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Quantas vezes, ao longo de sua vida, você não teve a impressão de estar no piloto automático? De cumprir com seus compromissos mecanicamente, sem pensar como, por que e para que você faz o que faz e pensa o que pensa?

Acredito que todos nós já nos sentimos assim, pelo menos uma vez. E esta sensação reflete-se na internet, principalmente nas redes sociais: algo acontece e, cinco minutos depois, já encontramos textos agressivamente opinativos sobre o ocorrido. O que nos leva a perguntar como alguém elaborou tão rápido um julgamento sobre um assunto que acabou de acontecer.

São os sinais de que nossa vida anda corrida e caótica demais – tanto, que nos falta tempo para parar e analisar o que acontece conosco, e em nossa volta. E assim somente falamos o que pensamos sem, de fato, pensar antes de falar.

Escrevi esta breve introdução para discorrer sobre um livro que tive a feliz oportunidade de ler recentemente. Falo da obra Artesão das Palavras, do escritor Luiz Valério de Paula Trindade, que reúne crônicas tratando de temas corriqueiros, porém fundamentais, e costumeiramente colocados em segundo plano por nós: o amor, o envelhecimento, o arrependimento, a esperança, nossas perdas e conquistas, a felicidade, a inspiração, a maternidade, e tudo o que acontece enquanto estamos no piloto automático.

Conforme diz o autor:

– As crônicas são provenientes de muita observação e análise crítica de situações do cotidiano, que afetam a maioria das pessoas, inclusive eu.

E justamente por partirem de uma avaliação crítica e atenciosa de nosso dia a dia, e de questões que nos afetam direta ou indiretamente, é que as crônicas escritas por Luiz Valério são atemporais – ao contrário da maioria das crônicas, que geralmente focam-se em um acontecimento recente e, justamente por isso, possuem prazo de validade restrito.

Como um observador detalhista e inquieto, em seu livro de estreia Luiz Valério se propôs a reavaliar e a redescobrir temas que, apesar de relegados, permeiam nossas vidas constantemente; buscando encontrar, sob um mesmo assunto, diferentes formas de analisá-lo, o autor se dispõe a dar sua opinião de forma leve, clara e objetiva, mas sem tirar do leitor o espaço para que elabore sua própria opinião.

E é por esta razão que muitos leitores, que já tiveram a oportunidade de ler o livro Artesão das Palavras, dizem conectar-se com a obra, encontrando pontos de identificação entre o texto de Luiz Valério e suas percepções sobre a vida e sobre si mesmo:

– Às vezes, alguns leitores entram em contato afirmando que se identificaram com os textos, ou então que sentiram como se tivessem sido escritos especialmente para eles. Este tipo de manifestação representa a maior recompensa que eu poderia ter, pois sinaliza que os textos estão cumprindo sua função de tocar as pessoas, ou então de estimular a reflexão.

A importância que Luiz Valério confere aos seus leitores é visível em sua obra, mas também em sua postura enquanto autor. Passa longe de suas pretensões criar a imagem de um escritor inacessível, indisponível e soberano no alto de seus julgamentos. E esta consideração e respeito ao seu público fazem a diferença no resultado final de seu trabalho.

Artesão-das-Palavras---Luiz-Valério-de-Paula-Trindade---CAPANão por acaso o livro se chama Artesão das Palavras; pois é exatamente assim que Luiz Valério enxerga o trabalho do escritor: artesanal. Tal e qual o artesão converte o barro bruto em um belo vaso, por exemplo, o escritor também deve se apropriar de palavras soltas, e aparentemente sem um significado maior, e transformá-las em algo coerente, expressivo e intenso. Uma atividade que não pode ser desempenhada em escala industrial, e nem pode ser realizada mecanicamente – caso contrário, corre o risco de se tornar superficial e oca.

Talvez um dos papéis da literatura seja justamente este: arrancar-nos do piloto automático; obrigar-nos a abrir os olhos e enxergar o que se passa ao nosso lado, e dentro de cada um de nós. Levar-nos a avaliar como, por que e para que fazemos o que fazemos e pensamos o que pensamos.

E neste ponto Luiz Valério foi impecável. Artesão das Palavras é um livro elaborado e bem-acabado, no qual é perceptível o processo de aprimoramento pelo qual passou o autor, e seus textos. E é justamente por ter tanto zelo e apreço pelo ato da escrita, que Luiz Valério é um escritor completo: não somente sabe escrever, como sabe se aproximar do leitor e com ele dialogar, sem imposição, sem rebuscamento. De modo simples e natural, como deve ser.

Por todos estes motivos eu recomendo – e muito – o livro Artesão das Palavras. Mas, mais do que isso, sugiro que você conheça e acompanhe o trabalho realizado pelo escritor Luiz Valério de Paula Trindade.

Por que ele sabe para onde vai, e sabe como e por que vai.

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Jana Lauxen

Jana Lauxen é escritora, editora e produtora cultural, autora dos livros Uma Carta por Benjamin (2009) e O Túmulo do Ladrão (2013).
E-mail para contato: osdezmelhores@gmail.com
Site: www.janalauxen.com

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