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Uma nuvem carregada e escura de retrocesso está pairando sobre a Câmara Federal e, consequentemente, sobre nossas cabeças. Em menos de umas sete horas, eu acredito, li a notícia sobre criação e oficialização do Partido Militar Brasileiro (PMB), que pode adotar o número 64 ‘’em homenagem à nossa revolução democrática’’; o desarquivamento de dois projetos estapafúrdios, o do Dia do Orgulho Hétero e o do ensino obrigatório do criacionismo em escolas; e, por fim, mas nem um pouco melhor, a aceleração do projeto que inibe a adoção de crianças por casais gays. Juro que depois de fazer as leituras me perguntei três vezes quando será o momento em que um projeto que de fato demonstre interesse em progredir, melhorar e transformar o Brasil será colocado em pauta — mas tem de vir deles, oras.

Eduardo Cunha, que em duas ocasiões já foi comparado a Frank Underwood (e com razão!), junto a tantos outros deputados que o acompanham nesse barco que navega de volta à Idade Média, enfrenta uma dificuldade quase patológica (e hereditária) de entender que não há justificativa para a proibir a adoção de uma criança por um casal homossexual. De verdade, não há. Mas como seu conservadorismo e posição religiosa são de conhecimento público, não há dúvidas da origem desse projeto que vai contra valores básicos de humanidade, e que por ele são ignorados. Quem bate palmas é a bancada evangélica, um aglomerado de fundamentalistas, uma espécie de câncer legislativo, que foi a autora da proposta. Na verdade, Cunha é o mais esperto dos fundamentalistas e oportunistas. Ele tira vantagens nada republicanas do governo federal para si.

Alguns momentos de sua vida política e pessoal dão calafrios a mim e a muitas outras pessoas, mas, infelizmente, não foram o suficiente para impedir seu cargo de presidente da Câmara. Eis alguns deles: escândalo de superfaturamento em contratos da Telerj quando era seu presidente (1991 a 1993), falsificação de documentos públicos, negócios com um traficante colombiano (não era o Escobar), criação do projeto da criminalização da heterofobia em 2010 — ora, ele se sentia descriminado pelos LGBTs. Estamos em 2015 e quem o elegeu ainda não possui seriedade em relação a regimento de leis, projetos etc que sirvam à população, e que não a faça de idiota. A gente faz papel de bobo o tempo todo.

O vislumbre de um país mais dividido e atrasado com Cunha comandando a Câmara pelos próximos anos é assustador. Ele é um grande contratempo na aprovação de projetos democráticos e inovadores. O roteiro que há muito tempo vem sendo redigido para tornar real a criminalização da homofobia, os projetos que revisam a política de drogas, a manutenção da lei do aborto, entre tantas outras causas sociais progressistas, corre grande risco de ficar engessado. E isto não é à toa, afinal, se dependesse dele, o Marco Civil da Internet não teria saído do papel, já que ele tinha (e tem) um posicionamento contrário à neutralidade da rede.

Alguém como Cunha ser o escolhido para presidir uma Câmara Federal e uma bancada RELIGIOSA que enaltece suas ideologias e fundamentalismos acima de tudo — veja bem, não importa se é cristã, espírita, umbanda, um país que é laico não pode ter interferências de nenhum credo ou religião em sua política — é um baita e violento retrocesso. Mais do que nunca é necessária a união de movimentos sociais para derrubar qualquer ideia que venha ferir os direitos que, com muito custo, foram conquistados. E, claro, os que estão por vir, afinal uma nuvem carregada faz parte de um ciclo, e em algum momento ela é substituída.

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Natielle Castex

Procrastinação, softporn e tão eclética quanto mainstream. Profissional do ping pong. Rezo para o Fluminense mas não torço por nenhuma religião.