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Segunda-feira (23) encerrou-se a edição 2015 do tradicional Salon du Livre de Parisque acontece anualmente na capital francesa, desde 1981. Este ano o país homenageado foi o Brasil e, por este motivo, a escolha dos representantes da delegação brasileira, pelo Ministério da Cultura (MinC), foi bastante aguardada, divulgada e questionada, não necessariamente nesta ordem.

Passados alguns dias do final do evento, seguem circulando pelas redes de comunicação: artigos, notas, críticas, elogios, diatribes e etecetera, sobre os escolhidos do Ministério. A última “polêmica” – merecedora de resposta por parte do MinC, vale ressaltar – foi sobre a remuneração (em forma de diárias) que os literatos teriam recebido para participar do evento: R$ 50. Sobre isso falou-se nos grandes veículos de comunicação brasileiros, à exaustão, como sendo absurda migalha.

Outro fato que repercutiu foi a desistência do best-seller Paulo Coelho de última hora por “problemas de agenda”. O escritor d’O Alquimista já tinha deixado de participar da Feira de Frankfurt, em 2013, quando o Brasil também foi homenageado, alegando não concordância com a escolha dos nomes que o acompanhariam no evento. À época, questionou o MinC quanto a não-presença de alguns escritores que, segundo ele, estariam mais gabaritados para representar a literatura brasileira do que os escolhidos oficiais.

O que me chama a atenção, nisto tudo, é a completa ausência de autocrítica da literatura brasileira, e o empobrecimento geral dos debates em torno dela. 

Será que esta oportunidade, também perdida em Frankfurt, não será nunca aproveitada? Falo da necessidade de discutir, profundamente, nossa literatura, a poesia e a prosa brasileira do século XXI; não conta suplemento literário de grandes veículos de comunicação, patrocinados por grandes editoras, por motivos óbvios, e muito menos debates café-com-leite em grandes livrarias. Estes eventos tem o seu lugar, mas não nos dizem nada sobre nós mesmos.

Nossos problemas resumem-se a questões numéricas? Quanto vende Fulano, Beltrano não vendeu bem o último título? Resume-se a questões financeiras? Quanto foi a diária em Frankfurt? Quanto foi a diária em Paris? Foi a isto que fomos reduzidos?

Parece que, para evitar fadigas, polêmicas e rusgas (que podem afetar as vendas), furtamo-nos do combate de ideias sobre qual literatura fazer?para quem?, e mais importante de tudo: por qual miserável motivo fazê-la! Em busca de paz, para vender melhor, para ter uma vida mais estável, o que temos é uma guerra de egos e números estéreis, de autores que se propõe maiores que suas obras.

E nesta brincadeira, acabamos por esquecer completamente a História da nossa própria Literatura, que desenvolveu-se através de debates intensos e renhidos sobre conceitos, teorias, ideias!

E o que ganhamos com isso? Alguém disse que o artista vende sua produção para garantir sua estabilidade financeira, para só em seguida ver-se livre para fazer arte, mais ou menos como Orson Welles, atuando em filmes que não queria para juntar grana e filmar genialidades; mas a vida anda tão complicada dentro da Literatura, que passamos a vida inteira tentando viver de (e para) escrever. Tudo bem, é uma desculpa cômoda, quente, confortável e válida, mas enquanto isso tornamo-nos obsoletos em matéria de debate público sobre arte, suas funções e disfunções, sua validade e sua invalidez, sua necessidade ou não, entregues completamente a produzir entretenimento.

São Macunaíma da Epifania: que falta faz um Oswald de Andrade para bagunçar as certidões negativas do nosso ofício (cada vez mais) cartorial!

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Yuri Pires

Yuri Pires

Escritor e poeta em Chiado Editora
Autor de O Homem e o Seu Tempo (2014),
nasci em Recife nos fantásticos anos 80, migrei para São Paulo como tantos de minha nordestinidade. Escrevo porque necessito saber o final das estórias que invento, e tenho sorte porque encontro quem leia e goste destas estórias. Colaboro com La Parola e com Obvious.
Yuri Pires