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Robin nos deixou em agosto de 2014, mas plantou na Terra algumas sementes de herança. Essas sementes você pode chamar de filmes, roteiros, protagonizações. Hoje eu as chamo de lições. Robin partiu e como ator deixou um legado de personagens eternizados na história do cinema. Lembro que após a confirmação de seu falecimento, muitos artigos começaram a surgir sobre as tramas que já participou. Sociedade dos Poetas Mortos (1989, Peter Weir) e Patch Adams: O amor é contagioso (1998, Tom Shadyac) lotaram as minhas redes sociais em imagens memoráveis.

Nos últimos dias resolvi despertar Robin Williams. E, como consequência da minha ação, despertei-me junto a ele. Quero dizer que aprendi um pouco sobre a vida em “Tempo de Despertar” (Awakenings). Poderia ser mais fácil escrever sobre isso, se aquele desfecho não houvesse me deixado tão perturbada com o que as pessoas têm feito dos seus dias.

O filme estadunidense de 1990, dirigido por Penny Marshall e baseado no livro do neurologista Oliver Sacks, conta, entre outras linhas, uma história sobre a vida. A vida como deveria ser. Robin Willians (Malcolm Sayer) trabalha em um hospital psiquiátrico que acolhe vários pacientes em estado catatônico. Curioso com as reações (ou a ausência) delas em alguns pacientes, o médico sugere que aquelas pessoas estejam apenas adormecidas e, se bem medicadas, poderiam voltar à vida. Pesquisando, descobre que os pacientes sofrem de encefalite letárgica e que um remédio que trata o mal de Parkinson poderia ajudá-los no tratamento da cura. O primeiro teste acontece com Robert De Niro (Leonard Lowe) e, com um resultado positivo e progressivo, Sayer passa a medicar os outros pacientes. Entretanto, nenhum deles foi capaz de pensar nos efeitos colaterais, afinal, viver parecia ser mais urgente.

Leonard Lowe acordou para a vida no verão, uma época de renascimento e inocência. Com as sensações, sentimentos e movimentos recuperados, ele decidiu dar mais um passo e aproveitar o que perdeu. “O jornal está dizendo que tudo está ruim. As pessoas esqueceram o que é viver, estar vivo. Elas precisam ver o que já têm e o que podem perder”, ele disse. É exatamente sobre despertar que o filme trata. Mas um despertar muito mais amplo do que se consiga catalogar. Despertar para ideias, para realidade, para as coisas simples do dia-a-dia. Despertar para os outros. Despertar para o mundo, não só para si. Despertar para fora. De fato, o crucial do filme não é sobre neurologia. É sobre o quanto essa área da medicina pode ajudar os próprios profissionais daquele ambiente tão monocromático.

Quando retorna à vida, Lowe caminha, sorri, conversa, escreve, lê, veste-se, realiza atividades cotidianas e rotineiras que, para nós, são básicas e fáceis, e, mesmo num curto espaço de tempo, Lowe também se apaixona. Mas apaixona-se pelo carinho, pelo cuidado, pela atenção. Talvez Leonard tenha aprendido, desde cedo, o que é o amor. E, mesmo desacordado, tenha que cultivá-lo dentro de suas únicas partes vivas: o coração e a mente.

Enquanto cada paciente reflete sobre o que perdeu, o que queria ter vivido, para onde queria voltar, Lowe começa a apresentar um comportamento reverso ao esperado. Os efeitos colaterais do remédio passam a regredi-lo. E Leonard então atrofia para o estado que se encontrou a maior parte da sua vida. É observador. Afinal, era essa uma das poucas ações que poderia exercer enquanto estava “em coma”. Revoltado com o efeito estagnado da medicação, Lowe diz para o médico Sayer: “Você que estava dormindo!”.

E então o real objetivo do filme vem à tona. É clichê, mas alcança uma verdade que nunca estamos prontos para aceitar. Viver é mais difícil que sonhar. Estamos a todo instante fazendo planos, criando um futuro de maravilhas, trilhando o caminho para o amanhã. Esquecemos do hoje. “Foi disso que nos esquecemos. Das coisas mais simples”, disse Sayer. Não aproveitamos o dia, não aproveitamos a família, nem os amigos, nem os nossos relacionamentos. Não aproveitamos o que estamos vivendo, porque simplesmente nos colocamos a pensar no que fazer ao dar o próximo passo. Sayer deixou de girar no seu próprio eixo, para mapear a sua órbita. Lowe foi a sua lição.

Todos os pacientes regrediram à estaca zero. Mas não se pode dizer que não aproveitaram o tempo que estiveram acordados. Como recém chegados à vida, aquelas pessoas viveram. Sorriram. Choraram. Sentiram saudades. Sentiram amor. Raiva. Decepção. Arrependimento. Outras desejaram dormir novamente. Mas se entregaram ao que o momento poderia oferecer. Sentiram-se livres para subir na roda gigante e gritar do seu ponto mais alto: nós estamos vivos!

Talvez nunca saberemos a grandiosidade que é estarmos de pés firmes no chão. Talvez não seremos nunca capazes de dar valor ao privilégio de poder seguir adiante sem olhar para trás, sem vislumbrar o que vem pela frente. Aqueles pacientes viveram o que precisavam para sentir como pode ser maravilhoso estar no mundo, contribuir, fazer parte de alguma coisa.

Quando todos dormiram novamente, numa involução do medicamento testado, e era hora de recomeçar as buscas para um novo despertar, Sayer, que aparentemente nunca adormeceu, acordou. Quando tudo que faz sentindo adormece, percebemos o que nos falta, o que sempre foi composição para nos mantermos vivos. E firmes. Quando nos damos conta disso, já é tarde demais. Já é hora novamente de ligar os pontos e seguir o caminho; dar valor ao hoje, às pessoas de agora. Amanhã fica pra depois. Felicidade é urgência. Despertei Robin Williams na minha lista de dramas. Robin Williams me despertou pra vida.

(Texto originalmente publicado no jornal A União – PB)

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Dani Fechine

Graduanda em Jornalismo.

Conta histórias da vida, do que escuta, do que observa, do que lê e do que vive. É uma amante da vida real, mas não larga sua própria ficção.

Escreve também no seu Blog Pessoal, o Escrever Para Não Implodir.

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