Poesia Copacabana

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carlos-drummond-de-andradeDentro do meu pífio conhecimento literário, gosto de citar um poema do faraônico Carlos Drummond de Andrade, quando certos períodos de tempo se encerram. O excerto que irei sequestrar é advindo do interessantíssimo poema chamado “Cortar O Tempo”, e a parcela de versos selecionados é esta:

Quem teve a ideia de cortar o tempo em fatias, a que se deu o nome de ano foi um indivíduo genial.
Industrializou a esperança, fazendo-a funcionar no limite da exaustão.
Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos.
Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez,
Com outro número e outra vontade de acreditar que daqui para adiante vai ser diferente…

Esses versos simbolizam algo grandioso, a tentativa de controle do homem em relação a tudo que existe, mas como já é sabido, tal tarefa não é 100% funcional, ainda mais com o fator tempo. Nós apenas administramos a contagem dos ponteiros, não sua velocidade, porém é elementar perceber o fechamento de ciclos, a aparição de oportunidades e o fim de padrões…

No fim das contas nós não dominamos nada e parece que estamos a mercê de acontecimentos isolados, parece que alguém preparou o solo para que nós apenas façamos a colheita, algo semelhante ao “Karma” de Pharoah Sanders e seu brilhante saxofone, que de forma espiritualmente Jazzística complementam os versos de Drummond e parecem abrir os ouvidos do ouvinte para novos tempos, ou alertá-los para a odisseia do fim dos mesmos, o “Bitches Brew” da humanidade em stand by, (mode Jazz) on.

pharoah-sanders-karma capa

Track List:

1. The Creator Has A Master Plan
2. Colors

Nos anos 60 o reboliço político-social rendeu muito conteúdo para o Jazz. Um dos grandes momentos para o estilo foi, sem dúvida alguma, quando os fatores externos começaram a influenciar o caminho criativo da música, com clara ligação em sua parte estilística. Note por exemplo a capa deste disco, veja como a arte é absolutamente diferente das capas usuais, invocando uma clara conexão espiritual e a elevação do ser humano pelo aspecto musical, aliás esse parágrafo resume bem o que a carreira do grande Sanders tentou alcançar, uma conexão em grau ainda desconhecido, mas que seu saxofone parecia conseguir discar no modem Jazzístico.

Pharoah Sanders

Esse trabalho é dito como o melhor do saxofonista e é complicado não concordar. Dentre seus mais de 30 LP’s solo (fora as dezenas de contribuições), Pharoah sempre foi um cara diferenciado dentro do business pois possui um approach claramente diferenciado, notas em prol de meditação, inclusive sou capaz de afirmar que ele e a subestimadamente brilhante Alice Coltrane foram os expoentes dessa vertente, sem falar pioneiros.

E aqui isso fica bem claro. Pode até parecer levemente desconexa a ideia de relacionar uma poesia de Drummond com um disco de Jazz, mas se algum dia alguém quiser tecer qualquer tipo de ligação, creio que poucas seriam tão complementares quanto essa, e não digo isso por ter sido minha ideia, e sim pela qualidade das obras aqui citadas, tanto pelo lado musical, quanto poético.

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O encerramento de um elo, o nirvana de saber que existem possibilidades frescas no ar, apenas (adaptando Keith Richards), “Esperando que sua cabeça sintonize a estação correta”, é um dos temperos deste épico trabalho. Que apoiando seu riquíssimo som no puro e sublime sentimento, trata de deixar o ouvinte igual o próprio autor posou para a capa, completamente concentrado e em puro equilíbrio com seu jardim zen mental.

E não se engane pelo curto track list, a primeira faixa, a que sintetiza a ousadia desta criação (“The Creator Has A Master Plan”) passa dos 30 minutos e sua mente nem notará tal absurdo, tamanha a qualidade da teia enigmática de arranjos que buscam elevar-levitar corpo e alma. Veja esse CD como uma sessão de terapia, não pense que funcionará em qualquer atmosfera, temperatura ou pressão do ar, trata-se de algo para ser apreciado em condições muito bem trabalhadas, momentos de pura tranquilidade e simétrica (sem dizer contemplativa) atenção.

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E não se esqueça que depois de encontrar seus caminhos você ainda precisa levantar-se para virar o oráculo do lado A para o B, e prosseguir a caravana celestial, agora plenamente leve, com o encerramento menos denso (vulgo “Colors”). Tema que assim como os parenteses que encerraram o parágrafo anterior, buscam fazer o ser notar as mudanças em seu corpo de forma implícita, finalizando a extração de excessos mundanos com algo biodegradável.

Um brinde aos toques de brisa de um dos discos mais avançados da história da música e seus 40 minutos de insight sonoro, e claro, outro replay de tim-tim para a renovação e a saideira em homenagem ao cidadão que começou tudo isso, um abraço Drummond.

Line Up:

Pharoah Sanders (saxofone)
Julius Watkins (trompa)
James Spaulding (flauta)
Reggie Workman (baixo)
Ron Carter (baixo)
Richard Davis (baixo)
Lonnie Liston Smith (piano)
Leon Thomas (percussão/vocal)
Nathaniel Bettis (percussão)
Freddie Waits (bateria)
Billy Hart (bateria)

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Guilherme Espir

Publicitário em formação, zappamaníaco e escritor de fundo de quintal fissurado em música tal qual um viciado à espera da próxima dose, neste caso aguardando em abstinência para o próximo disco.
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