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Eu não sei como isso aconteceu, até as pessoas que até então achavam que a única solução para o país era nascer de novo estão esperançosas de que há uma luz no fim desse interminável túnel.

Acompanhei pela televisão, jornais e, principalmente, pela internet, os últimos protestos que têm dominado todo o Brasil. Mas vivo em Passo Fundo e não viajei para Porto Alegre (a Ju Acco foi, dá uma lida aqui no relato que ela escreveu), nem São Paulo ou outra cidade. Portanto, tive que esperar para que a onda chegasse em Passo Fundo. E a onda chegou. Chegou chegando.

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Todo mundo foi

No dia 20 de junho de 2013 eu vi a história acontecer na cidade. A cidade não possui estes dados estatísticos, então ao menos são recordes particulares o que vou falar agora. Eu nunca vi tanta bandeira do Brasil em Passo Fundo como vi no protesto. Eu nunca presenciei tanto patriotismo, que não fosse em um estádio de futebol, como vi no protesto. E eu nunca vi tanta gente conhecida no mesmo lugar. Talvez vi até mais conhecidos do que em meu próprio aniversário.

Para quem não é daqui, explico que Passo Fundo é uma cidade universitária do interior do Rio Grande do Sul, com uma população de 190 mil habitantes. Interior…cidade universitária…em outras palavras, todo mundo se conhece.  Deste total, 6 mil foram às ruas (ouvi dizer que o número pode ter chegado a 10 mil!) para participar do 6º ato contra o aumento da tarifa de ônibus. Mas é evidente que a pauta se estendeu a outras reivindicações, assim como tem ocorrido Brasil a fora.

Este foi um momento memorável para a cidade. Acompanhei  três outros atos anteriores, que foram minúsculos se comparado a este último. Não mais do que 300 pessoas compareciam às ruas até então. O que explica este aumento considerável de pessoas? Tudo. A causa não é mais o transporte coletivo, ainda que tenha sido o que despertou o movimento. A causa é tudo. Está tudo errado. E eu e o resto das pessoas estamos cansados de viver em um país cheio de políticos corruptos que limpam a bunda com nosso dinheiro. Mais do que a revogação da passagem de ônibus, eu quero que os governantes sintam medo do povo, sintam vergonha na cara, trabalhem mais e roubem menos.

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A Caminhada

Cansei as pernas, mas valeu a pena. A manifestação iniciou na esquina da Avenida Brasil com a Rua Bento Gonçalves. Do ponto de encontro, fomos pela Avenida até a frente da Prefeitura Municipal, onde encontramos os portões fechados. Os passo-fundenses são tão vândalos que ao se deparar com o portão fechado, viraram as costas e foram embora. Achei inteligente, já que obviamente nenhum representante do governo municipal estaria na prefeitura naquele momento.

A meia volta foi dada e a caminhada seguiu pela Avenida Brasil até a altura do IE, quando teve que novamente dar meia volta e retornar pela mesma Avenida, dessa vez pelo lado oposto. Como as ruas não ficaram integralmente fechadas, após este retorno aconteceu de encontrarmos alguns carros vindo na direção oposta. Um total de nenhum carro foi depredado. A única exigência da galera era pedir para que os carros ligassem o pisca-alerta para indicar que apoiavam o movimento. O mesmo aconteceu para as pessoas que estavam nos apartamentos, “quem apoia pisca a luz, quem apoia pisca a luz!” todos gritavam. E sim, algumas luzes piscavam.

Naquele momento eu já me sentia uma ovelha seguindo o rebanho, não fazia ideia para onde ia o movimento e nem quando terminaria, mas segui o fluxo. A manifestação então voltou até a Rua Bento Gonçalves, desceu a Rua Independência (onde algumas pessoas que já tinham deixado o protesto estavam tomando uma cervejinha), subiu a Rua Fagundes (foi difícil este momento, quem conhece o íngrime aclive entenderá), caminhou pela Rua Morom até parar na esquina com a Bento.

O relógio da praça da cuia, naquele momento, marcava exatamente 20h50. Nesta esquina o movimento permaneceu por alguns minutos, acompanhado da presença da Brigada Militar. Solidariamente, em certos momentos o povo “abria” para os carros cruzarem o semáforo. Poucas pessoas ainda restavam, em uma estimativa minha eu imagino que éramos cerca de duzentas.

Quando o relógio recém passara das 21h, a manifestação voltou ao ponto inicial, na mesma Bento Gonçalves, mas na esquina com a Avenida Brasil. Naquele ponto, cerca de cem pessoas estavam ainda no ato. A Brigada Militar apareceu em seguida e quase ameaçou uma truculência, mas respeitou o povo. A tropa de choque apareceu e causou aquele pensamento nas pessoas de que “ih, agora vai feder”, mas foi só expectativa. O povo estava se manifestando legal e pacificamente. A Brigada até engoliu seco os gritos de “Você aí fardado, também é explorado!”, que é algo que não deixa de fazer sentido.

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Sem Partido

A exemplo de outras cidades, o grito dos apartidários foi mais alto na noite. Eu senti pena de um cara que estava solitário estendendo a bandeira do PCdoB. Não foi brincadeira a quantidade de vaia que aquele cidadão levou, foi quase bullying. Mas, neste caso o povo tinha razão.

Para quem não é de Passo Fundo, explico: O vice-prefeito da cidade, Juliano Roso, é conhecido na cidade por ter sido ativista e líder estudantil nos idos de mil novecentos e antigamente. Sempre defendeu o transporte público de qualidade para os estudantes quando encabeçava o movimento estudantil. De lá para cá, foi eleito vereador por três vezes e hoje é o vice-prefeito da cidade. Muitas pessoas do movimento cobraram explicações para o vice-prefeito. Afinal, alguém que é do nosso lado, estará do nosso lado nessa luta. Não foi o que aconteceu, Juliano, o ex-militante estudantil calou-se. E qual o seu partido? O PCdoB.

Os gritos de “sem partido! sem partido!” já tinham se repetido algumas meia-dúzias de vezes até um outro ecoar. Era assim: “PSTU, vai tomar no cu!”. Em um dos momentos mais quentes, alguns manifestantes tentaram hostilizar o partido. O militante do PSTU questionava um cidadão exaltado que partia para cima perguntando “Qual é a tua luta? Não é essa luta não!”.

A própria população tratou de acalmar os ânimos, mas não antes do Homem-Aranha entrar em ação (sim, o Homem-Aranha, estava lá, veja no vídeo abaixo). Não consegui ver muito bem o que aconteceu, mas logo depois das discussões a galera começou a gritar “Uh é Homem-Aranha! Uh é Homem-Aranha! Uh, terror! Homem-Aranha é matador”. Um sensacional momento de descontração do protesto. Segundos depois, outros manifestantes começaram a cantar o Hino Nacional, e então o Homem-Aranha saiu de cena, ofuscado pelo canto.

Sem Violência

Segundo o nosso instituto fictício de pesquisa que acabei de criar, 50 pessoas ficaram feridas na manifestação do dia 20 de junho em Passo Fundo. Este é o número estimado de pessoas que contraíram resfriado devido à chuva que caiu do início ao fim. Só.

O grito “sem violência! sem violência” ficou famoso no país, muito em virtude dos acontecimentos em São Paulo, em que o povo pedia “sem violência” e recebia tiros de balas de borracha em troca. Aqui não foi diferente. Não a parte dos tiros, mas a dos gritos. Durante o trajeto, diversas vezes os manifestantes clamaram por paz.

Os dois momentos mais tensos do protesto foram os seguintes:

1)      Em uma parte do trajeto, na Avenida Brasil, um manifestante pegou uma lixeira da calçada e jogou no meio da rua. Imediatamente outro manifestante recolheu a lixeira e colocou-a em seu devido lugar. O povo aplaudiu a atitude.

2)      Quase no fim do protesto (e eu não sei por qual motivo isso aconteceu), apareceu a tropa de choque da Brigada Militar. Verdade que todos estavam trancando a Avenida Brasil, mas não fazia mais do que 10 minutos que o povo estava lá. A tropa de choque apareceu e se posicionou em frente aos manifestantes. Duas pessoas foram, ao que tudo indica aleatoriamente, escolhidas e levadas à van da tropa de choque. Eram dois caras, um estava filmando a ação, outro eu não sei. Menos de cinco minutos mais tarde, a Brigada liberou os dois, que voltaram para a manifestação. De fato, se algo tivesse acontecido de errado eles não teriam sido liberados. Incógnita.

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Baixa logo a passagem, prefeito

Depois de seis mil pessoas marcharem pela cidade putos da vida com o governo, não acredito que o prefeito seja tão insensível a ponto de não revogar o aumento. O aumento de R$ 2,45 para R$ 2,70, que entrou em vigor em abril, é nitidamente abusivo. A tarifa é mais do que injusta para uma cidade do porte de Passo Fundo, principalmente porque o serviço de transporte deixa muito a desejar. Eu mesmo não o utilizo, pois para mim sai mais caro andar de ônibus do que de carro (Em que mundo isso tem cabimento? No mundo passo-fundense).

A pergunta que fica é: O prefeito vai escutar a massa que saiu pacificamente para protestar ou vai manter o pulso firme e esperar que o povo se enfureça e comece a vandalizar (ainda que eu não acredite que em Passo Fundo isso aconteça)? Se a tarifa de transporte público não baixar e atos de vandalismo começarem a acontecer em Passo Fundo, já saberemos de quem é a culpa. O povo pede paz. Então, prefeito, não provoque guerra.

Atualização:

O prefeito Luciano Azevedo falou à Radio Planalto de Passo Fundo, na tarde de 21 de junho, a respeito dos protestos do dia anterior. Luciano ressaltou que este é o menor aumento da passagem dos últimos anos e que foi decretado após o estudo de uma planilha técnica de custos, que não foi feita pelo governo.

Finalizou dizendo que o valor do aumento é inferior ao valor da planilha. Bom, a planilha é controversa, uma vez que as três empresas que exploram o serviço apresentaram valores distintos.

Codepas : R$ 2,88
Coleurb: R$ 2,86
Transpasso R$ 2,80

Segundo o prefeito, a planilha é pública e está disponível no Ministério Público e na Secretaria de Transporte e Serviços Gerais. Porém, para obter a planilha, é necessário fazer um ofício e aguardar em torno de dois dias. O certo seria disponibilizar na internet, mas alguns governos ainda insistem em viver na Idade Média.

O protesto em Passo Fundo foi lindo, pacífico, civilizado. E o que a população recebeu em troca? Nada! Atitude extremamente insensível e intransigente do prefeito. Hoje (21) tem mais protesto, veremos se mais pressão resultará na revogação ou em mais descaso.

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Fotos: La Parola

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