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O ódio, e seu discurso, pretende impingir medo, que, como diria o gênio recluso Belchior, “está por fora e anda por dentro de nossos corações”. Fundamentado, real ou absolutamente artificial, o medo domina exatamente pela probabilidade de ser inevitável e fatal: basta que exista uma possibilidade de exposição a algum perigo temível!

O medo é uma sensação, um estado de espírito. É como se fosse uma luz vermelha em nosso organismo, daquelas luzes de alerta que acendem em caso de incêndio ou ataque de Godzilla. A liberação de adrenalina causa imediata taquicardia, preparando o corpo para a luta, ou para a fuga; músculos tremem involuntariamente, lábios ressecam, a pele empalidece. O medo antecipa a tragédia, e fazendo isto pode matar de ansiedade, ou evitar a catástrofe.

A ditadura do medo é cruel. Incute, mesmo nos mais inteligentes, fobias sem nenhuma base material para existir. Um exemplo é a extinção da humanidade. Basta que se discuta – no Congresso Nacional ou em uma mesa de bar – sobre o casamento igualitário, ou a adoção de crianças por casais homoafetivos, que surgem argumentações em torno da tal preservação da espécie. Afinal, dois iguais não procriam, ou no dito do filósofo Levy Fidélix: “aparelho excretor não reproduz”.

Gentilezas à parte, é preciso que se diga da inutilidade de tal medo, a não ser para fins de propaganda obscurantista. A humanidade, em termos de “reprodução” e “procriação”, vai muito bem, obrigado. Em números demoramos mais de sete mil anos, de “civilização”, para chegar ao primeiro bilhão – e eu imagino a matéria no Fantástico da época, deve ter sido louca! –, por volta de 1802, e mais uns 125 anos para chegar ao segundo bilhão de habitantes terrestres, por volta de 1927. Desde então é crescimento que não acaba mais: 3 bilhões em 1961, 4 bilhões em 1975, 5 bilhões em 1987, 6 bilhões em 1999, 7 bilhões em 2012. Estima-se que atinjamos 9 bilhões em 2054, portanto, apenas 252 anos após o primeiro bilhão. E os relatos sobre outras sexualidades é, talvez, tão antigo quanto o andar ereto – sem trocadilhos – dos humanos. É gente pra caramba!

Give Love a Chance
Foto: Michael Fleshman | Flickr

Morto este argumento, o que sobra desta tal preservação da espécie? Preconceito e medo, que aliás, caminham juntos desde sempre. O desconhecido é verdadeira fonte de pânico para a humanidade, e pouco importa o que digam as estatísticas e estudos: a retórica do medo é sempre mais forte. O genial escritor moçambicano Mia Couto, certa vez observou:

“Nem sempre os que me protegiam sabiam da diferença entre sentimento e realidade. Isso acontecia, por exemplo, quando me ensinaram a recear os desconhecidos. Na realidade a maior parte da violência contra as crianças sempre foi praticada, não por estranhos, mas por parentes e conhecidos.”

Não há, portanto, nenhum questionamento contra o medo. Apenas aprendemos que não devemos fazer isto ou aquilo, e prontamente nos conformamos. O medo mofa a nossa capacidade de raciocínio, apodrece nosso sentido de indignação. O medo orienta: esconda-se para não ser pego. Mas não há abrigo contra o medo!

Eu sempre convivi com o fato de não assistir filmes de terror, e por isso fui acusado – não injustamente – de medroso e frouxo (!). Enquanto todas as crianças ansiavam pelas estórias de terror contadas por adultos, à noite, ao redor de uma fogueira ou num quarto escuro, preferia a fantasia de minhas imaginações. Não entendia como alguém, de própria vontade, submetia-se ao medo, pois já há tanto medo involuntário nesta vida: medo de ser assaltado, de não ser aceito, de ser reprovado na escola ou na vida, de levar um não de alguém que se goste, de ver nunca chegar o beijo que os sonhos anteciparam, de morrer sem ter conhecido Pasárgada, de morrer. Porque buscar mais medo? Não entendia, nem entendo.

Fui criança medrosa, portanto, e isto me fez odiar o medo, que é a pior das ditaduras. O medo é a ditadura que obriga todos quantos nele vivem a isolar-se, com pavor do mundo e das pessoas; o medo é o cimento dos muros intermináveis e o metal dos cadeados; é a matéria-prima do desamor, e a prisão que atravessa os tempos, impossibilitando o único caminho para o paraíso: o outro!

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Yuri Pires

Yuri Pires

Escritor e poeta em Chiado Editora
Autor de O Homem e o Seu Tempo (2014),
nasci em Recife nos fantásticos anos 80, migrei para São Paulo como tantos de minha nordestinidade. Escrevo porque necessito saber o final das estórias que invento, e tenho sorte porque encontro quem leia e goste destas estórias. Colaboro com La Parola e com Obvious.
Yuri Pires