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No dia 13 de março de 1964, uma gerente de bar chamada Kitty Genovese estacionou seu Fiat vermelho em uma vaga desocupada na região de Kew Gardens, bairro do Queens, Nova York, onde a moça morava com sua namorada Mary Ann Zielonko.

Era 3h15 da madrugada. Enquanto ela caminhava para casa, que estava a 100 metros de distância do estacionamento, um homem chamado Winston Moseley a observava do outro lado da rua, totalmente camuflado pela escuridão. Instantes depois, Kitty ouviu o som de passos por detrás dela, e o que se seguiu foi pânico absoluto.

O assassinato de Kitty Genovese

Quando percebeu que estava sendo seguida, Kitty tentou correr, mas foi em vão. Winston Moseley foi rápido e agarrou a moça pela camisa, jogou-a no chão e a executou com três facadas profundas nas costas. Antes de morrer, Kitty ainda tinha forças para gritar:

“Oh Deus, ele me esfaqueou, me ajudem!”

Mas ela não obteve misericórdia.

Na mesma rua, um homem chamado Robert Mozer ouviu os gritos de Kitty da janela do 7º andar do prédio onde morava. Ele viu um homem correndo e uma mulher estirada na calçada, do que gritou o mais alto que pôde:

“Deixe essa menina em paz!”

Michael Hoffman, um garoto de 14 anos, também ouviu um barulho. Após observar a cena, ele foi contar a seu pai, Samuel, o que testemunhou. Samuel imediatamente chamou a polícia e narrou o que havia ouvido do filho, mas os oficiais não deram nenhuma importância ao seu relato.

Joseph Fink, que trabalhava no prédio vizinho ao de Kitty, viu os ataques com seus próprios olhos e não fez absolutamente nada. Depois que Moseley, o assassino, fugiu, ele simplesmente desceu ao porão para tirar uma soneca. O que ele viu lhe causou sono.

Outra testemunha, Karl Ross, ligou para a polícia como Samuel Hoffman havia feito. Dessa vez o chamado veio, e às 4h15 da manhã Kitty estava sendo levada pela ambulância, que não chegou ao hospital a tempo de socorrê-la devidamente.

Moseley foi preso e sentenciado à morte no dia 15 de junho de 1964, cerca de três meses após a ocorrência. Inicialmente Moseley não confessou o assassinato mas, quando ficou em custódia, seu advogado o convenceu a mudar o discurso e declarar a culpa.

Dessa forma, Moseley conseguiu reduzir a pena: da morte para uma vida inteira na prisão. Hoje, aos 79 anos de idade, ele é o preso mais antigo do sistema prisional de Nova York.

Esse assassinato adquiriu rapidamente o status de mistério. Duas semanas depois do crime, o jornal The New York Times fez uma cobertura sobre o caso, e o editor era Abe Rosenthal. Em nota, ele descreveu:

“O que é interessante sobre esse evento é que nada menos do que 38 pessoas vieram às suas janelas às 3h da manhã em resposta aos gritos de terror, e permaneceram em suas janelas por incríveis 30 minutos, que foi o tempo necessário para que o assaltante completasse seu ato terrível, o que ele fez em três ataques seguidos.”

Ao todo, 38 pessoas testemunharam aquela cena de assassinato, mas nenhuma delas agiu em socorro à Kitty. Todas essas pessoas assistiram à execução de uma mulher inocente, que foi abordada covardemente por um homem com sede de matança, e escolheram o anonimato à justiça.

O resultado desse dilema moral foi o insight que fez os psicólogos Bibb Latane e John Darley descobrirem o fenômeno que eles denominaram de “Problema do Espectador”.

O problema do espectador

Quando chegou ao conhecimento da mídia que 38 pessoas ignoraram um assassinato brutal cometido à sua frente, Darley e Latane quiseram descobrir o que motiva as pessoas a prestar auxílio em situações de emergência envolvendo crimes.

Eles descobriram, surpreendentemente, que o principal fator que influencia na disposição das pessoas para ajudar é o número de testemunhas presentes. Para chegar a essa conclusão fatídica, eles realizaram alguns experimentos.

Um deles foi o seguinte: eles pediram a um garoto para encenar um ataque epilético no meio de uma sala. Quando havia uma pessoa fazendo companhia, essa pessoa corria para ajudar o garoto em 85% das vezes. Porém, se havia mais do que quatro pessoas na sala, uma pessoa corria para ajudar o garoto em apenas 31% das vezes.

Em outra experiência, pessoas que estavam em uma sala e viam fumaça saindo por baixo da porta relatavam o incidente em 75% das vezes quando estavam sozinhas, mas apenas em 38% das vezes se estivessem em grupo.

Isso implica que, quando estão sozinhas, as pessoas consideram sua linha de pensamento como unicamente racional, e então elas tomam decisões mais facilmente. Mas, quando estão em grupo, a responsabilidade de agir fica mais confusa ao supor que o outro irá tomar uma decisão, ou então que o problema não é real.

O que os psicólogos argumentaram no caso de Kitty Genovese é o seguinte: o importante não é o fato de ninguém ter agido quando 38 pessoas ouviram os gritos de Kitty, mas sim o fato de que ninguém agiu porque 38 pessoas a escutaram gritar.

Se houvesse apenas uma pessoa como testemunha, talvez Kitty ainda estivesse viva. Mas, como 38 assistiram, sua morte virou um espetáculo.

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  • Jéssica Riceli

    Olá Eduardo Ruano! Estou escrevendo sobre o efeito espectador e me interessei pelo seu artigo. Queria que me informasse, se possível, as referencias utilizadas nesse trabalho.