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Há uma nova, velha, moda comportamental: o saudosismo. Quem nunca escutou, ou leu, um de seus amigos dizendo coisas como: “bom era no tempo que dondon jogava no Andaraí” ou ainda, “hoje em dia é uma pouca vergonha só, homem com homem, mulher com mulher, na televisão”. O mais curioso desta nova onda é a quantidade de jovens atacados por ela. Pessoas que viveram suas infâncias nos anos 80 e 90 do século passado, seguem achando que “devem-se respeitar as tradições”.

Ainda que o fenômeno não seja propriamente novo, de tempos em tempos ganha força. Desde que os Direitos Humanos passaram a ser uma discussão de primeiro plano no Brasil, há um rumor saudosista, crescente, afirmando: “bom era no tempo em que a gente falava de qualquer um, sem esse mimimi”, ou sua versão mais tragicômica: “bom era quando os negros e gays não se ofendiam com as piadas”.

Não entende, o saudosista, que o negro, o gay, o nordestino, a mulher, a criança com down, o travesti (dentre outros e outras), sempre se ofenderam. A diferença é que agora sentem-se mais amparados socialmente para verbalizar o seu descontentamento com a caricaturização a que são submetidos. A velocidade da comunicação na modernidade líquida, tão útil para a difusão do saudosismo, é a responsável imediata pela afirmação dos grupos historicamente segregados – veja que paradoxo. Aquela e aquele que sentiam-se diferentes, na paisagem de seu habitat, conheceram outras histórias, perceberam que não são únicos, pelo contrário, há centenas de milhões de pessoas iguaizinhas aos diferentes de nossa circunvizinhança.

As defesas que cada grupo deste faz – de sua própria dignidade -, são colocadas, nos dias atuais, debaixo de um enorme guarda-chuva chamado politicamente correto. Apesar de alguns exageros aqui e acolá, o politicamente correto é o escudo da criança negra contra os apelidos agradáveis de tição, buiu, carvãozinho, graxa, piche, e etc, dentro da escola. É a proteção da criança com Down, contra os dedos apontados gritando: “anormal, aberração, doido, louco”.

Todos somos diferentes, isto é uma obviedade. Das mais variadas tonalidades, dos mais diversos tamanhos, dos mais diferentes gêneros, das mais diversas capacidades. A pergunta é: sua diferença o deixa em condições de vantagem ou desvantagem social? Este é o cerne da questão. O que não percebe o saudosista, é que trata-se de uma piada apenas para ele, pois para o outro é muito mais que uma piada, é a verbalização de séculos e séculos de subjugo sociocultural.

E assim como o humorista tem todo o direito de seguir pintando toscas caricaturas, os descontentes com isto tem todo o direito de ficar contrários a esta caricaturização, organizando outros diferentes para repudiar a piada, para boicotar o humorista, levá-lo à justiça e etc, afinal todos respondemos pelos nossos atos e palavras.

O problema dos saudosistas é que, ao contrário dos alquimistas previstos por Ben Jor, eles não são discretos e silenciosos, e tampouco escolhem com carinho a hora e o tempo do seu precioso trabalho. Basta-lhes uma manchete ou um vídeo de trinta segundos para formar a opinião sobre qualquer preconceito estabelecido. Para além disso, ao contrário dos alquimistas, os saudosistas não evitam relações com pessoas de temperamento sórdido. E elas existem aos montes!

Alguns dirão “ah, o mundo está bem mais chato”. Para você, cara pálida. Se isto não lhe afetava, nem lhe afeta, nem há capacidade para imaginar-se no lugar do atingido, acostume-se, pois como diria o genial Alceu Valença: “você quer parar o tempo… mas o tempo não tem parada!”

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Yuri Pires

Yuri Pires

Escritor e poeta em Chiado Editora
Autor de O Homem e o Seu Tempo (2014),
nasci em Recife nos fantásticos anos 80, migrei para São Paulo como tantos de minha nordestinidade. Escrevo porque necessito saber o final das estórias que invento, e tenho sorte porque encontro quem leia e goste destas estórias. Colaboro com La Parola e com Obvious.
Yuri Pires