 ou 40 fãs de Rap, quando subiram no palco Edi Rock e KL Jay- uma dupla de rappers que subia com apenas a picape de madeira que carregavam embaixo do braço e muito talento – a dupla da zona sul ficou em choque com tanto entrosamento e afinamento de DJ e MC, houve uma identificação na hora, Brown reconheceu um talento de rima e de discotecar que poucos teriam, e assim nasceu os Racionais MC’s.

Quando o grande Milton Sales, que é um capítulo à parte na história do Rap, observou a arte daqueles jovens músicos nas ruas da São Bento, enxergou neles uma música de resistência absurda, enxergou algo grandioso ao ponto de conseguir mudar a sociedade brasileira de um modo que só não superaria a mudança lírica feita por Geraldo Vandré.

Milton Sales investiu como pode nestes quatros encontrados das quebradas e fez um milagre pro Rap nacional.

É incrível como de tão pouco apenas com o dom e a vontade de crescer quatro homens mudaram a história de um povo, de toda uma favela, e se tornaram grandes líderes e influências na massa pobre, fizeram história no mundo da música diversos momentos e serão sempre referência de boa música e de cultura popular nacional.

E este foi o surgimento – só um aperitivo – de como cresceu uma flor do lixo, a esperança de quatro negros que contrariaram as estatísticas e trouxeram uma gota a mais de vida a todos que já tinham morrido, orando de forma lírica para ‘que o mano não morra, mas que também não mate’, contra um sistema opressor Mano Brown, Ice Blue KL Jay e Ed Rock lutaram com tudo que puderam, buscaram referências mesmo nas ausências de oportunidade e fizeram a maior luta nacional da história do favelado contra a criminalidade.

Fazendo referência a Cidadão Kane, Madame Nagô, Dimas – o primeiro ‘Vida Loka’ da história – e inúmeros outros personagens e histórias, aproveitando seu ‘sabadão na Marginal com o seu melhor Marvin Gaye’, Mano Brown mostra que preto e favelado tem que fazer duas vezes mais, duas vezes melhor, buscar duas vezes mais, parar de viver de ilusão, saber onde e como procurar, saber que existe cultura mesmo nos extremos do capão, que se você fizer por onde você alcança, que suas chances são mínimas, inspirando e ainda respirando mais de 50 mil manos, tentando mudar para sempre suas realidades.

Milton Sales falando no Estação Periferia sobre o surgimento dos Racionais MC’s, e de brinde um pouco do grande Dexter falando de sua história:

Mano Brown e Milton Sales em cima do palco, o respeito um com o outro é algo sem igual, Brown chega a chamar Milton Sales de seu ‘mentor intelectual’, um vídeo espetacular:

Para conhecer melhor as histórias do rapper e de seu grupo, assista a entrevista que ele deu para o João Gordo:

Se você não conhece ainda, conheça, é Racionais MC’s, é cultura do seu país, escuta esse dvd, ‘mil trutas, mil tretas’, com a participação do mestre Jorge Bem Jor:

Gostou do que viu aqui?

Todo sábado enviamos um e-mail com os artigos da semana. Entre em nossa lista:

Gustavo Silva

Gustavo Silva

Projeto de publicitário e de redator, de ouvido e olhos sempre atentos.
Gustavo Silva