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Sentada nos últimos bancos de um ônibus lotado, o sol se pondo lá fora, pessoas e carros seguindo seus caminhos às pressas, correndo em direção ao fim do dia, como se o amanhã precisasse chegar logo, para que o depois de amanhã acabasse também. Enquanto isso eu permaneço sentada, sendo levada ao meu destino, conduzida por um estranho que não sabe pra onde eu vou, mas que precisa me levar até lá, a mim e a centenas de outras pessoas, que passam pelas portas de entrada e saída todos os dias. Nesse momento, eu paro e me pego olhando para o rosto dos que atravessam a catraca e conseguem passar por mim, formando um aglomerado de pessoas próximo à porta de saída, pessoas essas, que anseiam sair dali o mais rápido possível.

Apesar do barulho das várias conversas paralelas, é possível ouvir tudo e nada ao mesmo tempo. Alguns seres estão tão perdidos dentro de si, que mesmo não ouvindo suas vozes, é possível escutar os gritos dos seus pensamentos. E é aí que eu me vejo tentando decifrar cada um dos passageiros daquele ônibus, para onde estão indo, e em busca do quê, as histórias e/ou pessoas responsáveis pelos poucos sorrisos que consigo ver, as músicas que estão na playlist da estudante sentada à minha frente com fones de ouvido, ou o motivo pelo qual o senhor de idade resolveu passar a catraca, ao invés de permanecer na parte de assentos preferenciais, que por sinal, estava ocupada por algum jovem que não percebeu a entrada do senhor no ônibus, ou fingiu que não viu para continuar sentado.

Olho o garoto mais ou menos da minha idade sentado ao meu lado, tão preocupado em responder as mensagens que chegam no seu celular e os comentários da sua última foto postada no Instagram, que me pergunto se seria conveniente tentar iniciar uma conversa. Ao invés disso, pego meu celular e dou uma checada nas minhas redes sociais também, mesmo sabendo que não haveria nada de novo ou suficientemente interessante lá, que me tirasse dos meus devaneios. Após uma breve olhada, o coloco de volta na bolsa e dirijo a minha atenção novamente para os meus companheiros de viagem, será que mais alguém além de mim estaria se fazendo as mesmas perguntas? Imaginando as mesmas coisas? Ou será que eu era a única no meio de tantos corpos e mentes, que estaria despreocupada o suficiente para transformar o meu tempo ali, em uma busca por identidades e histórias que talvez nunca venha a encontrar ou conhecer?

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Bom, não há tempo para observar mais um pouco os meus acompanhantes, cheguei ao meu destino afinal. Dou uma última olhada, na esperança de encontrar algo que me faça terminar aquele percurso com alguma resposta, e saio não satisfeita. Mas não faz mal, o dia acaba hoje e recomeça amanhã, e mais uma vez me verei fazendo parte daquele mesmo cenário, provavelmente com personagens diferentes, mas todos com algo a contar.

Quem sabe eu encontre o garoto do celular, e talvez dessa vez, consiga seu número e passe a ser a pessoa a quem ele responde mensagens no ônibus, enquanto algum ser qualquer, sentado ao seu lado, pensa se seria conveniente ou não iniciar uma conversa.

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Christine Alencar

Christine Alencar

Mil em uma só. Muitos sonhos, pouco tempo. Troco comida por mais 5 minutinhos dormindo (a menos que a comida oferecida seja chocolate).
Me derreto com sotaques, mineiros, músicos e belos sorrisos.
Apaixonada por tudo que precise de inspiração, ou que possa ser visto de maneiras diferentes.
Futura mochileira.
Christine Alencar

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