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Quinze de março de dois mil e quinze foi ainda há pouco, mas a data já amanheceu histórica. Uma massa significativa de brasileiros foi às ruas protestar. No entanto, muita gente graduada em dissidência escolheu não participar das manifestações, que angariaram milhares de insatisfeitos com o governo Dilma Rousseff. Seria por estarem satisfeitos com a administração da presidenta? Não, ou ao menos não necessariamente. Fenômenos sociais são inexoravelmente complexos, por mais que o debate acerca deles falhe em sê-lo. No entanto, outros autores já discorreram sobre as faltas e glórias deste governo, e em meio a críticas legítimas e necessárias à gestão dos últimos anos, vale também fazermos uma reflexão a respeito da linguagem com que o tema vem sendo debatido no país.

Esta é a pauta deste texto: como o debate se desenrola no Brasil, e as possíveis consequências da nossa aparente (des)articulação dialógica. O tema foi espontaneamente dividido em cinco subtópicos: Prosa, onde discorro sobre a importância do diálogo generoso no processo democrático; Polarização, onde considero os perigos de pautar o discurso público em binários opostos; Protesto, onde pondero sobre os méritos da manifestação pública; Política, onde visei contextualizar essa análise no cenário político atual; e Pandemônio, onde me propus a examinar os potenciais danos oriundos de um ambiente de debate no qual “calar o oponente” é tido como estratégia apropriada.

1. Prosa

O processo democrático ideal requer que o diálogo ocorra. Se não ocorrer, a própria ideia de democracia começa a parecer falaciosa. Todo estado democrático, por sua própria condição, é composto de uma pluralidade de identificações partidárias, posturas ideológicas e opiniões políticas, mas a existência desta multiplicidade nem sempre encontra, ou fomenta, terreno fértil para o diálogo generoso. Aos sistemas nos quais uns são obrigados a concordar com a verdade de outros, ainda que diametralmente opostas às suas, chamamos “ditadura”; é somente a democracia que requer e permite que se aceite, e talvez se tenha apreço, pela existência de divergências.

A Escola de Atenas, de Rafael
A Escola de Atenas, de Rafael

Julgar inferiores a inteligência, a agência, a autonomia e o caráter de quem demonstra posturas políticas diferentes das nossas é, francamente, desrespeitoso. Configurar uma posição diferente como absolutamente abjeta denota pouca capacidade para empatia na melhor das hipóteses, e soberba na pior. (Aqui me refiro àqueles que creem veementemente que quem não concorda consigo está, e só pode estar, inteiramente errado.)

É difícil iniciar, manter, e desdobrar uma conversa com pessoas que demonstram não ouvir generosamente, e que são afeitas a reducionismos.

Ouvir generosamente requer no mínimo duas ações: ouvir fisiologicamente e ouvir metafisicamente. Ouvir fisiologicamente quer dizer criar espaço físico para que a fala do outro seja possível. Isso implica deixar o outro falar de fato, resistir à tentação de calá-lo. Gentes que interrompem, que não permitem ao interlocutor se expressar integralmente, impedindo-o até de terminar uma frase, são gentes que não ouvem bem, ainda que tenham audição supersônica. Ouvir metafisicamente quer dizer criar espaço mental para dar a devida consideração ao que o outro está dizendo. É permitir que a fala do outro adentre os pensamentos, para responder somente após ponderar sobre a extensão de seu ponto de vista, tendo considerado aquilo que é válido, bem como tendo respeitosamente exposto o que é falho. Gentes que até ficam quietas, até parecem estar escutando, mas quando respondem demonstram não ter processado nada do que foi oferecido, também são gentes que não ouvem bem, ainda que tenham dado o tempo do dia para uma aparente escuta fisiológica.

O interlocutor reducionista, por sua vez, pode até escutar, mas demonstra desinteresse, ou dificuldade, em dar a atenção devida a argumentos complexos que requerem engajamento em diversos níveis, sejam intelectuais ou emocionais. O reducionista está acostumado a acreditar que fenômenos e teorias sofisticados – como a situação política de um país, ou as reivindicações multifacetadas de movimentos sociais – podem ser explicados por suas partes constituintes mais simples. Assim, para reducionistas, quem votou na Dilma só pode ser ignorante ou mau-caráter; quem votou no Aécio só pode ser rico e privilegiado; o MST só faz vandalismo; os negros não precisam de cotas afinal os brancos não as têm; as feministas só podem estar querendo exterminar os homens; etc.

O debate com gentes assim se prova impossível, pois a energia utilizada é unilateral. A conversa não chega a constituir um diálogo, mas sim dois monólogos concomitantes. E não importa o quão didática uma das partes seja: se o interlocutor não estiver sequer disposto a ouvir os argumentos apresentados, é bastante improvável que vá deliberar sobre eles. Assim, o esforço comunicativo é, lamentavelmente, em vão.

2. Polarização

A falta de vontade, ou aptidão, para dialogar generosamente evitando reducionismos é solo fecundo para a criação de um outro fenômeno: a polarização ideológica, que acaba por se apresentar de forma gritante e memética nos discursos públicos. Vale notar que nem toda polarização é deliberadamente mal-intencionada, e que muitos dos que são acusados de “polarizadores” não o fazem deliberadamente, mas acabam por fomentar esse fenômeno através da repetição de discursos prontos sem a contemplação adequada. De toda forma, as consequências de alimentar esse modo de diálogo coletivo podem ser devastadoras e perigosas para além de tornar rasas reflexões que deveriam ser profundas. Fenômenos sociais são intricados e, por isso, o debate útil a respeito deles também deveria ser.

Vivemos um momento atribulado e importante da história do país, e insistir na dicotomia “Elite Reaça X Petralhas Esquerdopatas” que inflama as mídias sociais só faz afastar tudo e todos da ideia de uma dialética verdadeiramente democrática. A polarização mais recente é a que implica que as manifestações do final de semana tenham sido compostas exclusivamente de revoltados do impeachment, ou do fã-clube do Dilmão. E ao fazer isso, joga-se no lixo toda a humanidade e complexidade dessas pessoas, tratando seu engajamento político como inferior e indigno de ser levado em consideração.

polarização azul vermelho
Foto: Robert Couse-Baker | Flickr

 

Tenho chamado esse mau hábito discursivo, em conversas com amigos e na minha presença social, de “Politibol”. Parece existir uma tendência a apelar para um certo “Fla X Flu Ideológico” nas discussões, onde participantes bradam fidelidade a bandeiras partidárias como se fossem torcedores que defendem seus times apaixonadamente. O que fica de fora, parece, é a necessária conjectura acerca da extensão e multiplicidade do espectro político.

3. Protestos

Em junho de 2013 eu não morava no Brasil, e assisti com surpresa, excitação, e otimismo, o furor com que as ruas foram tomadas por reivindicações. A pouca idade da democracia brasileira e a consequente falta de hábito da população em expressar descontentamento via insurgência me pareceu ser motivo para celebração.

A medida que aqueles dias da junhada foram passando, no entanto, minha animação foi sendo trocada por preocupação. A agitação, que começou por vinte centavos, logo passou a servir de palco para muitas indignações aparentemente desconectadas. Todavia, como esse carnaval de insatisfações polivalentes estava alinhado com aquele apresentado em uma série de ondas globais de protestos, começadas já em 2010 com a Primavera Árabe, passando pelos Indignados na Espanha, e chegando ao movimento mais midiado e midiático de todos eles, o #Occupy, não dei a atenção devida à natureza catártica das manifestações daqui. Estes movimentos me pareciam estar reverberando a expressão coletiva de frustrações de uma geração globalizada.

cartaz-coisa-errada
Junho/2013

 

Nesse período, uma pessoa caríssima, e que senta no polo ideológico oposto ao meu, me alertou para a possibilidade de que manifestações amorfas como as que estávamos presenciando, justamente por sua falta de bandeira identificável e clareza organizacional, corriam o risco de ser usurpadas por forças obscuras. Dei ao argumento menos consideração do que deveria, e segui defendendo a ideia de que as pessoas têm o direito de sair para as ruas, independentemente de como seus gritos possam vir a ser utilizados justamente para o efeito oposto àquele inicialmente desejado.

O tempo passou. Wall Street voltou a ser abrigo somente de banqueiros. Déspotas caíram no mundo árabe, mas a violência do estado desde então parece ter aumentado. Na Europa, uma guinada conservadora cativou simpatizantes de forma expressiva. E, de volta ao Brasil, assisti assustada a todos os “embates” pré-eleitorais. O resultado, conhecido, foi a reeleição da presidenta, ainda que em segundo turno, e por um triz.

Sigo acreditando que mobilizações populares sejam fundamentais para a construção de espaços regionais, nacionais e globais mais justos e inclusivos, e que somente quem sente a navalha na carne pode se organizar para que o corte ou não aconteça, ou seja interrompido, ou ao menos seja menos profundo e sanguinolento.

E, neste ponto, passei a concordar com meu confrade direitista: a importância de pautas claras e definidas (além de verdadeiramente democráticas, pois um mínimo de coerência nos indica que o próprio conceito de “manifestações públicas” somente cabe em contextos democráticos) parece ter sido uma das lições mais importantes deste pubescente levante nacional.

Apesar de muitas das queixas apresentadas por manifestantes do último domingo serem compreensíveis, e apesar do descontentamento ser plausível, muito do que vimos foi risível e às vezes assombroso.

É certo que alguns estiveram lá por estarem exaustos de viver numa nação assolada pela corrupção (embora eu duvide que alguém seja a favor da corrupção, o que faz desta uma queixa cheia de boas intenções, mas vazia de pautas concretas), bem como é certo que tantos outros aderiram à barafunda no afã de exigir reforma política (o que é urgente, e parece ser ponto pacífico da escala que vai de “esquerdopatas” até “reacinhas”). Também é certo que estas queixas evidenciam uma fadiga generalizada, e são razoáveis, então seria irresponsável e contraproducente deslegitimá-las.

Mas um volume crítico (de vozes nem tanto) insistiu em protestar abusando de simplificações reducionistas. De casa observei a passeata marchar, impávida, aos gritos de #foraPT, #fora Dilma, e #impeachment – como se somente este partido apresentasse uma face corrupta, e como se revogar a decisão soberana das eleições exigindo que um sério dispositivo legal seja ativado sem que haja (até o momento) base para tal, não fosse oferecer ainda mais riscos e perdas do que soluções e ganhos para a ainda incipiente democracia brasileira. Ademais, apesar da combinação do compreensível e esgotamento civil e da lamentável qualidade da educação política no Brasil, nada justifica o aparecimento de iconografia fascista, pedidos por intervenção militar, e fanatismo religioso numa manifestação democrática.

O direito ao protesto não deveria ser tão facilmente apropriado por projetos totalitaristas, e o poder da ação coletiva nas ruas não deveria ser tão complacentemente usurpado por forças que visam, justamente, sustar o poder da ação coletiva nas ruas.

4. Política

Durante o processo eleitoral de 2014, e de forma intensificada após os resultados, passamos a ouvir com mais frequência, e de forma agressiva, algumas dessas vozes reducionistas e polarizadoras.

Ao ser dada a largada da corrida pela presidência, pressupus que estaríamos atentos ao modo hegemônico com que alguns dos meios de comunicação, com sua retórica inflada e enquadramentos parciais, apresentavam informações sobre o governo. Da mesma forma, deliberei, todos sabíamos que governos dispõem de estruturas comunicativas que, por sua vez, também apresentam seus feitos de forma seletiva. Por isso pensava ser garantido que os interessados em política estariam fortemente investidos no dialogo democrático, usando abundantemente do senso crítico que o acompanha. Não acreditava ser possível que quaisquer informações apresentadas por uma instituição ou outra fossem ser tão facilmente reproduzidas no discurso público sem que o mensageiro engendrasse o mínimo de análises comparativas. Durante a campanha pelo pleito ficou bastante claro que minha impressão fora errada.

Equivocadamente, também pensei que, uma vez revelado o resultado das eleições, a comprovação da vontade da maioria seria democraticamente aceita, e respeitada; imaginei que quem saísse perdedor passaria então a organizar uma oposição articulada, madura, e similarmente democrática. O que vimos, com estupefação, foi que muitos percebem-se aquém e além dos efeitos dos poderes políticos Mídia e Estado. E o que sucedeu passou a ser medonho.

Polarizadores reducionistas da oposição passaram a vociferar, com veemência soberba, que quem elegeu a presidenta foi o zé-povinho ignorante (e, ai, de uma região específica do país!), manipulado por bolsas-tudo, que se aproveita de um estado assistencialista para viver às custas do cidadão de bem pagador de impostos; ou ainda, valha-me Deusa, por uma esquerda caviar hipócrita, alucinada e desmiolada. Por sua vez, os polarizadores reducionistas simpatizantes do governo, com similar fervor arrogante, passaram a insistir que a turba de insatisfeitos é composta apenas de uma elite branca e rica, que não suporta ter seus privilégios destituídos, e bate panelas gourmet por achar inaceitável que os historicamente “subalternos” passem a viver como os historicamente “diferenciados”.

E apesar de uma fatia dos opinadores realmente pensar desse jeito, a verdade é mais variada do que isso. Muitos dos refutadores do candidato Aécio Neves viam em sua eleição a possibilidade de retrocessos consideráveis, e muitos dos seus votantes depositavam em sua eleição a confiança nas vantagens da alternância de poder. Semelhantemente, muitos eleitores da então candidata Dilma Rousseff optaram pela manutenção de um governo que promove medidas sociais, e muitos dos que se eximiram de contribuir para sua eleição o fizeram por considerar tais medidas insuficientes. Além disso, muita gente votou no Aécio por odiar a Dilma, na Dilma por odiar o Aécio, na Luciana Genro por protesto, no Levy Fidelix por religião, e nulo, em branco, ou se absteve por desacreditar nisso tudo que tá ai… e assim por diante, em numerosas permutações. Dentro do nosso processo eleitoral todas essas opções são igualmente válidas. E a verdade é que ainda que eu ou você achemos que uma dessas opções não seja perspicaz, temos que respeitar que ela pode, e deve existir, cuidando para não tachar quem optou por algo diferente do que julgamos ser correto de ignorante, ou de mau-caráter.

Na política, e na vida, ocorre que pessoas são diferentes, e tem motivações distintas, e valorizam coisas diversas, e engajam com governança de forma plural. É importante respeitar escolhas alheias, mesmo discordando profundamente delas. E é fundamental respeitar seus direitos, inclusive, e principalmente, o de exercer autonomia política e social.

Estereótipos não dão conta de representar a complexidade dos seres humanos que se encontram por detrás deles. Um dos grandes perigos da falta de diálogo generoso, da insistência no reducionismo, da polarização excessiva e, agora sabemos, de manifestações amorfas, é a criação de espaços de exaltação do estereótipo do opositor abjeto, e o ódio destilado em sua direção. Estereótipos desumanizam, não por serem inverdades, mas por serem incompletos. Eles fazem com que uma faceta da diversidade complexa de cada ser humano vire sua verdade absoluta.

Parece ser mais fácil defender a ideia de que todos os brasileiros têm o direito constitucional e o dever cívico de manifestar descontentamentos do que assimilar de verdade que nem todo descontentamento seja da mesma ordem. Mas o descontentamento expressado pelo discurso da birra – parcial, cego, surdo, mesquinho e raivoso – precisa ser refutado. Ter voz ativa no processo democrático não é o mesmo que vociferar colericamente, sem reflexão, quem dirá compaixão. Isso ameaça o próprio processo democrático.

5. Pandemônio

Existe quem se beneficie, de forma insidiosa, de programas de auxílio oferecidos por governos. Mas estou certa de que essas pessoas fazem parte de uma minoria, aliás bem parecida com outras minorias encontradas em círculos mais privilegiados e que também se beneficiam, de forma insidiosa, de outros tipos de “programas de auxílio” oferecidos por governos. O argumento de que os menos favorecidos sejam peões de manobra de governos populistas, e que seguem votando em petralhas ou equivalentes por levarem vida de gado serve igualmente para especular se os mais favorecidos também sejam peões de manobra de mídias golpistas, que seguem votando em tucanos ou equivalentes por levarem vida de teleguiado. No entanto, não me invisto com plena certeza em nenhuma dessas falácias. Acreditar piamente nelas, como já vimos, só faz polarizar.

É preciso que sejam feitas críticas informadas, sobre quem nos governa e quem nos informa, mas com respeito pelas considerações de quem apresenta contrapontos. É fundamental que a oposição se articule através da boa prosa de diálogos generosos que absorvam pontos de vista distintos em sua integridade, sem reducionismos temperados com preconceito. É crucial que polarizações sejam desconstruídas, para evitar que se alimente o ódio ao estereótipo do oponente abjeto. É imprescindível lembrar que política se faz não somente nas urnas, ou por políticos, mas durante todas as horas de todos os dias e por todos nós. Para isso, o protesto é indispensável, assim como é indispensável que ele seja imune à cegueira, ao egoísmo, ao ódio e ao medo. Enxergar as dificuldades enfrentadas pelo outro, questionar a manutenção de salvaguardas apenas para alguns seletos, desmerecer quem ousa lutar por pautas que não nos afetam, e temer mudanças que possam significar alterações sistêmicas e desafiadoras, não condizem com o ideal democrático.

Neo - Matrix
Neo, em Matrix

Calar, no debate, é aniquilar o outro, ainda que de forma simbólica. Silenciar o direito do outro através da exaltação discursiva de sua percebida abominabilidade não é fazer oposição, mas sim acreditar-se superior, melhor, mais merecedor de justiça e direitos que outrem.

Voto para que busquemos em nós mesmos a paciência e a sapiência que levam à verdadeira compreensão, pois foi precisamente este pandemônio discursivo que, num passado recente demais, forneceu brechas para a instauração da mão cruel e silenciadora do fascismo.

Joanna Burigo

Joanna Burigo

Joanna Burigo é mestre em Gênero e Mídia pela LSE. Co-fundadora do Guerreiras Project e do Gender Hub, hoje está dedicada ao seu próximo empreendimento feminista: a ainda não lançada #CasaDaMaeJoanna.
Joanna Burigo
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