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Subo no coletivo. Antes disso corro duas ruas para evitar um assalto relâmpago. Não há assentos desocupados. Na mão esquerda, um livro. No ombro direito, uma bolsa com peso suficientemente desconfortável. Na minha frente, dois rapazes. Ocupavam duas cadeiras do ônibus. Eram fortes e altos. Um deles ousa ser gentil e se oferece para segurar o Eliane Brum que carrego. Eu ouso aceitar. Minha cabeça ousa pensar demais. Os dois homens me olham de vez em quando. “Será que estão tramando algo?”, eu penso. “O ponto de ônibus próximo à praça Antenor Navarro (JP/PB) é o mais esquisito do percurso, eles podem encostar uma faca em mim e me obrigar a descer com eles.” Desvio o olhar. Só penso agora no livro: “eles não podem levar”. Quando o pensamento se distrai um pouco: “moça, seu livro”. Os rapazes me entregam o livro, descem do ônibus e me deixam com a pergunta na cabeça: o que a insegurança fez comigo?

A experiência exaustiva me fez desconfiada. E, por vezes, preconceituosa. Após a descida dos rapazes me senti incapaz. Incapaz de confiar em qualquer pessoa. Incapaz de ter paz novamente. Incapaz de dialogar com meus próprios pensamentos. Senti-me uma pessoa ruim desconfiando da boa fé dos outros. É difícil controlar o instinto quando a própria vida está no limiar do susto e da conclusão do assalto. Qualquer pessoa “suspeita” que entra no ônibus faz meu coração disparar. E não é amor à primeira vista. É medo.

Mas o que é “suspeito”? Suspeitos são aqueles que já me assaltaram, roubaram ou furtaram. O ser humano por si só é vulnerável à minha desconfiança. Até a minha própria alma pode ser capaz de me trair. Sou eu contra o mundo. Ando prevenida por três, mas já fui alvo de dez. Brancos, negros, altos, baixos, velhos, novos.

Não me sento mais encostada na janela do coletivo. Dizem que ela foi feita pra gente refletir. Pra mim, ela é uma assombra. A não ser que eu conheça quem está sentado ao meu lado. Caso contrário, prefiro ficar até em pé mesmo. Motivo? Alguém pode apontar algum instrumento cortante ou arma de fogo na minha cintura e ninguém irá perceber, além disso, estarei encurralada. A que ponto cheguei?

Certa vez disse numa roda de amigos:

“Agora eu tenho medo até de mulher”.

Antes era quase unânime a quantidade de assaltantes do sexo masculino. Aparentemente, mulheres que roubavam era exceção. Hoje não há mais isso. Uma colega da minha mãe foi assaltada no ônibus – a mão armada – por uma loira muito bonita. Não desceu do salto. Nada de arma na cintura ou faca escondida no bolso. A moça-assaltante abriu a bolsa – talvez Hermes, talvez Chanel made in China – e mostrou a arma. Nada mais precisou ser dito. O assalto foi com classe.

Ouvi o som do motor da moto? Já estou na outra esquina. Minhas pernas foram programadas para correr sempre que avistasse alguma delas. Hoje eu corro por qualquer motivo e sou assaltada mesmo assim. Mas, por enquanto, é a minha forma de fugir. Bicicleta, o mesmo pânico. Não chegue silenciosamente perto de mim sendo ciclista: eu vou correr. A não ser que antes de parar você me mande passar celular, carteira e me chame de “mizera”. Fico caladinha, faço o que pede e depois corro chorando de volta pra casa. Hoje em dia eu corro até do vazio que a rua comporta.

A insegurança me colocou trancafiada num mundo onde ladrões estão soltos e inocentes estão presos na mira do perigo. A insegurança me deixou desconfiada com a vida, tirou a minha crença nas pessoas, a esperança e a capacidade de enxergar o mínimo de bondade em cada um. Enquanto o rapaz que pilota uma moto preta passa por mim e leva celular e carteira – como se realmente fosse dele – pra comprar droga e sustentar seu vício, eu volto pra casa incomunicável, sem dinheiro e com um trauma que destrói a minha rotina. A insegurança e a experiência me trouxeram essa doença sem cura chamada “medo” e não há lei da atração nenhuma que faça isso mudar.

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